Houve momentos em
que eu me senti um só. Um só como quem diz um só representante de uma raça
indeterminada, diferente de todas as outras. Nem eu me enquadrava bem naquele
ângulo de amarguras entediantes.
Todos me
insultavam, agrediam, humilhavam por eu ser diferente. Mas diferente em quê,
perguntei-me a mim mesmo. Hoje talvez saiba responder, em parte. Talvez fosse
eu o único capaz de exercer raciocínio que me tenha permitido divergir de todos
os outros e tornar-me numa criança mais ponderada, mais calma e mais sensível.
Mas talvez estarei enganado. Mas o todos
, entenda-se que se refere aos casos particulares lastimáveis de pessoas
medíocres dominadas pela selvajaria das suas incompreensíveis mentes.
Era eu criança,
com dez anos apenas, quando entrei numa escola desconhecida, onde só conhecia,
no meio de toda aquela massa anónima, uma pessoa. Passaram poucas semanas até
se erguerem as ondas do negrume, grandes por sinal. Lembro-me ainda do dia em
que caminhava eu com a tal pessoa que conhecia, Rita Madeira, uma colega e
amiga desde o 1º ano (estava já eu no 5º) quando se deu o primeiro embate
frontal. Uns colegas de escola aproximaram-se e troçaram de mim. Coisa pouca, pensei eu. Não consigo
recordar-me de cada dia, tenebroso seria ser assim fosse, todavia lembro-me dos
mais marcantes. Passadas algumas semanas, a onda de troça evoluiu, trazendo com
ela agressões. O tema, ou melhor Os Temas pelos quais fui vítima de Bullying
não os aqui revelarei, não por vergonha, mas por preservação do meu círculo
íntimo e, depois, para não dar ideias negras a nenhuma alma perdida pelas
sobras deste pobre mundo. Troçavam de mim, gritavam insultos para todos
ouvirem. Eu, eu encolhido lá ia, escutando os sussurros de todos, observando os
risos de cada um. Passadas então essas semanas, chegou-se um rapaz, o mesmo que
me oferecia de forma bruta todos os insultos, cujo nome nunca eu soube, e
bateu-me. Uma simples chapada tornou-me numa criança medrosa, com medo de tudo
e de todos. Penso que foi a primeira vez na vida que medi o verdadeiro teor do
medo. As agressões repetiam-se, empurravam-me, deitavam-me ao chão, chegavam mesmo
a roubar-me, desde dinheiro a objetos como telemóveis ou outras coisas de valor
menor. Dois anos assim foram, à medida que o tempo ia passando já eram, não só
rapazes, como também raparigas. Dois anos de tortura psicológica e física. Na
altura era eu uma criança, não sabia muito sobre a vida e nem sabia sequer que
havia um nome para tudo aquilo que marcava a minha vida. Seguiu-se mais um ano na mesma escola e eu
dava por mim com atitudes mais frias, mais insensatas, mais maldosas para com
as pessoas. Sempre tive o apoio da minha melhor amiga Rita, apoio esse que
sempre foi e ainda hoje é incondicional e essencial. Toda a minha infância/início
da adolescência fora marcada pelo uso da violência física. Sim, em criança fui
também vítima de violência doméstica, não importa por quem. Era portanto uma
pessoa já experiente em toda esta matéria das agressões físicas, eram as que
menos me magoavam, no entanto tudo o que envolvia o foro psicológico era algo
que me surpreendia. Surpreendia-me e irritava-me a forma como aquelas pessoas
conseguiam baralhar-me a mente, como a conseguiam invadir, corrompê-la e triturá-la.
Foram três anos muito complicados, sempre com o apoio de uma só pessoa, a minha
melhor amiga. Neste terceiro ano não eram só as pessoas da escola, como também
os meus próprios colegas de turma que me atacavam sucessivamente. Isto tudo
traduziu-se na minha falta de competência à disciplina de Educação Física.
