Oito da manhã e todos acordavam sonolentamente,
entornando-se para cima das portas e caindo sobre as cadeiras de pele. Bebericavam o leite dos cereais ,como se o
conteúdo daquelas taças fosse veneno que, ao entrar em contacto com os seus
lábios, lhes queimava a pele os fazia explodir .
Porém, Cacambo não. Permanecia ali sentado na berma da
cama de verga envelhecida pelo tempo e pelas fortes pancadas que levava nas
horas de brincadeira dos seus ditos irmãos. A sua têmpera obstruída retraía-o
; o seu olhar malévolo e taciturno mirava todo aquele cenário de
estática agitação da sua família que o havia roubado do seu natural ninho.
Sentia uma forte repulsa por todos aqueles seres que tanto o bajulavam de sorrisos, como o
repeliam por ser diferente. Cacambo agia não agindo de forma alguma ,
limitava-se a olhar para todos eles de cabeça baixa e corpo firme , surripiando
os dentes amarelecidos uns contra os outros. Voltava-se e ia calado e
amortecido de volta à sua cama de verga.
Todas as tarefas estavam já feitas e as bagagens prontas
para as férias que aquela família tanto ansiava. Roupões de banho, camisolas de
lã para o caso de estar frio, fartos casacos de pelo, calças detalhadamente
engomadas, sapatos de pele e finalmente uns trapinhos constantemente costurados
de Cacambo e umas sandálias de tecido rasgado, num saquinho à parte. Começaram
a viagem naquele carro luxuoso, no qual estava reservado um lugar para Cacambo,
onde os seus irmãozinhos colavam as pastilhas elásticas e se esqueciam de
pacotes de todos os doces que ingeriam.
Abriu a janela e sentiu-se momentaneamente livre com toda aquela leve
brisa a agredir-lhe o rosto e com todas aquelas árvores a ficarem para trás.
Olhou em frente , admirando a beleza daquele caminho de alcatrão iluminado pelo
Sol quente. Ficou uns extensos minutos a olhar em frente até ao horizonte
daquela estrada a imaginar o que haveria para lá do invisível , se haveria
liberdade, se haveria crianças como ele capazes de sorrir e chutar uma bola sem
serem repreendidos , livres de sorrir sem serem esbofeteados, capazes de gostar
de alguém. O seu semblante assanhou-se e
voltou para dentro do carro, onde nem dera conta de toda aquela festa entre os
seus pais adotivos e os seus irmãos que ele tanto abominava. Voavam papéis, erguiam-se gritos e sorrisos a
congratular todas as novas agilidades idiotas dos meninos , mas Cacambo não.
Estava ali ele sentado a observar o lado de fora, o lado onde seria livre e
capaz de tudo.
Chegados da longa viagem, instalaram-se naquele casarão
alugado por uma semana , governado por criados detalhadamente trajados ,com uma
grande experiência de receção de hóspedes , por sinal. Cacambo dispensou toda
aquela artimanha de boas maneiras e correu até a um quarto dos cinco que lá
haviam. Assim, os seus pais instalaram-se num quarto, os seus dois pequenos
irmãos cada um em seu quarto, sobrando um para os criados, ou melhor um buraco,
onde haviam uns colchões devidamente colocados no chão e uma mesinha simples
com um candeeiro tão antigo quanto as rochas que rodeavam aquela mansão.
Á tarde, antes do jantar, foram todos banhar-se á piscina
á exceção de Cacambo que preferiu aventurar-se pela casa e descobrir tudo a que
tinha direito. Arrastava-se pelas paredes e dobrava-se pelas portas e esquinas
, de maneira a que não fosse visto por nenhum criado. Tamanha ousadia permitiu-o descobrir um
pequenino armário encostado a uma tela velha e já gasta , onde nele estava um
pesado molho de chaves, todas elas de tamanhos e feitios cada um de sua nação,
mas havia uma particularidade: Todas as chaves estavam assinaladas com
símbolos, ao parecer de Cacambo, egípcios. Avançou pelo corredor da esquerda e
subiu até ao andar de cima e foi aí que reparou que todas as portas tinham uma
chapa de latão por baixo de cada maçaneta com símbolos iguais aos das chaves.
Estranho, as portas lá de baixo não tinham nada disto. Pensou para si. Abriu uma porta ,cujo símbolo da mesma era uma
cobra invertida. Era como uma espécie de barracão integrado naquela casa
luxuosa, mas só que aquele compartimento era revestido de madeira pobre com
falhas e à espera de ser envernizada. Ao fundo havia uma grande janela.
