terça-feira, 2 de julho de 2013

5:15


Oito da manhã e todos acordavam sonolentamente, entornando-se para cima das portas e caindo sobre as cadeiras de pele.  Bebericavam o leite dos cereais ,como se o conteúdo daquelas taças fosse veneno que, ao entrar em contacto com os seus lábios, lhes queimava a pele os fazia explodir .
Porém, Cacambo não. Permanecia ali sentado na berma da cama de verga envelhecida pelo tempo e pelas fortes pancadas que levava nas horas de brincadeira dos seus ditos irmãos. A sua têmpera obstruída  retraía-o  ; o seu olhar malévolo e taciturno mirava todo aquele cenário de estática agitação da sua família que o havia roubado do seu natural ninho. Sentia uma forte repulsa por todos aqueles seres que  tanto o bajulavam de sorrisos, como o repeliam por ser diferente. Cacambo agia não agindo de forma alguma , limitava-se a olhar para todos eles de cabeça baixa e corpo firme , surripiando os dentes amarelecidos uns contra os outros. Voltava-se e ia calado e amortecido de volta à sua cama de verga.
Todas as tarefas estavam já feitas e as bagagens prontas para as férias que aquela família tanto ansiava. Roupões de banho, camisolas de lã para o caso de estar frio, fartos casacos de pelo, calças detalhadamente engomadas, sapatos de pele e finalmente uns trapinhos constantemente costurados de Cacambo e umas sandálias de tecido rasgado, num saquinho à parte. Começaram a viagem naquele carro luxuoso, no qual estava reservado um lugar para Cacambo, onde os seus irmãozinhos colavam as pastilhas elásticas e se esqueciam de pacotes de todos os doces que ingeriam.  Abriu a janela e sentiu-se momentaneamente livre com toda aquela leve brisa a agredir-lhe o rosto e com todas aquelas árvores a ficarem para trás. Olhou em frente , admirando a beleza daquele caminho de alcatrão iluminado pelo Sol quente. Ficou uns extensos minutos a olhar em frente até ao horizonte daquela estrada a imaginar o que haveria para lá do invisível , se haveria liberdade, se haveria crianças como ele capazes de sorrir e chutar uma bola sem serem repreendidos , livres de sorrir sem serem esbofeteados, capazes de gostar de alguém.  O seu semblante assanhou-se e voltou para dentro do carro, onde nem dera conta de toda aquela festa entre os seus pais adotivos e os seus irmãos que ele tanto abominava.  Voavam papéis, erguiam-se gritos e sorrisos a congratular todas as novas agilidades idiotas dos meninos , mas Cacambo não. Estava ali ele sentado a observar o lado de fora, o lado onde seria livre e capaz de tudo.
Chegados da longa viagem, instalaram-se naquele casarão alugado por uma semana , governado por criados detalhadamente trajados ,com uma grande experiência de receção de hóspedes , por sinal. Cacambo dispensou toda aquela artimanha de boas maneiras e correu até a um quarto dos cinco que lá haviam. Assim, os seus pais instalaram-se num quarto, os seus dois pequenos irmãos cada um em seu quarto, sobrando um para os criados, ou melhor um buraco, onde haviam uns colchões devidamente colocados no chão e uma mesinha simples com um candeeiro tão antigo quanto as rochas que rodeavam aquela mansão.
Á tarde, antes do jantar, foram todos banhar-se á piscina á exceção de Cacambo que preferiu aventurar-se pela casa e descobrir tudo a que tinha direito. Arrastava-se pelas paredes e dobrava-se pelas portas e esquinas , de maneira a que não fosse visto por nenhum criado.  Tamanha ousadia permitiu-o descobrir um pequenino armário encostado a uma tela velha e já gasta , onde nele estava um pesado molho de chaves, todas elas de tamanhos e feitios cada um de sua nação, mas havia uma particularidade: Todas as chaves estavam assinaladas com símbolos, ao parecer de Cacambo, egípcios. Avançou pelo corredor da esquerda e subiu até ao andar de cima e foi aí que reparou que todas as portas tinham uma chapa de latão por baixo de cada maçaneta com símbolos iguais aos das chaves. Estranho, as portas lá de baixo não tinham nada disto. Pensou para si.  Abriu uma porta ,cujo símbolo da mesma era uma cobra invertida. Era como uma espécie de barracão integrado naquela casa luxuosa, mas só que aquele compartimento era revestido de madeira pobre com falhas e à espera de ser envernizada. Ao fundo havia uma grande janela. Aproximou-se. Não conseguiu conter a sua expressão de surpresa e admiração por todo aquele conjunto de árvores e flores. Todo aquele tom de verde e amarelo, com um descampado lá mais atrás era tudo perfeito . Ali poderei correr, saltar , gritar como nunca gritei, pensou. Na verdade, este nobre aventureiro nunca havia descoberto como seria gritar ou como seria a sua voz fora dos habituais murmúrios.  Cerrou mais o olhar e conseguiu alcançar o lago que estava lá mais adiante, com um pequeno barquito de madeira, talvez destinado a passeios pelo meio de todo aquele arvoredo exaustivo.  Verificou o que havia naquela escrivaninha poeirenta no outro lado e achou um pedaço de giz, um bloco com anotações já quase extintas pelas folhas comidas e uma lanterna que, estranhamente, estava intacta. Na gaveta de baixo apenas encontrou uma navalha. Decidiu conservá-la no seu bolso do colete que envergava todos os dias, assim como a lanterna e o bloco.
