O meu nome é Teo...bem, Teophilus,
na verdade. Merda de nome! Tenho dezassete anos, moro em Cleveland, uma cidade
no Tennessee, não muito grande. São só quase trinta e nove mil pessoas como eu.
Anotem: Eu nunca disse isto! Não são iguais a mim. Bom, segundo a minha
pesquisa, Cleveland tem cerca de 38,627 mil habitantes. São, então 38,626
pessoas, todas elas diferentes de mim.
Não sou portador de nenhuma
enfermidade fatal, nem daquelas que se toma um xarope e meia dúzia de
comprimidos e se fica logo bom, não tenho nenhum devaneio, não tenho pai, não
tenho amor próprio, tenho um filho. Deixem que vos conte a história da minha
irresponsabilidade a favor da natalidade adolescente.
Há oito meses, conheci uma
rapariga, perfeitos traços faciais, tinha um corpo bem desenhado e cobria-o com
uma indumentária pouco inocente. Shannon, é o nome dela. Tem dezoito anos e os
pais dela, quando descobriram que a filha não era já virgem, outra notícia foi
anunciada de mãos dadas: Estava grávida de um rapaz que havia conhecido nessa
manhã, eu. Neste momento vive num apartamento modesto com os tios. Sobrevive.
Sempre me quis tornar numa
pessoa íntegra, com princípios morais bem definidos, sempre quis ser bem aceite
por todos os que me rodeiam e destacar-me em algo que não fosse usual. O meu
único destaque é na bebida. Ninguém aprova, pois claro. Quanto mais ambiciono
melhorar e lutar pela vida, mais escabroso me torno, que decadência
absolutamente infindável nos recreios da amargura e da solidão ténue e
insípida!
Começando a história, Shannon
quis que eu assumisse o filho, assim o fiz. Mas sei que não tinha maturidade,
eram deficiências atrás de deficiências, buracos vazios, falhas rasgadas. A
minha vida tornou-se um tapete de areia movediça. Raios! Naquele momento estava
mais que lixado! Não sabia como havia, eu de dezassete anos, contar aos meus
pais que iria passar pela mesma aventura depressiva, irritante e aborrecida que
eles. Merda! Desculpem eu dizer tantos palavrões, mas é algo que vem
naturalmente, este sou eu, prazer. Na verdade, não quis assumir a criança,
estava-me nas tintas para o puto, para a Shannon, ela é uma vadia! Quem é que
no seu perfeito juízo engravida de um rapaz que acaba de conhecer? Uau! Dei por
mim a falar de juízo...
Grande merda! Tinha acabado de
contar à minha mãe e já ela estava a delinear o meu futuro, como se eu não tivesse
posse dos meus próprios fios para fazer de mim mesmo uma marionete de mim
mesmo. Quem disse que os pais sabem sempre o que é melhor para os filhos,
enganou-se, puta que o pariu! Para cavar mais o buraco da minha futura
sepultura, Shannon queria que fosse com ela à primeira ecografia de uma criança
que eu nunca pedi, aliás que o meu esquecimento permitiu que existisse. Sim, o
preservativo ficou em casa! Andar com eles na carteira é inequivocamente uma
tentação ao ato carnal a que dão o nome de fazer
amor. Eu cá prefiro chamar-lhe sexo...e de outras coisas que não acho
oportuno mencionar. Nem perguntem, recusei acompanhá-la, obviamente.
O tédio inimaginável das
sombras que escondem um quadro pintaram uma linda gravura: Eu, ela, uma cama,
não haviam lençóis. Não preciso de pormenorizar mais o sucedido. Ponto
positivo: Não precisei de me lembrar de me esquecer do preservativo, ela não
podia engravidar. Adivinhem porquê...já lá tinha posto o puto na vez anterior.
Céus! Não sabia mesmo para que lado me virar! A minha mãe a insistir que fosse
trabalhar para sustentar um bago de milho e a vadia da Shannon do outro lado a
querer incumbir-me o papel de papá perfeito. Tenho apenas uma palavra para
descrever toda esta situação: Merda!
Já que não quis acompanhá-la,
fiz de chulo e levei a vadia ao sítio. Esperei por ela no estacionamento. Mas que puta de vida, ela deitadinha numa
maca e eu aqui com as costas contorcidas dentro do carro. Bom, sempre ouvi
dizer que um pai também merece ter privilégios...uma cervejinha calhava que nem
ginjas!
Este foi o momento em que
percebi que estar vivo e não poder viver é qualquer coisa como uma equação
química em que a base não neutraliza o ácido. Anotação número dois: Nunca
percam nenhum momento da vida, não o aproveitem como se o fosse o último, senão
a percentagem de alcoolizados aumentaria exponencialmente, contudo vivam e não
se limitem a testar os vossos limites de sobrevivência nesta enorme bola redonda,
ligeiramente achatada nos pólos, a que dão o nome de terra, mundo, globo,
depende do ponto de vista. O porquê de uma mudança tão abismal...contar-vos-ei
agora mesmo.
Shannon meses mais tarde, foi
despejada de casa dos tios. Digamos que a ousadia nunca a fez ganhar pontos.
Completamente isolada do mundo, andou, vagueou, simplesmente andou. Uns dias
depois ligaram-me do hospital a
informar-me que Shannon tinha nela alojada uma bactéria letal e que tinha
sofrido várias paragens cardíacas e as esperanças de que sobrevivesse eram
gravitacionalmente baixas. A hipótese de perder a minha maior inimiga
aterrorizou-me.
Um simples toque na mão, um
entrelaçar de dedos, um cruzamento de olhares, dois lábios encostados numa face
pálida, bacenta e morta. Tudo isso foi o limiar da minha sobrevivência.
Desconhecia a possibilidade de amar e não se dar conta. Lancei-me contra o
tempo, infiel, que nos dá com uma mão e nos tira com a outra, e percebi que só
com uma vida se faz o jogo. Eu estava ali ao lado da pessoa que amava, com quem
apenas um momento havia bastado para amar, ser amado, gerar vida, espalhar cor,
encadear com brilho, cobrir com emoções aquilo que, na verdade e não
intencionalmente, era amor, era um filho. Afinal o que eu classificava como
erro, revelou-se a maior verdade de todas, bem dito preservativo esquecido!
A notícia foi-me cuspida na
cara, sem contemplação de sentimentos e desprovida de qualquer emoção
idoneamente consentida pela razão da ética. Shannon estava viva. O nosso filho
não. Tantos sacrifícios para nada. Não, anotação número três: Eu realmente nunca
disse isto! É lindo poder observar de dentro como uma pessoa não precisa de
nascer para completar com êxito a sua missão na terra. Irónica é a vida, porco
é o tempo que nos tira uma vida para nos ensinar como manejar uma outra. Somos
santos e pecadores de nós mesmos, as cartas estão lançadas e o jogo está para
ser jogado. Viva a vida dos célebres medíocres capatazes da ordem dos
rebaixados e inúteis, tão quase inúteis como a própria sobrevivência. Gritemos
aos atentados, oremos às injustiças..tudo é iguaria selvagem da nossa atividade
mental e cognitiva. O mundo é para ser celebrado com vida. Vida essa que acabou
por nascer treze meses mais tarde.
Descobri aquilo em que
realmente me destaco:
