domingo, 17 de abril de 2016

Dama Leonor - I

Chegada de Inglaterra, lá estava a Dama Leonor, como gostava de ser apelidada, à porta do barco que a trouxera para os mares de Lisboa. Ai Tejo, Tejo, que traiçoeiro andas tu, trazer pessoas de índole tão dispersa pela insanidade…
As madeiras da barcaça gemiam de dor ao embater contra o cimento do porto, ali para os lados do Terreiro do Paço, as crianças passeavam-se pelas ruas a exibir as suas boinas e as senhoritas abanicavam-se, pois o sol estava quentíssimo e as fazia suar, coitadas das moçoilas. A puberdade traz destas coisas, andavam, pobrezitas, todas enfeitadas à procura de seu dono que lhes quisesse pegar, mas desgraçadas andavam todas numa fona, ora pois não havia homem que lhes deitasse a mão. Joana, Graciete e Ana Maria, as três alcoviteiras mais famosas ali do sítio, tão mal faladas que eram, só queriam ganhar a vida, ora nenhum senhor as pedia em casamento e elas, coitaditas, tinham fomes apertadas.
Assoberbou-se-lhes a Dama Leonor, cheia de saias, saiotes e saiões verdes cintilantes e brancas cor de névoa, um corpete bem ajeitado a delinear a bela forma dos peitos que tinha. E que peitos!
- Queiram, por favor, dizer-me onde fica a casa do Senhor Villalva.
- É por ali. – Respondeu-lhe afinadamente Joana, apontando o seu másculo dedo para o outro lado da praça.
- Muitíssimo agradecida, cara senho…rapariga. – De soslaio, olhou-a Dama Leonor e logo se arrependeu do termo que iria empregar.
- Olha lá, aquela toda emperiquitada veio d´onde?
- Sei lá, mulher, é mais uma para nos ocupar a via. – Respondeu Joana a Graciete.
Ana Maria era tímida, pelo que só se deitava por cama de homens endinheirados e pacatos, já as suas companheiras, cada uma mais dada ao atrevimento que outra, olhavam sobejamente cada verga que se lhes assomava, ora com tanta oferta havia lá a rapaziada de se oferecer a constrangimentos, horas se sorte, avante, avante!
Dama Leonor acercava-se sub-repticiamente à cada de Sr. Villalva. Bateu à porta quatro vezes a anunciar a sua chegada.
- Dona Leonor, queira entrar, por favor, dê-me o casaco, entre, entre.
- Anastácia, credo, aprenda que Dona e Dama são palavritas diferentes.
- Aceite as minhas desculpas.
- Deixa-te de desculpas e traz-me o meu chá de pétalas de rosa com goiaba e menta.
- Com certeza.
- Estás mais gorda querida, tens de fechar mais essa boquinha, senão meu irmão não ganha para te arranjar fardas.
Anastácia não ouviu, estava já na cozinha.
- Irmã, querida irmã, como tens passado?
- Oh meu querido, atarefadíssima com a pequenada lá de casa, Inglaterra é muito movimentada e o Charles, teu sobrinho, ingressou na faculdade, ninguém dava nada pela criatura, mas ergueu-se e homem se fez.
- Sério? Ora, grandes notícias, por favor, sentai. Dizei-me, cara irmã, teu marido…
- David.
- Certo, David, como está ele?
- Igual aos outros todos, querido irmão, na cova. Também já lá devia uns aninhos…à cova!
- Santo Deus, nosso Pai, que sucedeu?
- Idade. E tu, namoradas? Já vi que desse mato não sai coelho.
- Leonor Villalva, um homem não precisa de mulher para ser grande.
-Bem sei, bem sei. Agora ordenai a tua empregada que me traga um chá, devias cortar-lhe na ração, a criatura está embezerrada com tanta gordura.
- Achas? Acharei oportuno que lhe passes alguns ensinamentos do bem parecer e saber estar…
- Poderás confiar em mim, nesta minha curta, contudo nobre estadia, farei da tua Anastácia a imagem da minha empregada, a Isa, mas coitada com este nome tão pobre e ocioso, trato-a por Diva.
- Assim o espero minha irmã. Agora irei retirar-me, pois tenho uma jogatana marcada com o meu amigo Bernardo Macieira, grande homem.
- Ah, sim, penso que me recordo desse senhor, trá-lo para jantar, meu irmão.
- Assim farei, até logo.
Anastácia veio em passos largos para entregar o chá de pétalas de rosa com goiaba e menta.
- Anastácia, querida. Irei presenteá-la com os meus ensinamentos de como ser uma dama, uma boa senhora.
