Querer viver, ou
não, deixou de ser hipótese. Nasceu destinado a viver do sofrimento e da
tentação de arriscar.
Isaac era um rapaz
de corpo atlético, fútil, desarmado de sentimentos, rebelde, ótimo aluno.
O diretor da Clarckson University convidou-me para
integrar a equipa de basebol na próxima época, tem andado a observar-me e gosta
de me ver jogar. Tu queres ir…, Sim, mãe, quero, Quando terás que ir embora,
Depois de amanhã.
Passaram-se horas
e Ann-Leigh chorava copiosamente, agarrada à cadeira e à mesa da cozinha, como
se fossem as únicas duas coisas que tivesse na vida e, como tal, tivesse a
enorme necessidade de as preservar consigo. As lágrimas, deslizava, rolavam
pelo pescoço, caíam por entre os seios iluminados pelo jaspe vermelho que lhe
foi oferecido pelo marido...antes de ele a abandonar…a ela e aos filhos. Ela
não suportaria perder mais ninguém na sua vida, não aguentaria a ideia de que,
tal como o pai, Isaac a iria abandonar. Cortou-se o pensamento com o murmurar
de ideias expostas ao vento, O Steve ainda não sabe…
Steve, o irmão
mais novo de Isaac, estava no quarto a treinar a receção da bola. Queria ser
tão bom quanto o irmão. Aprofundando mais a questão, Isaac era o ídolo de
Steve. Este último queria acompanhar o mais velho em todos os jogos, em todas
as suas aventuras, queria ser a sua caixinha de partilha de todas as
ilegalidades cometidas com os amigos. Era mais novo, mas sabia como guardar um
segredo. Fazia-o, pelo menos, por amor ao irmão.
Ann-Leigh temia
que o seu filho mais novo sofresse com a partida do irmão mais velho. E assim
foi. Chorava agora pela partida em breve de Isaac, pela perda de Steve e pela
perda dos dois. Era tão linda e perfeita a sua pele branca, toque de seda, os
seus olhos azuis, os lábios em tons de rosa. Era mais linda ainda quando
chorava. As suas lágrimas eram magnificamente cristalinas, transparentes.
Chorava. Sempre chorou. A vida não lhe tem dado grandes ofertas a sorrisos,
apenas recortes de páginas soltas e frases inacabadas.
Num mundo paralelo
a todo este panorama, estava Isaac, eufórico pela sua conquista, pela sua
partida dentro de algumas horas. Amigos,
para celebrar a minha ida para Clarkson, reunimos todos às 22h no Saints &
Sinners. Pago uma rodada. Não faltem. Isaac. Foi esta a mensagem que redigiu
e enviou aos amigos. Mais tarde, às 22h, como tinha marcado, todos os seus
amigos estavam lá, uns já alcoolizados, os outros ainda por chegar ao mesmo
posto. Até aqui, nada de novo. Isaac estava a sair de casa quando Steve o
impediu. Quero passar a tua última noite aqui contigo, leva-me, Não posso
Steve, aquele ambiente não serve para ti, Mas eu quero ir, Não podes, Mas…,Já
te disse que não podes. Um silêncio agudo estendeu-se sobre aquela casa. Isaac
estava de músculos tensos, Steve segurava as lágrimas, encolhido. Ao ver assim
o irmão, Isaac permitiu que o irmão fosse com ele. Amava demasiado o irmão para
ter coragem de o deixar daquela maneira.
Não podes dizer à
mãe que te levei ao Saints, a mãe não
gosta que eu vá lá, Sabes que não digo, Não dizes mesmo, Sabes que não, Ainda
bem. Isaac conduzia e estilhaçava a sua atenção com a sua preocupação pelo
irmão. Ouve, não quero que fiques zangado comigo, Não estou, Estás , eu
conheço-te , Não estou. Passaram-se minutos largos sem que nenhum fizesse notar
sequer o volume da sua respiração nervosa. Porquê, Porquê, o que queres dizer
com isso, Por que é que te vais embora, Já te disse Steve, Vais abandonar-me
como fez o pai, Eu não te vou abandonar, Promete, Prometo. Steve sorriu.
Chegaram ao bar e
Steve cumprimentou um dos amigos do irmão, o que mais gostava, James. A noite
foi regada a álcool, aturdida com música alta, invadida por raparigas ávidas de
sexo. Steve estava num canto, sentado, a sorrir e a ver tudo aquilo que lhe
parecia muito divertido. Reparava com alguma fixidez na forma como o irmão se
divertia e de como ele ficava feliz com isso. Sim, onde estão, Na praia mãe, O
teu irmão onde está, Aqui comigo mãe, Diz-lhe que venha para casa, Eu digo mãe.
Mais uma vez, Steve encobriu a mentira do irmão, todavia, como de todas as
vezes, sentir-se mais feliz com isso seria impossível.
Temos de voltar
para casa, a mãe ligou, Disseste onde estávamos, Sim, na praia, não é onde
estamos. Isaac sorriu e passou a mão por repetidas vezes no cabelo de Steve.
