domingo, 8 de setembro de 2013

A História do Mar e de Outras Coisas

As rochas eram agitadas pela fúria do vento que ondulava o mar repetidamente. A água , limpa que estava, brilhava com os raios solarengos da manhã de verão encalorado e húmido. Mais tarde, a brisa já soprava de leve ,traçando pequenas linhas de movimento nas folhas das árvores e o mar já estaria calmo por essa hora. Mais além, lá no cimo da falésia, no alpendre estava Teresa a bebericar o seu chá habitual das tardes na companhia da sua melhor amiga , da sua confidente e companheira desde  o tempo em que se lembravam de existirem, Alexandra.
Aquelas escadas intermináveis de madeira ,que percorriam a falésia abaixo até alcançar a praia, haviam sido o cenário das suas melhores brincadeiras , foram o elo de ligação entre o seu porto de abrigo e aquele que seria o local de todas as aventuras e desventuras, de todos os sorrisos e lágrimas que até então se mantinham partilhados. Oh que linda infância! Ambas lindas, de rosto puro , neles cravavam os olhos azuis e os cabelos loiros, aqueles lábios densos e clarinhos. Ainda hoje assim é, passados trinta e oito anos. 
Alexandra é agora viúva. O seu marido morreu de acidente de carro, lamentamos a sua perda, Foram estas as palavras dos agentes da autoridade à porta de sua casa. Gonçalo, o seu filho, chorou por largos anos a morte de seu pai que havia morrido numa viagem há tanto prometida para lhe comprar um carrinho telecomandado . A culpa pregava-se no seu coração ,já Alexandra é como atirar barro à parede, o sentimento de perda foi nulo, nenhum, escasso, ponto. Teresa, por outro lado, mantinha o seu casamento de sonho com Artur, cujo fruto era David. Encontrei um trabalho , A sério, que bom, Sim, quero que venhas comigo. Teresa mostrou-se reticente em acompanhar o seu marido para o emprego que este há tanto ambicionava. Seria necessário mudar de casa , mudar de vida, de rotina. Os seus dias eram presenciados pela sua inqualificável amiga Alexandra. Juntas, na companhia de seus filhos, bebiam vinho verde e chá todas as tardes no alpendre da casa de Teresa, observavam o mar e escutavam música com muita atenção. As batidas do coração mantinham-se quentes nessas horas, o sangue corria com prazer. Não posso, É por causa dela, não queres deixar a Alexandra e por isso preferes abandonar-me a mim. Assim, Artur, partiu.
Teresa, Alexandra, Gonçalo e David ficaram no paraíso, nas suas casas, no seu convívio agora , que só não se estendia até à hora de dormir. Elas melhores amigas, eles melhores amigos, o conjunto perfeito de amizade , lealdade e honestidade. Numa certa noite, o luar estava mais claro que o normal, o mar não emitia qualquer ruído , as escadas não rangiam  , as árvores não mexiam, no entanto os lençóis de Teresa ondulavam com garra. Deixara cair-se pela tormenta do pecado e ter-se-á entregue ás mãos do filho da sua amiga, amigo do seu filho que conhecia desde bebé , Gonçalo. Amavam-se desmesuradamente sem qualquer pudor e inibição. Escondiam-no do mundo exterior há muito até que os seus corações , um perante o outro, se revelaram no eterno beijo da magnificência. A noite foi longa para Teresa e Gonçalo, os corpos estavam agora suados e cansados, o ritmo cardíaco ainda se mantinha acelerado, mas ambos não derrotaram o sono e caíram inertes nos braços um do outro. Do outro lado, David , encontrou a porta do inferno e quando a abriu só viu nada mais que claridade. Era já dia e o sol fazia notar-se na cara da sua mãe, que estranhamente estava adormecida ainda na cama. Mal o seu campo de visão se alargou e observou Gonçalo , correu. Eram gritos, eram facas que da boca dele saíam  pedindo auxílio a Alexandra. Um ombro para chorar, uma pele para tocar, uns lábios onde