- Para quê?
- Não é para quê, sua ingrata, é muito obrigado, minha senhora. Uff, vai lá para dentro que já lá vou ter contigo.
Anastácia assim como entrou também saiu da sala, a passos largos. Era uma pobre mulher, nunca teve uma mãe que a educasse, havia sido uma rameira que a abandonara aos cuidados do pai, um homem rude e sempre muito sisudo. Nunca teve marido, nunca foi mãe. Nunca soube o que é ter uma mãe e nunca saberei o que é ser mãe, pobre de mim, que infelicidade. Decidiu ausentar-se por umas horas para ir comprar algumas mercearias que lá por casa já faziam falta.
- Então jeropiga doce, onde vais? Não me digas que decidiste homenagear a tua mãe, rainha do nosso ofício, e entregar-te ao mundo do prazer? – Desdenhou Joana.
Anastácia, retraída e muito envergonhada, ignorou-a, força do hábito. Só o Senhor sabe as desventuras pelas quais Anastácia passou por causa da sua progenitora, nunca arranjara marido por essa razão. Apenas um marmanjo se lhe chegou, todavia as intenções eram apenas desflorá-la e ganhar o respeito dos outros machos que por ela tremiam o beicinho. Lá ia ela, muito assenhorada, nas suas roupitas humildes e agarrada à sua malita branca, amarelecida pelo tempo e pelo uso. Lá força tinha ela, tinha quase 53 anos e não se importava de subir até às ruas do Rossio para ir até à Mercearia do Rossio.
Dama Leonor, já pronta para lecionar as suas aulas de etiqueta e bons costumes, acercou-se à cozinha e deu por ela vazia. Esvairada, foi num lance até à sala e caiu sobre o sofá verde escuro e pegou um livro de Queirós, O Primo Basílio, por sinal. Enquanto lia, achava um enorme clichê todo aquele enredo em volta de um adultério. Ouviu a porta bater e deitou o seu olhar para o canto da sala, numa tentativa de espreitar quem lá vinha.
- Irmã, querida, ainda aí?
- Irmão, a tua empregada desditosa sumiu-se sem dar cavaco, imagina só.
- Ah! Não te masses, Leonor. É hábito a Anastácia sair à tarde para dar um passeio e comprar-me algumas das minhas exigências, de entre elas as minhas compotas que tão bem me sabem logo pela manhã. Convidei Bernardo Macieira para se juntar a nós hoje à noite para um jantar. É hora de começares por ensinar algumas coisas à Anastácia com os preparativos.
- Bom, vamos lá a ver o que vai sair dali, ela é destrambelhada. Vê tu que tentou iludir-me e em vez do meu chá de pétalas de rosa com goiaba e menta, trouxe-me chá de tília com montes e montes de açúcar…
- Dá-lhe um desconto, cara irmã, a visão dela já não é o que era.
- Não podes ser tão cordial com aquela coisa, não podes Gonçalo Villalva!
- A empregada é minha, contei-vos cara irmã, não podes exigir muito dela, está comigo há anos, há anos Leonor Catarina Mártires Villalva!
Leonor, irada, levantou-se de supetão e subiu até aos seus aposentos, já devidamente preparados, e parou diante do espelho e lá se mirou. Não percebia como aquela cara tão perfeita, pálida de maçãs rosadas e lábios carnudos, olhos verdes tinha um nome tão horrendo.
- Anastácia!!!
A caseira subiu velozmente os degraus e entreabriu a porta do quarto de Dama Leonor.
- Sim, minha senhora…
- Entra.
- Sim, do que precisa?
- Preciso que me abras as minhas malas e que coloques os meus vestidos de fronte para que eu me decida por um deles. Quero ir magnífica para este jantar!
Anastácia abriu as malas da senhora. Nunca havia sentido o cheiro de pele genuína, adorou cada toque. Rapidamente tirava os vestidos e tinha que se colocar quase em bicos de pés para que não rojassem no chão. Passadas quase duas horas, já Dama Leonor se decidira. Anastácia deixou-a arranjar-se e assim que chegou à cozinha reparara que já se fazia tarde.
- Anastácia, o jantar está encaminhado?
- Está sim, senhor Gonçalo. Tenho no lume a preparar um belo d´um Arroz de Marisco.
-Ora, assim é que é falar, comer até fartar hoje, hein!
-Assim espero, senhor. A sua irmã tem alguma restrição alimentar?