Foi despedir-se de James e entrou no carro com o irmão. Divertiste-te, Sim,
Ainda bem Steve, quero que recordes esta noite para sempre, Prometo que vou
lembrar-me de todos os dias que estive contigo. Isaac comoveu-se. Sentiu-se
diferente. Sentia que só conseguia sentir algo de diferente, de puro e
inabalável para com o seu irmão. Abre esse saco, são todos para ti, Obrigado,
és o melhor. O saco continha algumas dezenas de chocolates, o que levou Steve à
loucura.
Chegados a casa,
Isaac elevou-se no ar e caiu estendido no sofá, Steve foi dar um beijo à mãe.
Divertiram-se, Sim, mãe, O Steve adorou a praia. Ann-Leigh entrou na sala e
esbofeteou Isaac. Tu pensas que enganas quem, bem sei onde estiveste e para
onde levaste o teu irmão, Como soubeste, Não era muito difícil descobrir todas
as vezes que para lá foste, esqueces-te que a Lilly é minha amiga, a única que
tenho e que o James, filho dela e teu amigo, lhe conta sempre para onde vai,
Sabes o ponto positivo da história, Há ponto positivo, julgava que não havia
nenhum, tu sempre me ment…, em breve já não vou ter de te dizer para onde vou,
com quem vou, nada, não terei de te dizer nada. Ao dizer isto, Isaac foi para o
quarto. Ann-Leigh sentia-se de coração rasgado, não estava a aguentar a forma
como cada vez mais distanciava o filho e como não o conseguia alterar. Temia
pela vida do filho lá fora. Steve abraçou a mãe e pediu-lhe que não se zangasse
com o irmão. Foi, também ele, para o quarto.
Ela, desolada, foi
em direção ao quarto de banho. Livrou o corpo das roupas e encheu a banheira de
água. Deitou-se. Estava cheia de mágoas amarradas a uma montanha de ferro.
Sempre achou que não era suficiente e, com o tempo, descobriu que não era tão
forte. Agradeceu por Deus lhe ter dado aqueles dois filhos que tanto amava,
quando, na verdade, a sua maior vontade era cortar o oxigénio que a mantinha
viva. Saiu molhada e molhada se deitou. Acordou pesada, aturdida pela luz da
manhã. Desceu pelas escadas à procura dos filhos. Isaac tinha feito o pequeno
almoço para o irmão e estava já de bagagens à porta, pronto para partir,
contudo só iria ao final da tarde.
Ann-Leigh disse
que ia comprar um bolo para a sobremesa do almoço. Entrou no carro e saiu. As
lágrimas impediam-na de estar atenta. Chegou ao supermercado e comprou o bolo
de laranja que Isaac adorava e comprou um póster dos NY Yankees a Steve. Entrou
no carro, decidida a colocar um ponto final à má relação que tinha com Isaac e
tornar a partida dele o mais serena e amigável possível. Iria prometer que lhe
custeava a estadia e tudo o que fosse necessário para que Isaac se dedicasse a
tempo inteiro à equipa de Clarkson.
O sorriso
iluminara-lhe o rosto e o sol evidenciava as curvas que o sorriso lhe estampava
na cara.
Steve, Steve, abre
a porta, Tenho de ser sempre eu a fazer tudo nesta casa, Não refiles que estou
a fazer-te o melhor almoço que tu algum dia poderias ter, Estou para ver isso,
Alguma coisa reclamas com a mãe, ela é que se está a demorar.
Steve abriu a
porta e era Lilly e James. Isaac entrou na sala e cumprimentou ambos. Viemos
despedir-nos de ti, o James fez questão que viéssemos entregar-te isto para que
te lembres sempre de nós, Mas eu volto um fim de semana por mês, não me vou
embora para sempre, Sim, mas eu e a minha mãe quisemos apoiar-te e dar-te isto,
abre. Isaac desembrulhou o presente e de lá saiu uma fotografia que Lilly
conservara numa das suas estantes poeirentas que retratava o seu
décimo-terceiro aniversário. Steve era ainda um bebé e Ray, o pai de ambos,
ainda lá estava. Lilly e James agarravam Steve, enquanto Isaac cortava o bolo. O
filho mais velho de Ann-Leigh soltou uma leve lágrima, mas logo tratou de
eliminar o percurso da mesma pelo rosto. O que mais queria era ir embora e
jogar basebol na equipa que sempre quis, tudo aquilo era um sonho tornado real.
Estava a amargurar-lhe mais o coração do que o que havia previsto.