trincar, uma face para beijar. Não podemos fazer isto . não está correto, Só estaríamos a fazer o que o teu filho e a minha mãe fizeram do outro lado noite fora. A notícia caiu em forma de bomba . Teresa e Gonçalo mantinham a sua relação nas sombras da noite e nessas tardes não houveram chás, vinhos ou danças. As visitas à praia eram raras e nunca em conjunto, apenas lá era o ponto de encontro. Alexandra e David resistiram apenas três dias, ao fim dessas noites envolveram-se no pecado moral. David penetrou-a por amá-la, por amar o seu amigo, por amar a sua mãe e por odiá-los a todos eles. A força manteve-se inesgotável até ao ponto de colisão de todas as emoções e sensações e o costume não se desfazendo, adormeceram.  Mais tarde, as relações eram agora claras, as duas amigas tinham um caso amoroso com os filhos uma da outra e os amigos partilhavam as suas mães um com o outro. O medo profundo do envelhecimento aterrorizou estas duas , elas não caminham de certo para novas e as suas figuras vão por certo ruir. Foram anos de amor, de sexo, de amor e de sexo entre Teresa e Gonçalo e de Alexandra e David e as tardes foram sempre as mesmas , praia, vinho, música, chá, amor, beijos ,sexo.
Vou para França um mês, vou  estrear uma peça de teatro e volto assim que puder. Alexandra não podia suportar a dor de perder o seu amado. A sua insegurança dizia-lhe que não lutasse mais , porque certamente alguma galdéria mais nova o cobiçaria e o enrolaria nos seus lençóis . No mês seguinte , David e Lorena chegaram. Alexandra não quis saber a história e fugiu para casa. Posto este romance inédito Teresa e Gonçalo decidiram terminar com esta fase pecadora e tentadora. Gonçalo culpou o seu amigo por arruinar a sua vida e a de sua mãe, tudo parecia sem sentido e quebrado. A notícia de que David e Lorena iriam ter uma filha estava já espalhada e as relações dos antigos amantes eram já amenas, dentro do género . Aquela árvore dos amantes e eternos amigos havia secado , não haveria volta a dar. Gonçalo, forçosamente esbarrou com a primeira rapariga que encontrou e engravidou-a de igual modo. Os dois amigos tiveram as duas filhas em datas muito próximas e as suas mulheres davam-se bem entre si e com as suas mães e antigas amantes, facto, este último, que ambas desconheciam. Encantadas com as suas netas, Teresa e Alexandra não corrompiam o manto de invisibilidade daquelas relações anteriores e preferiram passar uma borracha no assunto, do mesmo modo que a água e o azeite se juntam.
Era agora noite e todos estavam exaustos da praia , no entanto o jantar corria a grande velocidade. Estou cansada, vou dormir. Alexandra, assim saiu. David saiu. Gonçalo apanhou-os numa escandalosa vaga de sexo selvagem. Alexandra ruborizada com o facto de ter sido apanhada pelo seu filho com o seu amigo, gritou. Os gritos de Gonçalo, impulsivos e medonhos, ouviram-se por toda a propriedade e todos foram ao encontro de tamanho alarido.  Gonçalo estava revoltado, havia acabado a sua relação com a sua amada e afinal estes dois bandidos andavam pelos cantos a fornicar. Não pode ser David, tu e a Alexandra, não…, Lorena pegou na filha e saiu a correr até ao carro, já preparada para os deixar, quando a outra rapariga se lhe chega perto e pergunta o que fazer, O Gonçalo e a Teresa são também amantes não percebeste, se tiveres algum juízo vens comigo também. Teresa foi despedir-se da sua neta , incumbida de dar o recado ao filho e ao amante que nunca mais veriam as filhas.

Na manhã seguinte, Gonçalo acordou e correu pelas escadinhas de madeira abaixo, Bom dia , e assim se deitou ao lado da sua amada, mãe do seu amigo, que por sua vez, estava com a sua mãe , ambos de lábios pregados.


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