terça-feira, 23 de dezembro de 2014

NATAL - CAPÍTULO III - NOITE SILENCIOSA

Os travões foram acionados a tempo de evitar o embate. O tronco daquela àrvore teria certamente caído devido à forte intensidade do nevão. A equipa socorrista abandonou o veículo e dirigia-se ao obstáculo a fim de o remover para que pudessem salvar o corpo de Emily que estava todo ele dominado pelo vivaz gélido temporal.
De coração sagaz , Emily escapuliu-se da ambulância que a detinha no seu anterior. Esgueirou-se pelas portas traseiras que haviam sido esquecidas e , meio a cambalear, lá foi Emily. Lutava contra o vento, não conseguia discernir quase nada, as formas das coisas para si eram todas elas disformes, enevoadas, quase impercetíveis. Levava as mãos ao peito num ar de pranto, evocava os seus cinco sentidos, apelando a que estes permanecessem com ela e a fizessem chegar a Ashton a tempo de resgatá-lo e levá-lo de volta à ambulância. Se estava ou não apaixonada não o sabia ela dizer, contudo não era capaz de o largar aos mantos da neve. Os seus lábios contorciam-se das dores provocadas pela rigidez baça da sua pele, das fortes pancadas que o vento se lhe assomava às ventas, cerrava os olhos numa tentativa de ver, reparar no que estava à sua volta, procurando por Ashton. Chegou até ao monte onde o carro do avô dele tinha embatido, o carro estava lá, Ashton não. Correu, à velocidade que pôde, claro está, para o carro. Ashton devia estar no interior, estava cada vez mais frio. Emily entrou em choque e logo que conseguiu mover-se, alcançou o banco traseiro e de lá tirou uma manta com a qual se havia tapado horas antes e cobriu Ashton com ela. Abraçou-o, beijou-lhe a face, passou-lhe o polegar desde o queixo até aos lábios, atentou neles e de seguida cravou-lhe um tórrido beijo. Segurava a cabeça de Ashton com as duas mãos e continuava a beijar os seus lábios imóveis. Ashton de olhos fechados e fechados continuaram eles, os de Emily, esses lacrimejavam a perda dos companheiros, os de Ashton, entenda-se.
Estava frio. Gelava-lhe os ossos e quebrava-os em corrente, como bonecas de porcelana esbatidas pelo tempo, sempre com os olhos aterrorizadamente focados em algo. Estava Emily no carro com o rapaz, que a levara até a casa da família, onde ela iria passar o Natal, morto. Ela olhava-o com uma palidez dócil. O corpo de Ashton estava sentado no banco do condutor, a sua boca estava aberta, os olhos entreabertos e com a face ligeiramente curvada para ela. A última visão do pobre rapaz havia sido a rapariga que sempre platonicamente tinha amado.

Desta forma começou, desta forma acaba a história. Sugiro, aos leitores, que cada um de vós atente no amor e na compaixão que o vosso coração sente e que espalhem cada sentimento, criem incêndios de emoções, chamas de alegria, vendavais de beijos, tornados de abraços, tempestades de sorrisos. O Natal, apenas por não ser todos os dias, mas apenas um dia só, lembremo-nos, pelo menos nesse mesmo dia, de quem amamos e, mais importante, amá-los. Mais essencial que sentir é mostrar. 

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