-Espero que não a vejamos inchar como as tias! – E posto isto, Gonçalo Villalva saiu da cozinha a rir, indicando a Anastácia que devia falar com Dama Leonor para algumas recomendações.
Anastácia, um pouco apreensiva, subiu novamente as escadas e voltou a entreabrir a porta do quarto da senhora.
-Entrai.
- C´um catano, você está belíssima.
- Cuidado…com a linguagem, Anastácia, contudo obrigado por esse teu elogio de bolso. Quero que coloques o melhor serviço que o meu irmão por cá tenha, o copo alinhado ao lado esquerdo do prato, os talheres completos, de modo a serem utilizados de fora para dentro, a serrilha das facas orientadas no sentido do prato e não da mesa, para evitar que o senhor Bernardo Macieira saia daqui com menos dedos do que aquele que eu suponho que ele tenha, as bebidas devem ocupar a posição central da mesa, não dispensa de um bom centro de mesa e um candeeiro robusto ao centro, eu própria ficarei ao lado do convidado e o meu irmão à cabeceira da mesa, tu só apareces quando fores interpelada e serves as pessoas sempre pelo lado direto, não sem antes pedires licença. Falei muito rápido? Vai buscar um bloquito de notas.
- Não, minha senhora. Não me deixou nenhuma novidade.- E saiu.
Dama Leonor tomou o que Anastácia lhe dissera ainda agora como uma provocação leviana. Cretina, mal lavada. Chamava Dama Leonor mentalmente, rica só no palavreado. Finalmente, retornou à sala de estar.
- Irmão, Bernardo Maceira já chegou?
- Não, cara irmã, estará, provavelmente, a pôr-se a caminho…
- Estou ansiosa!
- Por quê tanta ânsia, Leonor?
-Ora, não é todos os dias que podemos jantar na presença de um…homem tão…Anastácia, venha aqui.
Anastácia, emburrada que estava, largou as panelas e logo se aprontou a correr até à sala.
- Sim, minha senhora.
- Colocou o melhor serviço na mesa, tal como ordenei?
- Ainda não tive tempo, senhora. Há comida para fazer.
- Comida? Que palavras dizeis, linguagem anémica. Tento nessa língua e vai já, rapidamente, tratar disso.
- Se não me incomodasse tanto, a senhora Dama Leonor, já teria até as farofas a fazer… - Anastácia, exasperada, retirou-se.
- Gonçalo, ouviste o mesmo que eu?! Esta tua empregada de bolso que arranjaste na sopa dos pobres ali do Cais Do Sodré vai levar uma lição.
- Deixai a Anastácia, coitada. Ela é velha, já havia dito, milhões de vezes, milhões. Mulheres… - Retirou-se também, deixando Dama Leonor a discutir com as paredes.
Ouviu-se bater na porta, Dama Leonor excitou-se sobremaneira, de tal modo que foi até abrir a porta, ela própria.
- Ora, se não é o tão bem parecido Bernardo Macieira!
- Quanta gentileza, Dama Leonor.
- Queira, por favor, entrar.
- Obrigado. – Bernardo entrara na casa dos Villalva como se da sua se tratasse, deitando o sobretudo no braço do sofá e sentando-se de forma muito pouco própria de um adulto.
- Ora, toma alguma coisa Bernardo? A Anastácia está um pouco atrasada com o jantar…
- Claro, se me fizer companhia num gin…
- Bom, não sou senhora de recusar pedidos de homens tão gentis e agradáveis, irei preparar.
- E Gonçalo? Por onde anda esse camarada?
- Ah! Está a vestir-se no quarto, nesta casa nada funciona a tempo e horas…
- Mas a Dama Leonor tão bem arranjada que está…
- Ah, gentiliza e simpatia da sua parte, Bernardo…
- A mais verdadeira das verdades, cara Leonor.- Dama Leonor sentira uma flecha a entrar-lhe pelo coração quando Bernardo se deu às intimidades de a tratar unicamente pelo nome próprio, chegando-se fervorosamente a ela.
- Tome. Aqui está o seu gin. Este é o meu.
- Agradecido, Leonor. Queira sentar-se comigo e fazei-me companhia nesta espera. Vem um cheiro agradável da cozinha, o que prepara Anastácia para o jantar?
- Uma boa surpresa a meu mando, fique descansado.
- Ora, diria eu que a maior surpresa já se me assomou, mas uma surpresa nunca vem só, já dizia a minha avó Guilhermina…
- Ora, meu caro, hoje será uma noite de surpresas.

