terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Bullying na Primeira Pessoa


Houve momentos em que eu me senti um só. Um só como quem diz um só representante de uma raça indeterminada, diferente de todas as outras. Nem eu me enquadrava bem naquele ângulo de amarguras entediantes.
Todos me insultavam, agrediam, humilhavam por eu ser diferente. Mas diferente em quê, perguntei-me a mim mesmo. Hoje talvez saiba responder, em parte. Talvez fosse eu o único capaz de exercer raciocínio que me tenha permitido divergir de todos os outros e tornar-me numa criança mais ponderada, mais calma e mais sensível. Mas talvez estarei enganado. Mas o todos , entenda-se que se refere aos casos particulares lastimáveis de pessoas medíocres dominadas pela selvajaria das suas incompreensíveis mentes.
Era eu criança, com dez anos apenas, quando entrei numa escola desconhecida, onde só conhecia, no meio de toda aquela massa anónima, uma pessoa. Passaram poucas semanas até se erguerem as ondas do negrume, grandes por sinal. Lembro-me ainda do dia em que caminhava eu com a tal pessoa que conhecia, Rita Madeira, uma colega e amiga desde o 1º ano (estava já eu no 5º) quando se deu o primeiro embate frontal. Uns colegas de escola aproximaram-se e troçaram de mim. Coisa pouca, pensei eu. Não consigo recordar-me de cada dia, tenebroso seria ser assim fosse, todavia lembro-me dos mais marcantes. Passadas algumas semanas, a onda de troça evoluiu, trazendo com ela agressões. O tema, ou melhor Os Temas pelos quais fui vítima de Bullying não os aqui revelarei, não por vergonha, mas por preservação do meu círculo íntimo e, depois, para não dar ideias negras a nenhuma alma perdida pelas sobras deste pobre mundo. Troçavam de mim, gritavam insultos para todos ouvirem. Eu, eu encolhido lá ia, escutando os sussurros de todos, observando os risos de cada um. Passadas então essas semanas, chegou-se um rapaz, o mesmo que me oferecia de forma bruta todos os insultos, cujo nome nunca eu soube, e bateu-me. Uma simples chapada tornou-me numa criança medrosa, com medo de tudo e de todos. Penso que foi a primeira vez na vida que medi o verdadeiro teor do medo. As agressões repetiam-se, empurravam-me, deitavam-me ao chão, chegavam mesmo a roubar-me, desde dinheiro a objetos como telemóveis ou outras coisas de valor menor. Dois anos assim foram, à medida que o tempo ia passando já eram, não só rapazes, como também raparigas. Dois anos de tortura psicológica e física. Na altura era eu uma criança, não sabia muito sobre a vida e nem sabia sequer que havia um nome para tudo aquilo que marcava a minha vida.  Seguiu-se mais um ano na mesma escola e eu dava por mim com atitudes mais frias, mais insensatas, mais maldosas para com as pessoas. Sempre tive o apoio da minha melhor amiga Rita, apoio esse que sempre foi e ainda hoje é incondicional e essencial. Toda a minha infância/início da adolescência fora marcada pelo uso da violência física. Sim, em criança fui também vítima de violência doméstica, não importa por quem. Era portanto uma pessoa já experiente em toda esta matéria das agressões físicas, eram as que menos me magoavam, no entanto tudo o que envolvia o foro psicológico era algo que me surpreendia. Surpreendia-me e irritava-me a forma como aquelas pessoas conseguiam baralhar-me a mente, como a conseguiam invadir, corrompê-la e triturá-la. Foram três anos muito complicados, sempre com o apoio de uma só pessoa, a minha melhor amiga. Neste terceiro ano não eram só as pessoas da escola, como também os meus próprios colegas de turma que me atacavam sucessivamente. Isto tudo traduziu-se na minha falta de competência à disciplina de Educação Física. Tornei-me uma pessoa, além de fria, retraída, com medo que um gesto meu revelasse um momento a jeito de me ofenderem e de me agredirem. Importa aqui dizer que só tive o apoio da minha melhor amiga, porque na altura nunca nenhum elemento da minha família soube. Eu tinha vergonha de tudo aquilo, tinha medo que até a minha família me envolvesse naquele clima.
Finalmente mudei de escola, mas o rapaz ferido era o mesmo, pelo que continuei a ser vítima de Bullying. Tudo começou quando conheci um colega de turma, no primeiro dia de aulas, que infelizmente também era vítima de ofensas por supostamente ser homossexual. Mais uma a acrescentar ao meu currículo, portanto. Vi-me no meio de toda uma história igual à anterior, no meio de uma escola nova, no meio de gente nova com o problema de sempre. Nesta nova escola, tinha já eu entre 13 a 14 anos, só fui agredido uma vez, mas sinceramente, nem agressão lhe consigo chamar. Foi algo leve, mas como disse, a tortura psicológica é a parte pior de uma vítima de Bullying. A dor das pancadas mais dia menos dias passa, a dor do ataque aos nossos sentimentos permanece para sempre. As humilhações continuavam, formavam grupos dentro e fora da turma para me torturarem, muitos deles amigos dos meus amigos. Em situações de aulas de Educação Física tudo piorava, eu era cada vez mais retraído, tinha medo de mim próprio e não contei em momento algum com o apoio da professora. Ela não soube nunca que eu era vítima de Bullying, mas via claramente que eu era alvo de chacota por parte dos meus colegas e apoiava-os, dando continuação às piadas das tristes pessoas. Foi a pior professora que se pode ter cruzado comigo, fizemos inclusive questão de o dizer um ao outro no final do meu 8º ano. Uma mulher desprezível sem vocação nenhuma para a profissão que exerce, assim como todos os que me humilharam  que nunca tiveram vocação para viver em sociedade, respeitando tudo o que a eles é diferente. Vivemos num mundo enorme, no qual há seres todos eles diferentes. Devemos sempre respeitar as diferenças dos outros em todos os níveis.
Certo dia, já na reta final desta minha fase, passei de vítima a autor de uma agressão. Agredi o meu pior inimigo, um colega de turma, o que mais me magoava, o que mais me torturou e o autor do grupo que contra mim se apresentava. Suicídio , sim, pensei em suicidar-me muitas vezes. A dor de não suportar mais a dor, a mágoa de não suportar mais a mágoa revolta a mente, revoltou-me contra mim mesmo, ao ponto de querer terminar tudo isto de uma forma definitiva. Comecei muitas cartas de despedida, no entanto nenhuma delas dirigida a ninguém em especial, nenhuma delas terminada, nenhuma delas é ainda viva.
Toda esta história é muito breve, sem detalhes. Gosto de os dar só a quem entendo merecedor e a quem precisar da minha ajuda ou dos meus conselhos, mas falando com os mesmos. Uma vida como esta, prefiro contá-la falando. Então porquê tudo isto, bela questão. Hoje já não sou vítima de bullying, não me humilham mais gritando as minhas diferenças, não me espancam mais até ouvirem o queixume das minhas veias rebentadas, não vêm mais o meu sofrimento. Hoje sou aquele que quer ajudar quem for a vítima, quero ser eu a detetar casos e a erradicá-los, quero ser eu a colocar um pouco de justiça neste mundo.

Hoje, 14 de Janeiro de 2014, recebi a notícia de mais um rapaz que não aguentou a tortura e se suicidou. É triste ver o mundo perder vidas à custa do regozijo de outros sem qualquer noção do erro crasso, do crime que estão a cometer. Mas, neste mundo que foi feito para destinar vencedores e vencidos, só nos resta a nós criar os vencedores. Hoje sou vencedor.