Tornei-me uma pessoa, além de fria, retraída, com medo que um gesto meu
revelasse um momento a jeito de me ofenderem e de me agredirem. Importa aqui
dizer que só tive o apoio da minha melhor amiga, porque na altura nunca nenhum
elemento da minha família soube. Eu tinha vergonha de tudo aquilo, tinha medo
que até a minha família me envolvesse naquele clima.
Finalmente mudei
de escola, mas o rapaz ferido era o mesmo, pelo que continuei a ser vítima de
Bullying. Tudo começou quando conheci um colega de turma, no primeiro dia de
aulas, que infelizmente também era vítima de ofensas por supostamente ser
homossexual. Mais uma a acrescentar ao meu currículo, portanto. Vi-me no meio
de toda uma história igual à anterior, no meio de uma escola nova, no meio de
gente nova com o problema de sempre. Nesta nova escola, tinha já eu entre 13 a
14 anos, só fui agredido uma vez, mas sinceramente, nem agressão lhe consigo
chamar. Foi algo leve, mas como disse, a tortura psicológica é a parte pior de
uma vítima de Bullying. A dor das pancadas mais dia menos dias passa, a dor do
ataque aos nossos sentimentos permanece para sempre. As humilhações
continuavam, formavam grupos dentro e fora da turma para me torturarem, muitos
deles amigos dos meus amigos. Em situações de aulas de Educação Física tudo
piorava, eu era cada vez mais retraído, tinha medo de mim próprio e não contei
em momento algum com o apoio da professora. Ela não soube nunca que eu era
vítima de Bullying, mas via claramente que eu era alvo de chacota por parte dos
meus colegas e apoiava-os, dando continuação às piadas das tristes pessoas. Foi a pior professora que se pode ter
cruzado comigo, fizemos inclusive questão de o dizer um ao outro no final do
meu 8º ano. Uma mulher desprezível sem vocação nenhuma para a profissão que
exerce, assim como todos os que me humilharam
que nunca tiveram vocação para viver em sociedade, respeitando tudo o
que a eles é diferente. Vivemos num mundo enorme, no qual há seres todos eles
diferentes. Devemos sempre respeitar as diferenças dos outros em todos os
níveis.
Certo dia, já na
reta final desta minha fase, passei de vítima a autor de uma agressão. Agredi o
meu pior inimigo, um colega de turma, o que mais me magoava, o que mais me
torturou e o autor do grupo que contra mim se apresentava. Suicídio , sim,
pensei em suicidar-me muitas vezes. A dor de não suportar mais a dor, a mágoa
de não suportar mais a mágoa revolta a mente, revoltou-me contra mim mesmo, ao
ponto de querer terminar tudo isto de uma forma definitiva. Comecei muitas
cartas de despedida, no entanto nenhuma delas dirigida a ninguém em especial,
nenhuma delas terminada, nenhuma delas é ainda viva.
Toda esta história
é muito breve, sem detalhes. Gosto de os dar só a quem entendo merecedor e a
quem precisar da minha ajuda ou dos meus conselhos, mas falando com os mesmos.
Uma vida como esta, prefiro contá-la falando. Então porquê tudo isto, bela
questão. Hoje já não sou vítima de bullying, não me humilham mais gritando as
minhas diferenças, não me espancam mais até ouvirem o queixume das minhas veias
rebentadas, não vêm mais o meu sofrimento. Hoje sou aquele que quer ajudar quem
for a vítima, quero ser eu a detetar casos e a erradicá-los, quero ser eu a
colocar um pouco de justiça neste mundo.
Hoje, 14 de
Janeiro de 2014, recebi a notícia de mais um rapaz que não aguentou a tortura e
se suicidou. É triste ver o mundo perder vidas à custa do regozijo de outros
sem qualquer noção do erro crasso, do crime que estão a cometer. Mas, neste
mundo que foi feito para destinar vencedores e vencidos, só nos resta a nós
criar os vencedores. Hoje sou vencedor.