- Mal posso esperar pela sobremesa. 

sábado, 17 de janeiro de 2015

Anemia Botânica

O menino chorou,
implorou pela lágrima que escorregasse,
cessasse sem apagar memórias,
vitórias caídas, ao chão deitadas,
derramadas pela clorótica enfermidade,
animosidade preconceituosa,
jucosa de enganos e medos débeis,
fáceis, são eles de obter, os medos,
dedos empunhados, gemem de loucura,
tortura agonizante de um´alma intermitentemente deplorável,
findável de orgulho e de prazer comedido,
rendido ao morder de lábios, cerrar de olhos, dores,
calores de uma fúria caótica, rígida, cortante, rasga, seca, tortura,

transfigura, queima, mata. 

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

NATAL - CAPÍTULO III - NOITE SILENCIOSA

Os travões foram acionados a tempo de evitar o embate. O tronco daquela àrvore teria certamente caído devido à forte intensidade do nevão. A equipa socorrista abandonou o veículo e dirigia-se ao obstáculo a fim de o remover para que pudessem salvar o corpo de Emily que estava todo ele dominado pelo vivaz gélido temporal.
De coração sagaz , Emily escapuliu-se da ambulância que a detinha no seu anterior. Esgueirou-se pelas portas traseiras que haviam sido esquecidas e , meio a cambalear, lá foi Emily. Lutava contra o vento, não conseguia discernir quase nada, as formas das coisas para si eram todas elas disformes, enevoadas, quase impercetíveis. Levava as mãos ao peito num ar de pranto, evocava os seus cinco sentidos, apelando a que estes permanecessem com ela e a fizessem chegar a Ashton a tempo de resgatá-lo e levá-lo de volta à ambulância. Se estava ou não apaixonada não o sabia ela dizer, contudo não era capaz de o largar aos mantos da neve. Os seus lábios contorciam-se das dores provocadas pela rigidez baça da sua pele, das fortes pancadas que o vento se lhe assomava às ventas, cerrava os olhos numa tentativa de ver, reparar no que estava à sua volta, procurando por Ashton. Chegou até ao monte onde o carro do avô dele tinha embatido, o carro estava lá, Ashton não. Correu, à velocidade que pôde, claro está, para o carro. Ashton devia estar no interior, estava cada vez mais frio. Emily entrou em choque e logo que conseguiu mover-se, alcançou o banco traseiro e de lá tirou uma manta com a qual se havia tapado horas antes e cobriu Ashton com ela. Abraçou-o, beijou-lhe a face, passou-lhe o polegar desde o queixo até aos lábios, atentou neles e de seguida cravou-lhe um tórrido beijo. Segurava a cabeça de Ashton com as duas mãos e continuava a beijar os seus lábios imóveis. Ashton de olhos fechados e fechados continuaram eles, os de Emily, esses lacrimejavam a perda dos companheiros, os de Ashton, entenda-se.
Estava frio. Gelava-lhe os ossos e quebrava-os em corrente, como bonecas de porcelana esbatidas pelo tempo, sempre com os olhos aterrorizadamente focados em algo. Estava Emily no carro com o rapaz, que a levara até a casa da família, onde ela iria passar o Natal, morto. Ela olhava-o com uma palidez dócil. O corpo de Ashton estava sentado no banco do condutor, a sua boca estava aberta, os olhos entreabertos e com a face ligeiramente curvada para ela. A última visão do pobre rapaz havia sido a rapariga que sempre platonicamente tinha amado.

Desta forma começou, desta forma acaba a história. Sugiro, aos leitores, que cada um de vós atente no amor e na compaixão que o vosso coração sente e que espalhem cada sentimento, criem incêndios de emoções, chamas de alegria, vendavais de beijos, tornados de abraços, tempestades de sorrisos. O Natal, apenas por não ser todos os dias, mas apenas um dia só, lembremo-nos, pelo menos nesse mesmo dia, de quem amamos e, mais importante, amá-los. Mais essencial que sentir é mostrar. 

sábado, 6 de dezembro de 2014

NATAL - CAPÍTULO II – O CORAÇÃO QUER AQUILO QUE QUER

Emily saiu do carro, num pranto, procurando por alguém na imensidão do nada que a pudesse ajudar, naquele fim de tarde invernosa, gelada, escura. Não havia ninguém que pudesse aliviar aquela sensação de estar perdida, sozinha. O coração de Emily batia por redundâncias incoerentes, batia entre o querer sair dali o mais rapidamente possível e o querer não sair dali sem Ashton.
O amor é injusto e quem constrói um quadro de planos futuros, deixa-lo tão impreciso, deixando o repositório das culpas para o coração. O frio aperta e a sensação de que ele não lá estava para a segurar, mas o coração apenas quer aquilo que quer. Incoerências. Não há contos de fadas com carros espetados no gelo e natais arrasados pelo amor ferido pelo selvagem negrume de um dia, de uma noite, de um coração, mas este apenas quer aquilo que quer.  Por vezes a nossa melhor arma é a que nos mata no mesmo instante em que a usamos para matar o inimigo, foi isso que Emily fez ao provocar o acidente. Era assim que se sentia.
 - O telemóvel!! – Gritou Emily.
Emily conseguiu apanhar o seu telemóvel que estava debaixo do banco onde ia, contudo não havia rede.  As suas mãos tremiam, o seu corpo estava imóvel, o seu olhar aberto, atento ao que podia fazer para melhorar a situação. Devastada e aterrorizada, Emily entrou no carro e tentou procurar o telemóvel de Ashton. Estava receosa de tocar-lhe. Ele parecia morto, tão sereno que estava. Ficou a admirar o quão lindo ele era, reparou no quanto especial aquele cadáver a fazia sentir. Deixou-se de coisas e tocou-lhe as calças, passou-lhe a mão pelo sexo, correu os seus dedos por toda a área restrita e por fim alcançou o bolso do lado esquerdo. Lá estava o telemóvel. O rapaz não tinha nada que fosse atualizado.
- Não me digas que o telemóvel também era do avõ! – Ironizou Emily - Merda! Merda! Merda! Ashton, assustaste-me!
Ashton agarrou firme o braço de Emily, de olhos abertos e filtrados na sua pele branca e agora seca, desgastada.
 - Tocaste-me tão suavemente, não tive coragem de te distrair...tu sabes...
- Não sejas ordinário, seu porco, nojento...
- Calma lá, já que sou psicopata, posso também ser violador? – Ashton ria-se dolorosamente.
Emily mais uma vez ficou sem saber o que responder, desta vez não corou, antes tivesse corado. A sua testa avermelhou-se da cólera.
- E que tal usares essa tua boa disposição para nos tirares daqui! Idiota.
- Senhora, Madame, Miss, já tentou, pelo menos, ligar o telemóvel?