Aproximou-se. Não conseguiu conter a sua expressão de surpresa e admiração por
todo aquele conjunto de árvores e flores. Todo aquele tom de verde e amarelo,
com um descampado lá mais atrás era tudo perfeito . Ali poderei correr, saltar , gritar como
nunca gritei, pensou. Na verdade, este nobre aventureiro nunca havia descoberto
como seria gritar ou como seria a sua voz fora dos habituais murmúrios. Cerrou mais o olhar e conseguiu alcançar o
lago que estava lá mais adiante, com um pequeno barquito de madeira, talvez
destinado a passeios pelo meio de todo aquele arvoredo exaustivo. Verificou o que havia naquela escrivaninha
poeirenta no outro lado e achou um pedaço de giz, um bloco com anotações já
quase extintas pelas folhas comidas e uma lanterna que, estranhamente, estava
intacta. Na gaveta de baixo apenas encontrou uma navalha. Decidiu conservá-la
no seu bolso do colete que envergava todos os dias, assim como a lanterna e o
bloco.
Ao descer as escadas , apareceu-lhe á frente um criado
muito zangado com tamanho atrevimento , mas Cacambo desculpou-se de não ter
conseguido localizar com precisão o quarto de banho. O criado encaminhou-o até
lá e Cacambo fechou-se no lado de dentro e saiu pela janela até à parte de trás
daquela mansão detalhadamente construída com madeira branca e janelas
ornamentadas por breves esculturas .
Parou, olhou para cima e conseguiu identificar a janela do
quarto-barracão e seguiu pelo meio das árvores e das flores. Ainda não tinha um
plano traçado , mas queria fugir. Correu e finalmente conseguiu ter o seu
primeiro contacto com a natureza. Os seus pais biológicos tinham morrido num
ataque de bombistas dois meses após o seu nascimento, pelo que este pequeno
órfão foi recolhido por uma família benfeitora e mais tarde adotada pela
família com quem até então vivia, a única que conhecera, na verdade. Eva a sua mãe adotiva era a única que , por
vezes, lhe concedia uma vida de igualdade face aos seus filhos biológicos. Ele
tinha ganho um enorme carinho por ela desde pequenito. Quando procurava abrigo,
era no colo dela que ele o encontrava.
Parou, como se tivesse sido travado por alguém e concluiu
que não podia sair dali sem ela.
Regressou , escolhendo o momento
adequado em que ela sairia do quarto até ao quarto de banho para tomar o seu
duche . Abordou-a e explicou-lhe a sua intenção de fugir com ela , deixando
todos os outros para trás. Eva negou-o ao seu filho adotivo , escorraçando-o para
um canto e fechando a porta do quarto de banho à chave.
Fulminando de ódio, Cacambo, esperou até ser noite.
Sentou-se na mesa principal, mas apenas porque os criados podiam desconfiar de
alguma marca de maus tratamentos , mas durante toda a refeição foi ignorado por
todos, até mesmo por aquele criado que o havia apanhado nas escadas , não lhe
servindo a sopa de abóbora a que todos tiveram direito.
Chegado o momento do digestivo, o seu pai adotivo
recolheu-se até a um canto adornado por fartos sofás de tecido aveludado vermelho
. Cacambo esgueirou-se pela porta de trás e sem pensar nem uma única vez ,
desenhou-lhe um traço escarlate no seu pescoço. O sangue jorrava agora para
dentro do seu Whisky Irlandês , acabando por vazar todo no tapete desenhado em
linhas simples .
Eva deitou cada um dos seus filhos nas suas camas e
acolheu-se na sua. Cacambo aproveitou todo o reboliço dos criados na cozinha
para atentar os seus irmãos. Puxou das cordas que prendiam os resguardos das
cadeiras da mesa e saiu para o corredor em direção aos quartos das demais
crianças.
Entrou e fez o serviço igual nos dois: Amarrou-os à cama
, asfixiando-os com as almofadas até os pobres coitadinhos pararem de dar
coices . Imediatamente a seguir, correu pelo descampado e seguiu no barquinho ,
ainda a aprender como manejá-lo com aqueles remos pesados. Usou a lanterna para
iluminar o bloco e conseguiu decifrar um pedaço de um pequeno e breve mapa ,
onde localizava uma pradaria que tinha como nota adicional “governada pelos
Serra”.
Cacambo ao chegar a essa pradaria, foi prontamente
recolhido pelos escravos negros e atenciosamente tratado pelos Serra.
Descobriu o caminho para a felicidade, junto daqueles que
verdadeiramente o amavam. Era agora um bravo rapaz, aventureiro e sabia agora o
que era ser especial e amado por alguém e conhecia agora a força do seu grito.
Ajudava os criados nas suas tarefas que considerava mais divertidas e foi-lhe
concedido o direito de estudar, porque os Serra consideravam que Cacambo era
demasiado inteligente para se dedicar à vida de escravo. Quanto a Eva, a
tortura foi maior que a do seu marido esfaqueado e dos seus filhos asfixiados.
Deparou-se às cinco e um quarto da manhã, ao amanhecer, com o seu marido caído
no sofá , engolido pela poça do seu próprio sangue e viu os seus amados
rebentos roxos e com rostos mortos e sisudos , estendidos na cama.