Ao descer as escadas , apareceu-lhe á frente um criado muito zangado com tamanho atrevimento , mas Cacambo desculpou-se de não ter conseguido localizar com precisão o quarto de banho. O criado encaminhou-o até lá e Cacambo fechou-se no lado de dentro e saiu pela janela até à parte de trás daquela mansão detalhadamente construída com madeira branca e janelas ornamentadas por breves esculturas .  Parou, olhou para cima e conseguiu identificar a janela do quarto-barracão e seguiu pelo meio das árvores e das flores. Ainda não tinha um plano traçado , mas queria fugir. Correu e finalmente conseguiu ter o seu primeiro contacto com a natureza. Os seus pais biológicos tinham morrido num ataque de bombistas dois meses após o seu nascimento, pelo que este pequeno órfão foi recolhido por uma família benfeitora e mais tarde adotada pela família com quem até então vivia, a única que conhecera, na verdade.  Eva a sua mãe adotiva era a única que , por vezes, lhe concedia uma vida de igualdade face aos seus filhos biológicos. Ele tinha ganho um enorme carinho por ela desde pequenito. Quando procurava abrigo, era no colo dela que ele o encontrava. 
Parou, como se tivesse sido travado por alguém e concluiu que não podia sair dali sem ela.  Regressou  , escolhendo o momento adequado em que ela sairia do quarto até ao quarto de banho para tomar o seu duche . Abordou-a e explicou-lhe a sua intenção de fugir com ela , deixando todos os outros para trás. Eva negou-o ao seu filho adotivo , escorraçando-o para um canto e fechando a porta do quarto de banho à chave.
Fulminando de ódio, Cacambo, esperou até ser noite. Sentou-se na mesa principal, mas apenas porque os criados podiam desconfiar de alguma marca de maus tratamentos , mas durante toda a refeição foi ignorado por todos, até mesmo por aquele criado que o havia apanhado nas escadas , não lhe servindo a sopa de abóbora a que todos tiveram direito.
Chegado o momento do digestivo, o seu pai adotivo recolheu-se até a um canto adornado por fartos sofás de tecido aveludado vermelho . Cacambo esgueirou-se pela porta de trás e sem pensar nem uma única vez , desenhou-lhe um traço escarlate no seu pescoço. O sangue jorrava agora para dentro do seu Whisky Irlandês , acabando por vazar todo no tapete desenhado em linhas simples .
Eva deitou cada um dos seus filhos nas suas camas e acolheu-se na sua. Cacambo aproveitou todo o reboliço dos criados na cozinha para atentar os seus irmãos. Puxou das cordas que prendiam os resguardos das cadeiras da mesa e saiu para o corredor em direção aos quartos das demais crianças.
Entrou e fez o serviço igual nos dois: Amarrou-os à cama , asfixiando-os com as almofadas até os pobres coitadinhos pararem de dar coices . Imediatamente a seguir, correu pelo descampado e seguiu no barquinho , ainda a aprender como manejá-lo com aqueles remos pesados. Usou a lanterna para iluminar o bloco e conseguiu decifrar um pedaço de um pequeno e breve mapa , onde localizava uma pradaria que tinha como nota adicional “governada pelos Serra”.
Cacambo ao chegar a essa pradaria, foi prontamente recolhido pelos escravos negros e atenciosamente tratado pelos Serra.
Descobriu o caminho para a felicidade, junto daqueles que verdadeiramente o amavam. Era agora um bravo rapaz, aventureiro e sabia agora o que era ser especial e amado por alguém e conhecia agora a força do seu grito. Ajudava os criados nas suas tarefas que considerava mais divertidas e foi-lhe concedido o direito de estudar, porque os Serra consideravam que Cacambo era demasiado inteligente para se dedicar à vida de escravo. Quanto a Eva, a tortura foi maior que a do seu marido esfaqueado e dos seus filhos asfixiados. Deparou-se às cinco e um quarto da manhã, ao amanhecer, com o seu marido caído no sofá , engolido pela poça do seu próprio sangue e viu os seus amados rebentos roxos e com rostos mortos e sisudos , estendidos na cama. 

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