Emily entregou-lhe o telemóvel com raiva de si mesma. Detestava quando os outros lhe passavam atestados de estupidez.
- Aqui está. Um telemóvel “do avô” que funciona, tem rede e que nos vai tirar daqui.
- Vá, cala-te e faz o que tens a fazer!
- Está?! Sim...bem eu tive um acidente...não estou apenas a sangrar da cabeça...não, sinto-me bem, com algumas dores, mas bem...sim, estou acompanhado. Não...não...não, ela está bem, bem em demasia...claro...por favor, sejam rápidos.
- Então?
- Consegui falar.
- Cala-te, jura...não...não se nota!
- Tu enervas-me, dá para seres menos dramática?
- Como é que queres que eu seja menos dramárica se estamos aqui no meio do nada, de noite, ao frio?!
- Não grites comigo, merda! Foste tu que causaste isto tudo! – Ashton gritou, deu uma forte pancada no tablier do carro e saiu porta fora.
Emily ficou dentro do veículo esbarrado a chorar, tomou a veracidade do argumento de Ashton como uma facada e sentia-se pronta a morrer de agonia. Resolveu, pela primeira vez na vida, guardar o orgulho para si mesma e sair do carro e correr até Ashton e pedir-lhe desculpas.
- Ashton , espera.  Fui muito estúpida contigo, desculpa!




- Já reparaste que não fazes mais nada que é culpabilizar-me, insultar-me, desculpares-te? Chega, eu fiz esta viagem por ti, não por mim.
- Tu também vais passar o Natal com a tua família, não deixes essa para mim também...
- Eu vim por ti.
- Como por mim? Não vives em Quebec? A tua família não está lá à tua espera?
- Mas qual família? Os meus pais abandonaram-me, não conheço a minha família, apenas as pessoas que ficaram comigo.
- Então o que é tudo isto? Uma tentativa de me matar? Porquê?
- Porque sempre te quis.
- Eu disse que tu eras um psicopata!
- Eu sou apenas um rapaz normal que estava a tentar conhecer melhor uma rapariga que julgava vir a amar, mas enganei-me. Tratava-se tudo de uma surpresa, mas até isso tu foste capaz de arruinar! Descobri o amor em ti, nunca soube o que era amar e tu mostraste-me isso tão bem! De facto o coração só quer aquilo que quer, é injusto, injusto!


Ashton correu até sem poder mais. Deu por si no meio de árvores que o envolviam numa espécie de redoma negra e aterradora. Sentou-se e levou as mãos à cabeça. Chorou.  Emily ficou junto ao carro, sentada. Chorava. Ambos choravam a pensar um no outro. Ashton tinha raiva de Emily, como ela destruira tudo o que ele havia construido, destruira a hipótese de ele ser feliz uma  única vez na vida. Emily tinha o coração rasgado por dentro, seco por fora, obstruído pelas lágrimas incessantes de ardor, ácidas como o seu temperamento intempestivo e cruel.
Uma luz dilacerante penetrou o corpo de Ashton. Correu até um pouco mais adiante para tentar perceber que luz era aquela e, pelo que a sua visão conseguiu alcançar e absorver, tratar-se-ia de uma ambulância. Finalmente havia chegado! Como se as suas pernas tivessem sido domadas por um automatismo, o rapaz correu o mais que põde para chegar até Emily antes do veículo de socorro, contudo, para mal do pobre coitado, Emily já havia entrado na ambulância.
-Não sei onde ele está, ele saiu a correr há um bom bocado e não o vi mais.
- Bom, teremos de a levar já daqui para fora até ao hospital para que seja observada por um médico. Poderá estar a entrar numa hipotermia daquelas fortes, acalme-se.
- O que vai acontecer com o Ashton? Não o podemos deixar aí sozinho, está escuro, está frio! Por favor...voltem para trás...
- Não se preocupe, enviaremos, logo que possível, uma ambulância que o venha resgatar. A senhora é que não pode ficar aqui enquanto o seu namorado não aparece.
- Não é meu namorado.
Ashton ainda correu atrás da ambulância, mas não a conseguiu alcançar. O frio gelava-lhe o corpo e por mais que o movimentasse não lhe conseguia dar o aquecimento que necessitava para continuar a lutar pela vida, por Emily.
- Emily...volta...Em..Emi... – Os olhos de Ashton estavam mais abertos que nunca, mas logo se fecharam. Ashton permanecia no chão.