quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Crónica de Uma Vida de Merda

Uma vez alguém me disse para não ter medo do futuro, para não ter medo do que quer que fosse que estivesse para além do horizonte.
O meu nome é Teo...bem, Teophilus, na verdade. Merda de nome! Tenho dezassete anos, moro em Cleveland, uma cidade no Tennessee, não muito grande. São só quase trinta e nove mil pessoas como eu. Anotem: Eu nunca disse isto! Não são iguais a mim. Bom, segundo a minha pesquisa, Cleveland tem cerca de 38,627 mil habitantes. São, então 38,626 pessoas, todas elas diferentes de mim.
Não sou portador de nenhuma enfermidade fatal, nem daquelas que se toma um xarope e meia dúzia de comprimidos e se fica logo bom, não tenho nenhum devaneio, não tenho pai, não tenho amor próprio, tenho um filho. Deixem que vos conte a história da minha irresponsabilidade a favor da natalidade adolescente.
Há oito meses, conheci uma rapariga, perfeitos traços faciais, tinha um corpo bem desenhado e cobria-o com uma indumentária pouco inocente. Shannon, é o nome dela. Tem dezoito anos e os pais dela, quando descobriram que a filha não era já virgem, outra notícia foi anunciada de mãos dadas: Estava grávida de um rapaz que havia conhecido nessa manhã, eu. Neste momento vive num apartamento modesto com os tios. Sobrevive.
Sempre me quis tornar numa pessoa íntegra, com princípios morais bem definidos, sempre quis ser bem aceite por todos os que me rodeiam e destacar-me em algo que não fosse usual. O meu único destaque é na bebida. Ninguém aprova, pois claro. Quanto mais ambiciono melhorar e lutar pela vida, mais escabroso me torno, que decadência absolutamente infindável nos recreios da amargura e da solidão ténue e insípida!  
Começando a história, Shannon quis que eu assumisse o filho, assim o fiz. Mas sei que não tinha maturidade, eram deficiências atrás de deficiências, buracos vazios, falhas rasgadas. A minha vida tornou-se um tapete de areia movediça. Raios! Naquele momento estava mais que lixado! Não sabia como havia, eu de dezassete anos, contar aos meus pais que iria passar pela mesma aventura depressiva, irritante e aborrecida que eles. Merda! Desculpem eu dizer tantos palavrões, mas é algo que vem naturalmente, este sou eu, prazer. Na verdade, não quis assumir a criança, estava-me nas tintas para o puto, para a Shannon, ela é uma vadia! Quem é que no seu perfeito juízo engravida de um rapaz que acaba de conhecer? Uau! Dei por mim a falar de juízo...
Grande merda! Tinha acabado de contar à minha mãe e já ela estava a delinear o meu futuro, como se eu não tivesse posse dos meus próprios fios para fazer de mim mesmo uma marionete de mim mesmo. Quem disse que os pais sabem sempre o que é melhor para os filhos, enganou-se, puta que o pariu! Para cavar mais o buraco da minha futura sepultura, Shannon queria que fosse com ela à primeira ecografia de uma criança que eu nunca pedi, aliás que o meu esquecimento permitiu que existisse. Sim, o preservativo ficou em casa! Andar com eles na carteira é inequivocamente uma tentação ao ato carnal a que dão o nome de fazer amor. Eu cá prefiro chamar-lhe sexo...e de outras coisas que não acho oportuno mencionar. Nem perguntem, recusei acompanhá-la, obviamente.
O tédio inimaginável das sombras que escondem um quadro pintaram uma linda gravura: Eu, ela, uma cama, não haviam lençóis. Não preciso de pormenorizar mais o sucedido. Ponto positivo: Não precisei de me lembrar de me esquecer do preservativo, ela não podia engravidar. Adivinhem porquê...já lá tinha posto o puto na vez anterior. Céus! Não sabia mesmo para que lado me virar! A minha mãe a insistir que fosse trabalhar para sustentar um bago de milho e a vadia da Shannon do outro lado a querer incumbir-me o papel de papá perfeito. Tenho apenas uma palavra para descrever toda esta situação: Merda!
Já que não quis acompanhá-la, fiz de chulo e levei a vadia ao sítio. Esperei por ela no estacionamento. Mas que puta de vida, ela deitadinha numa maca e eu aqui com as costas contorcidas dentro do carro. Bom, sempre ouvi dizer que um pai também merece ter privilégios...uma cervejinha calhava que nem ginjas!
Este foi o momento em que percebi que estar vivo e não poder viver é qualquer coisa como uma equação química em que a base não neutraliza o ácido. Anotação número dois: Nunca percam nenhum momento da vida, não o aproveitem como se o fosse o último, senão a percentagem de alcoolizados aumentaria exponencialmente, contudo vivam e não se limitem a testar os vossos limites de sobrevivência nesta enorme bola redonda, ligeiramente achatada nos pólos, a que dão o nome de terra, mundo, globo, depende do ponto de vista. O porquê de uma mudança tão abismal...contar-vos-ei agora mesmo.
Shannon meses mais tarde, foi despejada de casa dos tios. Digamos que a ousadia nunca a fez ganhar pontos. Completamente isolada do mundo, andou, vagueou, simplesmente andou. Uns dias depois ligaram-me do hospital a  informar-me que Shannon tinha nela alojada uma bactéria letal e que tinha sofrido várias paragens cardíacas e as esperanças de que sobrevivesse eram gravitacionalmente baixas. A hipótese de perder a minha maior inimiga aterrorizou-me.
Um simples toque na mão, um entrelaçar de dedos, um cruzamento de olhares, dois lábios encostados numa face pálida, bacenta e morta. Tudo isso foi o limiar da minha sobrevivência. Desconhecia a possibilidade de amar e não se dar conta. Lancei-me contra o tempo, infiel, que nos dá com uma mão e nos tira com a outra, e percebi que só com uma vida se faz o jogo. Eu estava ali ao lado da pessoa que amava, com quem apenas um momento havia bastado para amar, ser amado, gerar vida, espalhar cor, encadear com brilho, cobrir com emoções aquilo que, na verdade e não intencionalmente, era amor, era um filho. Afinal o que eu classificava como erro, revelou-se a maior verdade de todas, bem dito preservativo esquecido!
A notícia foi-me cuspida na cara, sem contemplação de sentimentos e desprovida de qualquer emoção idoneamente consentida pela razão da ética. Shannon estava viva. O nosso filho não. Tantos sacrifícios para nada. Não, anotação número três: Eu realmente nunca disse isto! É lindo poder observar de dentro como uma pessoa não precisa de nascer para completar com êxito a sua missão na terra. Irónica é a vida, porco é o tempo que nos tira uma vida para nos ensinar como manejar uma outra. Somos santos e pecadores de nós mesmos, as cartas estão lançadas e o jogo está para ser jogado. Viva a vida dos célebres medíocres capatazes da ordem dos rebaixados e inúteis, tão quase inúteis como a própria sobrevivência. Gritemos aos atentados, oremos às injustiças..tudo é iguaria selvagem da nossa atividade mental e cognitiva. O mundo é para ser celebrado com vida. Vida essa que acabou por nascer treze meses mais tarde.

Descobri aquilo em que realmente me destaco: