terça-feira, 23 de dezembro de 2014

NATAL - CAPÍTULO III - NOITE SILENCIOSA

Os travões foram acionados a tempo de evitar o embate. O tronco daquela àrvore teria certamente caído devido à forte intensidade do nevão. A equipa socorrista abandonou o veículo e dirigia-se ao obstáculo a fim de o remover para que pudessem salvar o corpo de Emily que estava todo ele dominado pelo vivaz gélido temporal.
De coração sagaz , Emily escapuliu-se da ambulância que a detinha no seu anterior. Esgueirou-se pelas portas traseiras que haviam sido esquecidas e , meio a cambalear, lá foi Emily. Lutava contra o vento, não conseguia discernir quase nada, as formas das coisas para si eram todas elas disformes, enevoadas, quase impercetíveis. Levava as mãos ao peito num ar de pranto, evocava os seus cinco sentidos, apelando a que estes permanecessem com ela e a fizessem chegar a Ashton a tempo de resgatá-lo e levá-lo de volta à ambulância. Se estava ou não apaixonada não o sabia ela dizer, contudo não era capaz de o largar aos mantos da neve. Os seus lábios contorciam-se das dores provocadas pela rigidez baça da sua pele, das fortes pancadas que o vento se lhe assomava às ventas, cerrava os olhos numa tentativa de ver, reparar no que estava à sua volta, procurando por Ashton. Chegou até ao monte onde o carro do avô dele tinha embatido, o carro estava lá, Ashton não. Correu, à velocidade que pôde, claro está, para o carro. Ashton devia estar no interior, estava cada vez mais frio. Emily entrou em choque e logo que conseguiu mover-se, alcançou o banco traseiro e de lá tirou uma manta com a qual se havia tapado horas antes e cobriu Ashton com ela. Abraçou-o, beijou-lhe a face, passou-lhe o polegar desde o queixo até aos lábios, atentou neles e de seguida cravou-lhe um tórrido beijo. Segurava a cabeça de Ashton com as duas mãos e continuava a beijar os seus lábios imóveis. Ashton de olhos fechados e fechados continuaram eles, os de Emily, esses lacrimejavam a perda dos companheiros, os de Ashton, entenda-se.
Estava frio. Gelava-lhe os ossos e quebrava-os em corrente, como bonecas de porcelana esbatidas pelo tempo, sempre com os olhos aterrorizadamente focados em algo. Estava Emily no carro com o rapaz, que a levara até a casa da família, onde ela iria passar o Natal, morto. Ela olhava-o com uma palidez dócil. O corpo de Ashton estava sentado no banco do condutor, a sua boca estava aberta, os olhos entreabertos e com a face ligeiramente curvada para ela. A última visão do pobre rapaz havia sido a rapariga que sempre platonicamente tinha amado.

Desta forma começou, desta forma acaba a história. Sugiro, aos leitores, que cada um de vós atente no amor e na compaixão que o vosso coração sente e que espalhem cada sentimento, criem incêndios de emoções, chamas de alegria, vendavais de beijos, tornados de abraços, tempestades de sorrisos. O Natal, apenas por não ser todos os dias, mas apenas um dia só, lembremo-nos, pelo menos nesse mesmo dia, de quem amamos e, mais importante, amá-los. Mais essencial que sentir é mostrar. 

sábado, 6 de dezembro de 2014

NATAL - CAPÍTULO II – O CORAÇÃO QUER AQUILO QUE QUER

Emily saiu do carro, num pranto, procurando por alguém na imensidão do nada que a pudesse ajudar, naquele fim de tarde invernosa, gelada, escura. Não havia ninguém que pudesse aliviar aquela sensação de estar perdida, sozinha. O coração de Emily batia por redundâncias incoerentes, batia entre o querer sair dali o mais rapidamente possível e o querer não sair dali sem Ashton.
O amor é injusto e quem constrói um quadro de planos futuros, deixa-lo tão impreciso, deixando o repositório das culpas para o coração. O frio aperta e a sensação de que ele não lá estava para a segurar, mas o coração apenas quer aquilo que quer. Incoerências. Não há contos de fadas com carros espetados no gelo e natais arrasados pelo amor ferido pelo selvagem negrume de um dia, de uma noite, de um coração, mas este apenas quer aquilo que quer.  Por vezes a nossa melhor arma é a que nos mata no mesmo instante em que a usamos para matar o inimigo, foi isso que Emily fez ao provocar o acidente. Era assim que se sentia.
 - O telemóvel!! – Gritou Emily.
Emily conseguiu apanhar o seu telemóvel que estava debaixo do banco onde ia, contudo não havia rede.  As suas mãos tremiam, o seu corpo estava imóvel, o seu olhar aberto, atento ao que podia fazer para melhorar a situação. Devastada e aterrorizada, Emily entrou no carro e tentou procurar o telemóvel de Ashton. Estava receosa de tocar-lhe. Ele parecia morto, tão sereno que estava. Ficou a admirar o quão lindo ele era, reparou no quanto especial aquele cadáver a fazia sentir. Deixou-se de coisas e tocou-lhe as calças, passou-lhe a mão pelo sexo, correu os seus dedos por toda a área restrita e por fim alcançou o bolso do lado esquerdo. Lá estava o telemóvel. O rapaz não tinha nada que fosse atualizado.
- Não me digas que o telemóvel também era do avõ! – Ironizou Emily - Merda! Merda! Merda! Ashton, assustaste-me!
Ashton agarrou firme o braço de Emily, de olhos abertos e filtrados na sua pele branca e agora seca, desgastada.
 - Tocaste-me tão suavemente, não tive coragem de te distrair...tu sabes...
- Não sejas ordinário, seu porco, nojento...
- Calma lá, já que sou psicopata, posso também ser violador? – Ashton ria-se dolorosamente.
Emily mais uma vez ficou sem saber o que responder, desta vez não corou, antes tivesse corado. A sua testa avermelhou-se da cólera.
- E que tal usares essa tua boa disposição para nos tirares daqui! Idiota.
- Senhora, Madame, Miss, já tentou, pelo menos, ligar o telemóvel?


Emily entregou-lhe o telemóvel com raiva de si mesma. Detestava quando os outros lhe passavam atestados de estupidez.
- Aqui está. Um telemóvel “do avô” que funciona, tem rede e que nos vai tirar daqui.
- Vá, cala-te e faz o que tens a fazer!
- Está?! Sim...bem eu tive um acidente...não estou apenas a sangrar da cabeça...não, sinto-me bem, com algumas dores, mas bem...sim, estou acompanhado. Não...não...não, ela está bem, bem em demasia...claro...por favor, sejam rápidos.
- Então?
- Consegui falar.
- Cala-te, jura...não...não se nota!
- Tu enervas-me, dá para seres menos dramática?
- Como é que queres que eu seja menos dramárica se estamos aqui no meio do nada, de noite, ao frio?!
- Não grites comigo, merda! Foste tu que causaste isto tudo! – Ashton gritou, deu uma forte pancada no tablier do carro e saiu porta fora.
Emily ficou dentro do veículo esbarrado a chorar, tomou a veracidade do argumento de Ashton como uma facada e sentia-se pronta a morrer de agonia. Resolveu, pela primeira vez na vida, guardar o orgulho para si mesma e sair do carro e correr até Ashton e pedir-lhe desculpas.
- Ashton , espera.  Fui muito estúpida contigo, desculpa!




- Já reparaste que não fazes mais nada que é culpabilizar-me, insultar-me, desculpares-te? Chega, eu fiz esta viagem por ti, não por mim.
- Tu também vais passar o Natal com a tua família, não deixes essa para mim também...
- Eu vim por ti.
- Como por mim? Não vives em Quebec? A tua família não está lá à tua espera?
- Mas qual família? Os meus pais abandonaram-me, não conheço a minha família, apenas as pessoas que ficaram comigo.
- Então o que é tudo isto? Uma tentativa de me matar? Porquê?
- Porque sempre te quis.
- Eu disse que tu eras um psicopata!
- Eu sou apenas um rapaz normal que estava a tentar conhecer melhor uma rapariga que julgava vir a amar, mas enganei-me. Tratava-se tudo de uma surpresa, mas até isso tu foste capaz de arruinar! Descobri o amor em ti, nunca soube o que era amar e tu mostraste-me isso tão bem! De facto o coração só quer aquilo que quer, é injusto, injusto!


Ashton correu até sem poder mais. Deu por si no meio de árvores que o envolviam numa espécie de redoma negra e aterradora. Sentou-se e levou as mãos à cabeça. Chorou.  Emily ficou junto ao carro, sentada. Chorava. Ambos choravam a pensar um no outro. Ashton tinha raiva de Emily, como ela destruira tudo o que ele havia construido, destruira a hipótese de ele ser feliz uma  única vez na vida. Emily tinha o coração rasgado por dentro, seco por fora, obstruído pelas lágrimas incessantes de ardor, ácidas como o seu temperamento intempestivo e cruel.
Uma luz dilacerante penetrou o corpo de Ashton. Correu até um pouco mais adiante para tentar perceber que luz era aquela e, pelo que a sua visão conseguiu alcançar e absorver, tratar-se-ia de uma ambulância. Finalmente havia chegado! Como se as suas pernas tivessem sido domadas por um automatismo, o rapaz correu o mais que põde para chegar até Emily antes do veículo de socorro, contudo, para mal do pobre coitado, Emily já havia entrado na ambulância.
-Não sei onde ele está, ele saiu a correr há um bom bocado e não o vi mais.
- Bom, teremos de a levar já daqui para fora até ao hospital para que seja observada por um médico. Poderá estar a entrar numa hipotermia daquelas fortes, acalme-se.
- O que vai acontecer com o Ashton? Não o podemos deixar aí sozinho, está escuro, está frio! Por favor...voltem para trás...
- Não se preocupe, enviaremos, logo que possível, uma ambulância que o venha resgatar. A senhora é que não pode ficar aqui enquanto o seu namorado não aparece.
- Não é meu namorado.
Ashton ainda correu atrás da ambulância, mas não a conseguiu alcançar. O frio gelava-lhe o corpo e por mais que o movimentasse não lhe conseguia dar o aquecimento que necessitava para continuar a lutar pela vida, por Emily.
- Emily...volta...Em..Emi... – Os olhos de Ashton estavam mais abertos que nunca, mas logo se fecharam. Ashton permanecia no chão.


sábado, 4 de outubro de 2014

NATAL - CAPÍTULO I - O INÍCIO NEM SEMPRE É MÁGICO

Estava frio. Gelava-lhe os ossos e quebrava-os em corrente, como bonecas de porcelana esbatidas pelo tempo, sempre com os olhos aterrorizadamente focados em algo. Estava Emily no carro com o rapaz, que a levara até a casa da família, onde ela iria passar o Natal, morto. Ela olhava-o com uma palidez dócil. O corpo de Ashton estava sentado no banco do condutor, a sua boca estava aberta, os olhos entreabertos e com a face ligeiramente curvada para ela. A última visão do pobre rapaz havia sido a rapariga que sempre platonicamente tinha amado. Uma colega de faculdade com quem nunca falara, mas que sempre tinha seguido e admirado. Emily era uma rapariga difícil, sem grandes emoções transparecidas para o exterior, contudo o seu coração de gelo ardia no frio da tempestade em que estava, ardia de ódio por ela mesma.
Ashton, numa das vezes que seguiu Emily, escutou uma conversa entre ela e uma amiga, Hannah. Ambas se mostravam ansiosas por regressar a casa na época natalícia, rever os familiares, poder disfrutar do calor das chamas da lareira e poder ver os sorrisos desenhados nas caras dos que mais amavam.
-Como vais para casa?
-Não tenho dinheiro para a passagem de avião... Terei de ver se arranjo boleia de alguém.
- Os meus pais vêm-me buscar, boa sorte com isso.
- Quero tanto poder voltar a dormir no chão, embrulhada em mantas da minha avó, junto à lareira. – Foram as palavras finais de Emily antes da última aula.
Ashton, rapidamente, colou um papel no quadro de notificações do átrio D-1 da faculdade que dizia Quem quiser boleia de Natal para Quebec contacte-me – 0018765123456. Ashton.
-Hey, daqui fala a Emily...estou a falar com o...
- Ashton, sim.
- Hum...bem eu precisava mesmo de alguém que me levasse até Quebec... vou passar o Natal...
- Eu levo-te. Encontramo-nos depois de amanhã, dia 23 às 14h na porta da faculdade.
- Obrigada.
Ashton viu o seu plano concluído com êxito e procurou informar-se sobre quais os gostos culinários de Emily. Hannah foi uma grande ajuda, pelo que este comprou tudo a tempo.
- Olá, sou eu... a Emily.
- Ashton, prazer. Podes trazer esse saco de compras e colocá-lo no carro?
- Claro que sim.
- Dá-me a tua mala, eu ajudo-te...deve estar pesada.
Entraram no carro e iniciaram a viagem.
- Mais ou menos quanto tempo levaremos até que terminemos a viagem?
- Umas seis horas, por aí.
Entediada, a indomável Emily ligou a Hannah.

- Estou? Sim, bem estou a apanhar uma seca na auto-estrada...achas que sei?! As auto-estradas são todas iguais...Bem, sim, claro, mas ele não quis vir comigo, achou que estávamos a ir rápido demais e como não quis conhecer a minha família, tive de pedir a um qualquer boleia para casa.



Atrapalhada, Emily afastou o telemóvel do ouvido, tapou o microfone do mesmo com a mão esquerda e verbalizou um desculpa, não é nada pessoal para Ashton.
- Hum...Hannha, volto a ligar-te mais tarde. Beijinhos e bom Natal.
- Não levei a mal, não fiques preocupada.
- É que eu supostamente vinha com um rapaz que...esquece, vamos continuar a viagem.
Permaneceram calados durante pouco mais de duas horas e eram já quatro e um quarto. Farta do constrangimento do inexistente, Emily perguntou onde ele vivia.
- Quebec.
- Que coincidência. Incomoda-te que fume dentro do carro?
- Abre a janela, então.
- Onde posso fazê-lo?
- Aí mesmo ao pé do puxador...
- Isto está um bocado estragado, hum... não consigo.
- O carro era do meu avô...
Ashton ficou envergonhado, queria seduzi-la, mas o seu parceiro de estrada tinha-o deixado ficar mal.
- Bem, não é nenhum Audi R8, mas desde que chegue a casa é o que importa, estar sentada muito tempo faz-me doer as costas.
- Se quiseres, podemos parar na próxima área de serviço.
- Agradecia.
Tal como acordado, pararam na estação de serviço mais próxima. Ashton quis levar Emily às cavalitas, como uma senhora de verdade deveria de ser levada.
-Não é necessário, a sério, não...deixa estar.
-Acho que usei mal a palavra quando disse escolha , é mesmo uma ordem. Salta para as minhas costas.
Às gargalhadas, lá saltou Emily. Abraçou o pescoço de Ashton como se a sua vida dependesse disso mesmo. Ele colocou-a no chão e olharam-se por breves segundos, sorrindo.
- Hum....preciso de ir à casa de banho, dá-me licença.
Ashton, embaraçado, saiu da frente e sorriu de uma forma torta. Emily emitiu o seu ar de gozo imperial e encaminhou-se até onde queria ir.
Emily, já na casa de banho de serviço público, depois de ter dado ordem de escape às suas necessidades fisiológicas, encaminhou-se até ao espelho. Enquanto retocava o risco sublime que tinha nos olhos, apercebia-se da sua beleza, dos seus glaciares olhos azuis, do seu cabelo liso, negro como um promontório de um vulcão em plena atividade vulcânica, a sua pele branca e os seus lábios carnudos ansiosos pelo beijo do seu verdadeiro amor. Sentia-se envergonhada agora que reparara em si, não obstante, ruborizou-se mais ainda quando lhe veio ao de cima aquele sentimento de orgulho e satisfatez. Lançou um olhar felino ao espelho e saiu porta fora. Deu de caras com uns homens assustadores, que a olhavam incessantemente para todos os cantos mais recônditos do seu corpo. Horrorizada, afastou-se dali o mais rapidamente que pôde. Viu Ashton lá mais adiante, no balcão, e dirigiu-se a ele como se as entrelinhas do diabo a quisessem agarrar pelas pernas e sumi-las no ambíguo.
- Vamos embora, já!
- Estás com muita pressa, passou-se alguma coi...
- Já!


De olhos arregalados, Ashton entrou em concordância com a fera que agora mostrara as suas garras de fora. Entraram no carro, as portas custaram a abrir, por vezes prendiam, mas lá cederam. Fazia frio lá fora, cá dentro estava mais acolhedor. Ashton conseguiu ligar o carro à terceira tentativa e lá prosseguiram a rota natalícia.
- Estás bem?
- Sim...
-  Pareces-me desanimada... alguém que não queiras rever quando chegares a casa?
- Não... está tudo bem.
- Podes contar-me, se quiseres.
- Eu não te conheço! Não tenho que te contar a minha vida!


A face de Emily fumegava agora pelos poros, raivosa, explodiu. Na verdade, era certo que ela não o conhecia, mas pobre rapaz, as suas intenções eram as melhores. Ao que parece...
Permaneceram calados algum tempo, Emily decidiu rasgar o silêncio:
- Não devia ter falado contigo com toda aquela brutalidade, desculpa.
- Achas? Não tem problema nenhum.
- Estás a tentar ser simpático?
- Estás a assumir que preciso de me fazer passar por alguém que eu não sou?
- Podes ser um psicopata e eu nem sei...
- Tu é que me ligaste, lembras-te?
A esta não soube Emily responder, corou.


A estrada inspirava neve, o céu expirava neve, Emily e Ashton estavam no meio da neve. Seguiam viagem calados, olhando em frente, nem por isso atentos. O mundo escapava-lhes e, tanto um como o outro, não se davam conta. O rádio entrecortava-se com faíscas auditivas, apenas vozes soavam no meio daquela poluição sonora. Ashton alterou para uma outra estação de rádio. Era um tema de Natal que estava a tocar. Ashton seguiu com a mão até ao botão do rádio para mudar novamente de estação, mas Emily segurou-lhe no braço para impedi-lo. Sorriu-lhe, mas Ashton mantave-se imóvel. Dois corpos sozinhos dentro de um carro, por mais falido que estivesse, era ainda um carro, mas ambos vazios, sozinhos. 
- Não vais falar?
- Tu pensas que eu sou um psicopata qualquer, mas enfiaste-te no mesmo carro que eu...como queres que eu esteja?
- Não precisas de ficar assim!
- Talvez não precise, mas estou, por isso fica calada e deixa-me em paz.
- Quero sair do carro!
- Estás louca!
- Deixa-me sair do carro!
Emily gritou, esperneou e, ao mesmo tempo, quase sem se dar conta, batia nos braços de Ashton. Este, por seu turno, na tentativa de defender-se, virou agressivamente o volante. Um carro estava na frente deles e a única alternativa que passou pela cabeça do rapaz foi desviar-se, fosse para onde fosse. O carro acabou fora da estrada, no meio de árvores e rochas. A neve continuava ali a cobri-los.


quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Crónica de Uma Vida de Merda

Uma vez alguém me disse para não ter medo do futuro, para não ter medo do que quer que fosse que estivesse para além do horizonte.
O meu nome é Teo...bem, Teophilus, na verdade. Merda de nome! Tenho dezassete anos, moro em Cleveland, uma cidade no Tennessee, não muito grande. São só quase trinta e nove mil pessoas como eu. Anotem: Eu nunca disse isto! Não são iguais a mim. Bom, segundo a minha pesquisa, Cleveland tem cerca de 38,627 mil habitantes. São, então 38,626 pessoas, todas elas diferentes de mim.
Não sou portador de nenhuma enfermidade fatal, nem daquelas que se toma um xarope e meia dúzia de comprimidos e se fica logo bom, não tenho nenhum devaneio, não tenho pai, não tenho amor próprio, tenho um filho. Deixem que vos conte a história da minha irresponsabilidade a favor da natalidade adolescente.
Há oito meses, conheci uma rapariga, perfeitos traços faciais, tinha um corpo bem desenhado e cobria-o com uma indumentária pouco inocente. Shannon, é o nome dela. Tem dezoito anos e os pais dela, quando descobriram que a filha não era já virgem, outra notícia foi anunciada de mãos dadas: Estava grávida de um rapaz que havia conhecido nessa manhã, eu. Neste momento vive num apartamento modesto com os tios. Sobrevive.
Sempre me quis tornar numa pessoa íntegra, com princípios morais bem definidos, sempre quis ser bem aceite por todos os que me rodeiam e destacar-me em algo que não fosse usual. O meu único destaque é na bebida. Ninguém aprova, pois claro. Quanto mais ambiciono melhorar e lutar pela vida, mais escabroso me torno, que decadência absolutamente infindável nos recreios da amargura e da solidão ténue e insípida!  
Começando a história, Shannon quis que eu assumisse o filho, assim o fiz. Mas sei que não tinha maturidade, eram deficiências atrás de deficiências, buracos vazios, falhas rasgadas. A minha vida tornou-se um tapete de areia movediça. Raios! Naquele momento estava mais que lixado! Não sabia como havia, eu de dezassete anos, contar aos meus pais que iria passar pela mesma aventura depressiva, irritante e aborrecida que eles. Merda! Desculpem eu dizer tantos palavrões, mas é algo que vem naturalmente, este sou eu, prazer. Na verdade, não quis assumir a criança, estava-me nas tintas para o puto, para a Shannon, ela é uma vadia! Quem é que no seu perfeito juízo engravida de um rapaz que acaba de conhecer? Uau! Dei por mim a falar de juízo...
Grande merda! Tinha acabado de contar à minha mãe e já ela estava a delinear o meu futuro, como se eu não tivesse posse dos meus próprios fios para fazer de mim mesmo uma marionete de mim mesmo. Quem disse que os pais sabem sempre o que é melhor para os filhos, enganou-se, puta que o pariu! Para cavar mais o buraco da minha futura sepultura, Shannon queria que fosse com ela à primeira ecografia de uma criança que eu nunca pedi, aliás que o meu esquecimento permitiu que existisse. Sim, o preservativo ficou em casa! Andar com eles na carteira é inequivocamente uma tentação ao ato carnal a que dão o nome de fazer amor. Eu cá prefiro chamar-lhe sexo...e de outras coisas que não acho oportuno mencionar. Nem perguntem, recusei acompanhá-la, obviamente.
O tédio inimaginável das sombras que escondem um quadro pintaram uma linda gravura: Eu, ela, uma cama, não haviam lençóis. Não preciso de pormenorizar mais o sucedido. Ponto positivo: Não precisei de me lembrar de me esquecer do preservativo, ela não podia engravidar. Adivinhem porquê...já lá tinha posto o puto na vez anterior. Céus! Não sabia mesmo para que lado me virar! A minha mãe a insistir que fosse trabalhar para sustentar um bago de milho e a vadia da Shannon do outro lado a querer incumbir-me o papel de papá perfeito. Tenho apenas uma palavra para descrever toda esta situação: Merda!
Já que não quis acompanhá-la, fiz de chulo e levei a vadia ao sítio. Esperei por ela no estacionamento. Mas que puta de vida, ela deitadinha numa maca e eu aqui com as costas contorcidas dentro do carro. Bom, sempre ouvi dizer que um pai também merece ter privilégios...uma cervejinha calhava que nem ginjas!
Este foi o momento em que percebi que estar vivo e não poder viver é qualquer coisa como uma equação química em que a base não neutraliza o ácido. Anotação número dois: Nunca percam nenhum momento da vida, não o aproveitem como se o fosse o último, senão a percentagem de alcoolizados aumentaria exponencialmente, contudo vivam e não se limitem a testar os vossos limites de sobrevivência nesta enorme bola redonda, ligeiramente achatada nos pólos, a que dão o nome de terra, mundo, globo, depende do ponto de vista. O porquê de uma mudança tão abismal...contar-vos-ei agora mesmo.
Shannon meses mais tarde, foi despejada de casa dos tios. Digamos que a ousadia nunca a fez ganhar pontos. Completamente isolada do mundo, andou, vagueou, simplesmente andou. Uns dias depois ligaram-me do hospital a  informar-me que Shannon tinha nela alojada uma bactéria letal e que tinha sofrido várias paragens cardíacas e as esperanças de que sobrevivesse eram gravitacionalmente baixas. A hipótese de perder a minha maior inimiga aterrorizou-me.
Um simples toque na mão, um entrelaçar de dedos, um cruzamento de olhares, dois lábios encostados numa face pálida, bacenta e morta. Tudo isso foi o limiar da minha sobrevivência. Desconhecia a possibilidade de amar e não se dar conta. Lancei-me contra o tempo, infiel, que nos dá com uma mão e nos tira com a outra, e percebi que só com uma vida se faz o jogo. Eu estava ali ao lado da pessoa que amava, com quem apenas um momento havia bastado para amar, ser amado, gerar vida, espalhar cor, encadear com brilho, cobrir com emoções aquilo que, na verdade e não intencionalmente, era amor, era um filho. Afinal o que eu classificava como erro, revelou-se a maior verdade de todas, bem dito preservativo esquecido!
A notícia foi-me cuspida na cara, sem contemplação de sentimentos e desprovida de qualquer emoção idoneamente consentida pela razão da ética. Shannon estava viva. O nosso filho não. Tantos sacrifícios para nada. Não, anotação número três: Eu realmente nunca disse isto! É lindo poder observar de dentro como uma pessoa não precisa de nascer para completar com êxito a sua missão na terra. Irónica é a vida, porco é o tempo que nos tira uma vida para nos ensinar como manejar uma outra. Somos santos e pecadores de nós mesmos, as cartas estão lançadas e o jogo está para ser jogado. Viva a vida dos célebres medíocres capatazes da ordem dos rebaixados e inúteis, tão quase inúteis como a própria sobrevivência. Gritemos aos atentados, oremos às injustiças..tudo é iguaria selvagem da nossa atividade mental e cognitiva. O mundo é para ser celebrado com vida. Vida essa que acabou por nascer treze meses mais tarde.

Descobri aquilo em que realmente me destaco:




segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Abismo de Papel


  Corro no negro abismo de papel, deslizo o lápis procurando um subterfúgio de ofensas.
Olho para a janela e por ela vejo o nada a resplandecer, a luz imóvel brilha onde não há lugar, onde não passa ninguém. Saio e sigo a estrada, vou a pé, com medo, a tremer, onde tudo é raro e húmido, turvo como esta luz. Aproximo-me de um beco sem saída, vejo o erro que em ti por mim se sente, sinto que falhei, sei que tu também. 
Apago as memórias dos sorrisos guardados, das trevas enevoadas e embrulhadas em papel fio de ópio, aqui não mora ninguém. 
Sigo viagem, sei que não devia dizer, o amor é um lugar comum onde nascemos para morrer, não há cinzas para delas renascer, sinto que errei, sei que tu também.
Retiro o cordel do pano do presente que me deste, retirei...o anel que nunca usei, sei que falhei, sei que tu também.
Corro pela estrada, fugazmente lembrando o teu sorriso, turvo como esta luz. O caminho está preso, tem uma corda ao pescoço, pede auxílio pela água que o fortalece, pelo sol que o aquece e reconhece. 
O mundo mudou e não vai parar, não adianta tentar controlar, quanto mais tentativas imponho, mais fácil será para me enrolar. Deitar ao mar o corpo a sonhar, faço, invento, crio um enorme desperdício de ideias para nós os dois que não quero usar. Tu já sabes que não escondo ilusões, crio enorme vício em ambições que nunca poderei ter.
Dou um tiro no escuro, onda de cera, não sei se acertei. O tiro foi puro, levemente só, quando vi eras tu. Sinto que falhei. Olha bem para mim, diz-me que errei, sei que tu também. 