Bom, almoçam
connosco também, Sim, claro que almoçamos. James apercebeu-se do estado
introspetivo que a fotografia tinha relampejado em Isaac. Estás bem, Sim,
estou, não te preocupes, Conheço-te desde que eramos putos, Sim, eu sei, mas a
sério que estou bem, estão todos aqui comigo para se despedirem de mim e é o
que mais importa, Por falar nisso, onde anda a tua mãe, Também gostava de
saber, Vais continuar mal com ela, Claro, foi por causa dela que o meu nos
abandonou, se não fosse ela, ele ainda aqui estaria, Não a podes culpar disso,
o teu pai não soube lidar com as situações, Porque a minha mãe não o permitiu,
Porque o teu pai não quis, bem sabes disso, não culpes a tua mãe por uma mágoa
tua provocada pelo teu pai que vos abandonou, Achas mesmo, Tenho a certeza,
estou seguríssimo, também devias estar…olha o que a tua mãe teve de aguentar
sozinha para conseguir criar-te a ti e ao teu irmão, Bem sei, A minha mãe
contava-me certas coisas, se não fosse o caso de elas serem amigas…., Tenho de
agradecer à tua mãe, Não é preciso, somos todos bons amigos, Somos pois. Isaac,
enquanto cozinhava, pensava nas palavras do melhor amigo, no quanto elas lhe
bateram de frente e lhe deram vontade de pedir perdão à mãe e explicar-lhe o
quão injusto foi para com ela. Estava decido a partir de coração dado com o da
mãe.
Estavam já todos a
almoçar quando soou a campainha da porta, novamente. Eram os outros amigos de
Isaac, vieram dizer-lhe um adeus e um
boa sorte. James levou-os até ao
carro e, quando subia as escadas atrapalhadas pelas fartas plantas, conseguiu
deduzir que era um carro da polícia que viria lá ao fundo. Senhores, em que
posso ajudá-los, O seu nome é Isaac Moore, Não senhor, sou o melhor amigo,
James, Temos que falar com o seu amigo, Mas a que propósito senhor, A mãe…a
senhora Ann-Leigh sofreu um despiste automóvel, Morreu, Não, mas está em estado
grave. James, engoliu a respiração e entrou em casa. O que foi filho, o que
aconteceu lá fora, Isaac, senta-te aqui comigo. James ignorou a mãe, sentou-se
com Isaac, este de rosto apreensivo, e colocou-lhe a mão esquerda no peito e
contou-lhe. Não houve tempo para choros, delongas ou qualquer outra reação
humana desnecessária a momentos de atrapalho. Saíram e pronto.
São os familiares
de Ann-Leigh, Sim, sou o filho mais velho, A sua mãe conseguiu salvar-se,
parecia quase irrecuperável, mas foi muito forte e está a superar bem as dores
da operação. A corrente de ansiedade e tensão aliviou-se e todos sorriram.
Mãe, o doutor
disse que podia entrar…,Sim meu filho, entra, Mãe, não quis preocupar-te, não
queria magoar-te, mas se hoje aqui estás viva, é porque Deus quis dar-te uma
segunda oportunidade de ouvir as tuas palavras, Mas eu tenho toda a vida para te
ouvir meu filho, A vida é curta demais e ,por vezes, acaba mais rápido do que o
suposto, não posso voltar a esperar pelas rasteiras da vida e tenho de agir,
Tens razão meu filho, mas vou ter todo o meu tempo para ti…,Inspiras-me, és a
minha mãe, és a minha vida, o meu tudo, obrigado por nunca teres desistido de
mim, quando eu próprio desisti de nós, As mães são assim meu filho, por mais
malévolas que as palavras sejam, o amor intensifica-se a cada dia que sucede o
outro. Trocaram beijos ao de leve e Isaac saiu. Ann-Leigh sorriu, fixou-se num
feixe de luz e o azul dos seus olhos sumiu-se. Os olhos, por fim, cerraram.
O funeral de Isaac
deu-se em setembro, no dia vinte seis. Ann-Leigh não entendia o porquê. Isaac
sofrera uma paragem cardiorrespiratória durante um jogo, ao que parece, pelas
palavras do médico, ele tomara com frequência esteroides e outras substancias
psicotrópicas. A veia incorrigível de Isaac teria, por certo, permanecido e
Ann-Leigh tinha o peso na consciência. A última vez que o seu olhar tocou o
filho foi no hospital. Mãe desgraçada! Deus ter-lhe-ia dado uma nova
oportunidade a ela ou a ele? Raios partam que sabe… Deus será o nobre fundador
do mundo, o grande promotor da paz, ou o vil destruidor e o grande encorajador
da maldade? Dera a Ann-Leigh a oportunidade de se restabelecer com o filho, ou
de o ver morrer? Dera a Isaac a oportunidade de dizer, finalmente, o que sentia
à mãe, ou a oportunidade de lhe causar um sofrimento assombroso? Para estas
perguntas, resposta, certamente, não haverá, contudo, Ann-Leigh fez de Lilly a
madrinha de Steve e, de seguida, acolheu Isaac, o pobre coitado estava
enfezado, no calor do seu abraço.
Steve estava ainda
abismado. Não sabia do pai, perdera o irmão, a mãe também o abandonara,
mostrara a sua preferência por Isaac. James tentava ocupar o buraco que Isaac
deixara, Lilly tentava colmatar a falha parental. Steve continuava a sonhar.
Steve continuava sozinho. Onde anda Deus nestas alturas…quererá mostrar um
pouco de todo o mundo? Quererá fazer o papel de político supremo e dar com uma
mão e retirar com a outra?
Passados doze
anos, Steve tinha já cerca de 19 anos. Conquistou Clarkson e continuou a agradecer à estrela polar de todas as noites
de céu despido a que dera o nome de Isaac.
No triângulo das
bermudas, nada se perde para sempre.