quarta-feira, 26 de junho de 2013

Duas peças de um coração partido




Não conseguia dormir à noite. Estava acordado , meio confuso com tudo o que se passara. Ouvia o seu respirar a criar eco entre aquelas paredes ocas , brancas totalmente desprovidas de beleza e estética.
Ansiava  pela sua heroína que haveria de chegar e apresentar-se à sua janela e dizer-lhe que o amava, como um rouxinol que anima as tórridas noites de verão com o seu cantar de embalar , deliciando todos os seus ouvintes com tamanhos doces gorjeios .
Mas aqui está a história que ele não contou a ninguém:  Fora roubado, torturado, morto. Um crime perfeito de modo a extorquir o seu coração e todo o seu sentimento fora delineado, mas mesmo assim nada o derrubou. Apenas cinzas foram deixadas no chão e um sobrevivente delas renasceu, tornando-se um guerreiro com uma armadura feita de metal, onde não cabia mais nada para além dele e do seu orgulho e ódio. Um rapaz que teria que crescer mais rápido que todos os outros era agora um grande guerreiro forte e imponente, sem conseguir sentir mágoa ou medo.  Começou por brincar às marionetas na vida real, tratando todos como seu domínio pessoal, não mostrando a sua ferida que raspava o seu coração  . Colocou todas as suas defesas no seu mais pleno auge, ansiando por enfrentar todos , desbravando montes e corações, apunhalando árvores e costas, apedrejando águas e cabeças, matando insetos e pessoas. 
Nessa noite, sentiu-se atentado pela sua própria dureza , magoando-se a si mesmo. Sim, sentia agora mágoa como que pela primeira vez.  Porque lhe cantaria ela músicas de amor , mas sem o amor? Nunca teria sido necessário a tal prova de amar alguém entre eles, mas o laço quebrou-se, contudo a cantiga era sempre a mesma, não de uma forma natural, mas esforçada ,quase roubada de um outro refrão copiosamente cantado.  Porque insistia ele, então, em chamar-lhes músicas de amor, se não existia o Amor? Eram agora amantes corrompidos.
“Era uma vez um rapaz que perdeu o seu caminho à procura de alguém com quem brincar; Há uma rapariga ,cujas lágrimas lhe caem pela cara” , são estas as duas peças de um coração partido.