segunda-feira, 2 de junho de 2014

O Lago dos Abutres




Era uma primavera chuvosa. Estávamos em maio, as gotas incessantes da chuva tocavam as folhas das árvores e, por elas, deslizavam, caindo gloriosamente na terra. O sol brilhava por entre as densas nuvens e a brisa estava gelada e amena. O pátio estava encharcado, as plantas revolvidas no seu recear da tempestade, o baloiço cambaleava sem ninguém que o usasse, o lago estava revoltado, os peixes em busca do seu canto mais fundo, a casa vazia.
Alexander estava na escola. Tinha-se esquecido do chapéu de chuva, mas o bom era que a chuva tinha dado uma chance de ele chegar a casa limpinho. Saiu a correr até casa, sem se ter despedido dos amigos. Andava distante. Toda a sua vida tem sido um mar distante. Habituou-se a ser e a estar distante. Ninguém lhe dera margem de manobra e sempre que se aproximava de alguém, esse alguém tratava de o iludir, criar-lhe falsas esperanças e depois atacar pelas costas.
Chegou a casa aturdido pelo vento fresco que lhe gelou a cara. Entrou, deitou a mala por cima do sofá e subiu as escadas até ao quarto. Lá, tirou a roupa e aconchegou-se na cama. Olhava pela janela e tentava encontrar o máximo de ramos das árvores possíveis. Levantou-se para poder observar melhor. Aquela paisagem confortava-o e ao mesmo tempo entristecia-o e amedrontava-o. Não havia nada para além de um bosque e um lago. Via-se um pouco da cidade lá ao fundo, muito ao fundo. As outras casas surgiam no canto do olho, também elas ao fundo.
A casa era verde, um verde seco, com apenas um banco já sem cor, julgando eu que aquela não seja a sua cor natural, deteriorado pelos bons anos que devia ter. As escadas para o alpendre estavam amolecidas com a chuva, prestes a ceder. O telhado já se queixava da falta de telhas e a chaminé implorava por uma limpeza.
Moveu-se um pouco atrás, alcançou o roupão, que estava preso no puxador da porta do roupeiro e cobriu-se com ele. Voltou à janela e ao seu mundo. Esteve assim, em pé a observar a paisagem, durante três horas e quarenta e dois minutos. Fora interrompido por um barulho de um motor. Foi até à cozinha e viu o carro dos pais estacionado pela janela. Foi até à entrada da porta e viu vultos  através dos vidros foscos e tapados pela leve cortina branca, antiga e amarelecida pelo tempo.
- Olá
A mãe afagou-o com a mão e não disse mais nada, revolvendo-se na cozinha, preparando-se para cozinhar. O homem que estava com ela há mais de dez anos e os seus dois irmãos, mais novos, entraram de seguida. Nenhum deles o cumprimentou, tornaram-no invisível.
De facto, Alexander sempre havia sido invisível e quando o não era desembrulhava presentes envenenados e quem sofria com eles era sempre a sua mãe.  Uma vez mais esquecido, entranhou-se no quarto e só de lá saiu quando ouviu o chamamento para descer e jantar. Sempre que jantavam em família, Alexander permanecia calado. Não porque não queria falar, nada disso. Aliás, ele tinha muito que dizer, contar e partilhar. Não havia oportunidade para ele falar. A mãe, o pai, os irmãos, todos eles falavam entre si, só as vidas deles eram importantes. Alexander era um complemento inútil. Os lugares na mesa eram dispostos simetricamente. Alexander, por sua vez, sentava-se numa ponta da mesa sem ninguém à frente ou ao seu lado.  Quando o jantar terminava, era Alexander que arrumava a loiça suja e logo depois retirava-se para o quarto. Deitava-se na cama, mergulhava nas leituras complexas de Voltaire e, quando se cansava de ler, punha os phones e lançava-se na música. Adormecia todas as noites a ouvir música, já não era capaz de adormecer sem ouvir, pelo menos, um par de músicas.
Acordou na primeira manhã de junho e tudo foi igual aos outros dias. Desceu as escadas, passando pelo quarto dos pais e dos irmãos. Todos dormiam silenciosamente. Tomava o pequeno-almoço, subia novamente, tinha os seus cuidados de higiene diária, vestia-se aleatoriamente e saía. Até à escola, ia sempre pelo caminho mais logo. Precisava daquele tempo só dele, no qual só ele estivesse presente. Ouvia-se bastante a ele próprio, conhecia a sua voz interior melhor que ninguém, melhor até que a sua voz produzida nas cordas vocais. Nem sabia ainda se ambas coincidiam. Raramente se ouvia. Raramente o ouviam. Raramente o queriam ouvir.
Sophia, a sua melhor amiga, mostrava-se atenta a todos os seus passos. Caminha atrás dele, já sabendo o motivo daquela marcha lenta e pouco cautelosa. Aconselhava-o muito, dizia-lhe que tudo iria melhorar e que não ele não podia exigir o melhor de todos. Alexander não se convenceu nunca e nunca deixou de exigir o melhor de todos, porque sempre havia considerado ter dado o seu melhor, em todos os casos, com todas as pessoas.
A caminho de casa, Alexander viu uma velhota, muito parecida à sua bisavó, sentada no meio do chão, pedindo auxílio monetário. A pobreza era algo que o incomodava bastante, revoltava-o. Olhou para a carteira, não tinha muito. Resolveu dar tudo, o pouco que tinha.
-Obrigado meu querido filho. São jovens como tu que me fazem acreditar que um dia ainda serei feliz, com os poucos anos de vida que me restam…obrigada.
Alexander, verteu uma lágrima e saiu dali o mais depressa que pôde. Chegou a casa, subiu as escadas, fechou-se no quarto e atirou-se à cama.
-Já nem se fala quando se chega a casa, isto anda bonito…anda, anda!
O jovem rapaz já nem queria saber das lamentações ameaçadoras do pai, por afinidade. Só pensava naquela velhota e de como se sentia orgulhoso dele próprio e estranho ao mesmo tempo de ter interagido com alguém por vontade própria…não lhe tinha dirigido palavra, é certo. Queria ajudá-la mais, sempre que pudesse.
Na manhã seguinte, acordou mais cedo para falar com a mãe:
-Mãe, dás-me algumas moedas?
-Para quê?
-Vou almoçar hoje na escola.
- E a mesada que te dei?!
-Gastei-a.
-Em quê?
- Nu…Nuns trabalhos da escola, mãe.
Irritada, como era de esperar, visto que era de manhã, a mãe deu-lhe umas moedas para as mãos. Alexander tocou-lhe a face com os lábios e saiu. Foi à escola normalmente, como em todos os dias, e, quando ia a caminho de casa, tomou novamente o caminho mais longo e lá estava a senhora de novo.
-Meu querido filho, por que me ajudas tu? Não falas? Não tenhas medo de mim…não te farei mal. Por que me ajudas tu? Não posso aceit…
-Aceite!
- Mas tu ontem já….
- Não quero o dinheiro de volta!
As palavras de Alexander cortavam o ambiente, eram agudas.
- Obrigado, meu querido. Os teus pais devem estar orgulhosos de terem um menino tão dócil…
-Tenho de ir.
-Já?
-Sim, estou com fome, tenho que ir.
Alexander não tinha almoçado. O pouco dinheiro que a mãe lhe deu, deu-o ele à senhora, na íntegra. Chegou a casa e proveu-se de um grande lanche. Bolo de cenoura, sumo de laranja natural e, para finalizar, biscoitos de manteiga com chocolate para barrar.
Na manhã seguinte, chovia imenso. A sua mãe andava no jardim, inquieta, a apanhar a roupa que pingava de tão encharcada estar. O jardim estava do avesso. A tempestade daquela noite havia destruído muita coisa, até o baloiço. Era seu, tinha-lhe sido oferecido no seu oitavo aniversário. Alexander ficou muito contente. Adorava ler e ouvir música, refastelado no seu baloiço, enquanto mirava a beleza natural do lago e imaginava o que poderia estar para além do reflexo do céu e das árvores. Já há muito que não o usava e agora sentia-se triste.
-Podemos comprar outro?
-Para quê? Nunca mais o usaste, não há dinheiro.
As palavras da mãe soram-lhe injuriosas, mas ela tinha razão.
-Mãe…
- Sim, diz.
-Preciso de dinheiro.
-Ainda não recebi, não te posso dar mais nada. Vens a casa hoje, está bem?
-Claro.
A mãe dera-lhe um beijo na testa e afagou-o como sempre fazia, sempre que não lhe saciava algum desejo, como mostras de ter pena, quando muitas das vezes nem havia pensado mais sobre o caso.
Alexander sentia-se, uma vez na vida, com um objetivo na vida. Queria ajudar a senhora e ser o criador dos seus dias felizes nos últimos dias que lhe restavam, mas sentia-se dependente, impotente, decadente.
-Desculpe senhora. Hoje não consigo ajudá-la.
-Ajudas-me se fores dar um passeio comigo. Não tenho ninguém com quem falar.
-Claro, eu ajudo-a a levantar-se.
Começaram ambos a caminhar pela estrada vazia, ainda semicoberta pela neve.
-Conta-me mais sobre ti, rapaz.
-Não tenho nada de interessante para contar.
-Oh, vá lá. Todos nós temos uma história.
-Eu não.
-Parece-me que estás triste, revoltado. Acertei?
-Talvez.
-Conta-me.
-Sinto-me sozinho no meio de todo o mundo. Não tenho muitos amigos. Acho que só tenho uma amiga, mas não lhe dou muito crédito. O meu pai morreu há vários anos. Nunca fomos muito próximos. A minha mãe anda sempre muito ocupada com o trabalho, chega a casa sempre cansada e tem de estar mais tempo com os meus dois irmãos mais pequenos. O meu pai igual…
-Mas o teu pai não tinha morrido, jovem rapaz?
-Sim….estou a batalhá.la…este pai é o homem com quem a minha mãe está há já muitos anos.
-Gostas dele?
-Gosto.
-Por que não me falas dele?
-Eu já falei. Está sempre com muito que fazer. Fale-me de si.
-O meu nome é Joanne. Casei três vezes. O meu primeiro marido morreu na guerra. O meu segundo marido morreu de cancro. O meu terceiro marido fugiu com as minhas duas filhas. Deixou-me na penumbra e tornou-me na mulher que sou hoje. Por vezes penso que, muito possivelmente, não serei sequer uma mulher, não terei eu lugar no mundo. Sou uma anónima, muitos me desprezam. Os que não me despreza, olham-me com escárnio.
-Não tem mesmo ninguém que a ajude?
-Tinha uma irmã, a Judith. Morreu o ano passado…era muito debilitada, coitadinha. Os filhos dela nunca me chegaram a conhecer. Não sei os nomes de cada um, nunca me interessei, honestamente.
-Porquê?
- Habituei-me a estar sozinha. Após a morte do meu segundo marido, habituei-me à solidão e coloquei como hipótese ficar sozinha para sempre. Conheci o meu terceiro marido, tive duas filhas e fiquei sozinha na mesma. Eu estava destinada a ficar sozinha e tentei sempre impedi-lo…talvez a culpa da morte dos meus dois maridos e a fuga do terceiro, tenha sido um empurrão contra eles para fora da minha vida, por isso mesmo, porque eu estou e sempre estive destinada à solidão.
-A solidão é muito má?
-Não. Depende da forma como a vives. Agora eu gosto de estar sozinha. Sinto falta de muita coisa, mas é o melhor.
-Mas não tem ninguém que a ajude…
-E assim vejo quem o faz por gosto e não por obrigação, meu querido. Muda enquanto tens tempo, meu filho. És jovem, bonito, deves ser inteligente e, acima de tudo, és de boa índole. Tens um coração enorme cheio de amor para dar e parece-me que insistes em consumi-lo pelas negras chamas que conduzes. A vida é assim, meu querido…injusta….muito injusta. Mas boa!
Joanne estava já cansada de caminhar, pelo que despachou Alexander e sentou-se no chão. Ao caminhar até casa, Alexander pensava em tudo o que Joanne lhe dissera e de como as suas inseguranças lhe pareciam infantis ao lado de uma vida tão negra, tão sem cor como a de Joanne. Chegou a casa e abraçou a mãe. Só o conseguia fazer com a mãe. Apesar de tudo, era a pessoa que mais amava na vida e não amava mais ninguém sem ser ela. A mãe correspondeu e abraçou-o também.
Aquela noite foi serena, enquanto lia Cândido ou o Optimismo, de Voltaire e se envolvia nas filosofias de Martinho e nas cruzadas de Cândido, Alexander dava por si a pensar na sua vida, na de Joanne em comparação com a filosofia otimista de Pangloss. Este companheiro de Cândido, considerava que, tal como Leibniz, todos nós nos encontramos no melhor dos mundos possíveis e que para que possamos colher os melhores frutos, há que cultivar o nosso jardim.
Petas, tudo petas e mentiras. Estamos na selva disfarçada de civilização, pensava para si Alexander. Odiava o mundo, o negativo sobrepunha-se sempre ao positivo, nada lhe parecia correto, nada lhe proporcionava alegria.
-Vou sair.
-Onde vais?
-Vou dar uma volta.
-Andas cada vez mais parvo, palavra de honra!
O palavreado repugnante do pai tornara-se insignificante. Saiu sem antes saber se aprovavam ou não.
Alexander tinha dezoito anos e já era capaz de tomar decisões por ele. Era hábito ser julgado por todos, alvo de críticas, mesmo quando o que havia feito não tinha tido consequências algumas. Sempre que tentava agradar, nunca era gratificado por tal. Voltou a casa, já de madrugada, revoltado consigo mesmo e com o seu pensamento. Deitou-se.
Na manhã seguinte não acordou a tempo das aulas….bonito! Valeu-lhe um enorme sermão do pai.
-Não mereces os esforços que eu e a tua mãe fazemos por ti. Não mereces a mãe que tens. Não mereces a vida que tens.
Não mereces a vida que tens, esta frase ecoou-lhe no cérebro todo o dia.
Saiu de casa, à hora do toque de saída da escola, e lá foi ele à rua onde Joanne estaria. Não a encontrou lá. Deu uma volta por toda a cidade, revolveu jardins, o terminal ferroviário, frutarias, padarias, praças e nada. Saiu da cidade e procurou nas estradas mais isoladas, andou por entre as densas árvores do bosque e o resultado foi o mesmo.
Alexander chorava. Procurava pela sua companhia, a única pessoa que tinha mostrado interesse por saber algo sobre ele, que tinha mostrado interesse e preocupação pelos seus sentimentos. Hoje queria repetir o passeio, ouvir mais histórias. Caminhou à volta do lago Obsidiana que ficava isolado, no meio do bosque, onde agora lhe raiava o sol. Enquanto caminhava, sentia que algo o observava. Não sabia o quê.
Joanne, sentia-se esventrada, sentia a sua privacidade invadida. Gostava do miúdo, mas queria afastá-lo. Era o destino. Ela tinha que estar sozinha. Ela queria estar sozinha. O amor que lhe assolava o coração, tomava-lhe de assalto as artérias e fazia o sangue engrossar. A sua pele encarquilhava-se cada vez que pensava em voltar a falar com alguém sobre si mesma. Não queria ninguém a rodeá-la.
Numa manhã soalheira, andava a mãe de Alexander desesperada à procura da cria desaparecida. Alexander não havia voltado a casa e já tinham passado treze dias. As buscas policiais terminaram e deram Alexander como desaparecido, possivelmente fuga propositada. Disseram-lhe que se conformasse. Lá em casa, ninguém parecia sentir muito a falta de Alexander. Os irmãos brincavam no tapete da sala e o pai via o noticiário da noite, todos como se nada tivesse sucedido. A mãe, por seu turno, encafuava-se no quarto do filho à procura de alguma pista que a pudesse conduzir até ele.
No dia seguinte, a cidade estava bastante agitada. As pessoas soltavam cochichos e a mãe de Alexander sentia-se insegura.
- O que se passou vizinha, sabe?
- Uma pedinte foi encontrada, esta madrugada, morta junto ao bosque.
-Meu deus, que tragédia. O que aconteceu à pobre coitada?
-Ninguém quer saber, quero é que tudo passe rápido…com este alvoroço todo as pessoas não me compram fruta nenhuma!
Decidiu ir até ao bosque onde o corpo havia sido encontrado e lá estava ele. Ninguém o havia removido ainda. Quem não tinha nome, quem não era reconhecido socialmente, demorava umas longas horas para que o seu final fosse finalmente encerrado com o célebre enterro. Deslizou-lhe os dedos pela face, emendou-lhe o lenço que trazia já mais fora do bolso que dentro e afastou-lhe a mão do peito. Da mão direita do cadáver de Joanne, soltou-se um papel com um lago mal desenhado.  No papel estava escrito Não mereces a vida que tens. Correu e saiu dali o mais rápido que pôde. Chorava sem parar e caminhava, em simultâneo, pelo bosque. Pensou que se tivesse tratado de um assassínio, mas, de repente, lembrou-se de algo. Correu até casa e voltou a remexer nas folhas soltas deixadas pelo filho na secretária. Numa delas, estava um lago e por baixo dizia Obsidiana, o lago das perdas.
Alexander foi encontrado pela sua mãe. O corpo flutuava pela água calma do lago por pouco mais de duas semanas. Estava frio, duro, arroxeado, sem expressão. A mãe da cria morta, envolveu o seu corpo em volta do corpo do filho, esperançosa de o salvar.
Do fundo do bosque, Alexander, em espírito, observava a mãe. Havia sido empurrado para dentro do lago. Nos momentos em que vinha à superfície para tentar respirar, via os olhos maquiavélicos e descontrolados de Joanne. Ao observar a mãe teve a confirmação de uma convicção já há muito sua: Seria a sua mãe que o tentaria salvar quando não houvesse solução possível. Notava-lhe a tristeza profunda no olhar, no olhar da mãe. As lágrimas corriam pela cara vermelha de fúria e medo. Pobre mãe!

Não mereces a vida que tens. Alexander virou costas e deixou a mãe agarrada ao seu corpo.