domingo, 22 de dezembro de 2013

Quando a Lua é a única luz que temos



Não sei se serei eu apenas a imaginar, ou estarei a ver mesmo uma luz refletida no teu olhar brando? Existirá ainda uma réstia de saudade das nossas memórias enquanto ainda elas viviam no teu coração?
É toda uma série de indagações jamais respondidas. É um sentimento de ódio íntimo e pessoal. Entre o limiar, entre a fronteira que separa uma estrada de uma floresta, que separa o meu território do de todos os outros, está a verdade absolutamente resolvida em recantos sub-reptícios.
Tentando, por em excesso acreditar, resolver equações do amor, consumi toda a pura virtude em mim, caí. Querendo ou não querendo, a equação do amor não resolvida, será então denominada de equação de como saber amar. Saberei eu amar? Relutâncias…
O mar lança o que o meu corpo inspira, o sentimento de acreditação que um dia a tua física será minha e que em meu torno girará tudo o que a ti pertencer, todavia, egocentrismos no mundo do Sentimento não são permitidos.
Esperava eu que a todas estas minhas perguntas tu soubesses responder, mas… Nem eu, nem eu. Nem eu as saberei solucionar. Sinto que por vezes somos três, eu, tu e eu. Duas vezes eu, soma fatal.
Tento eu agir com naturalidade. Olhas-me tu por fora. Nunca por dentro eu serei olhado. A minha fragrância jamais será esquecida, revolvida. Terei eu de me impor a mim próprio e marcar o meu próprio território no mundo? Talvez. Talvez também no teu mundo. Quero preencher o lugar. Lugar esse partilhado por ti e por ele; eu sei que entre vocês haverá um papel, uma história. O que sou eu para ti? Namorado? Marido? Confidente? Amante?
Nunca te direi nada sobre mim, esconderei sempre tudo. A minha fragrância não poderá ser corrompida. Não espero que sintas o meu perfume, espero que não vagueies noutros mares.

Quando a Lua é a única luz que temos basta viver , ansiando a chegada do dia seguinte, refletindo sobre tudo o que estará longe. Quando a Lua é a única luz que temos basta esconder, esconder tudo o que de fraco e forte temos, sem nunca mostrar armas, apenas olhares.


 

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Caminho da solidão




Era uma tarde invernosa. O frio sentia-se na ponta avermelhada do nariz de Jayden. Ia apressado para a escola, como todos os dias úteis.
A sua rotina matinal era bastante atribulada. Acordava sempre a cambalear, a sua higiene pessoal consumia-lhe mais de metade do tempo que dispunha, vestia-se sentado, arrastava-se até à porta e lá saía , pondo-se a caminho do seu dever enquanto estudante.
Ia sempre emaranhado com a roupa e a mochila, não era rapaz de se compôr. Chegou à escola envolvido na sua música , profundamente desligado de tudo o que lhe soava exterior. O sol enfraquecia-se com o poder do negrume das nuvens. Caminhando, lá ia Jayden em direção à sua sala, onde iria ter aquela aula de Fonética , coisa que ele não sabia ao certo para que lhe serviria. Desgastado pela sua preguiça, ou mesmo falta de vontade, deixou-se ficar junto à porta ,esperando que chegasse a professora. Notou que havia novos colegas, pelo menos estavam ali de frente à entrada da sala com olhos de interrogação. Olhavam para o teto como quem não quer a coisa, mas lá se iam chegando àqueles que, notavelmente, já conheciam a roda viva que era aquela aula.
Hayden chegou-se cada vez mais perto e Jayden já desconfiando que aquela cara nova lhe iria perguntar algo, quis escapar-se para dentro da sala. Sem êxito. Hayden tocou-lhe no ombro antes que este conseguisse sequer mexer uma perna . Olá, sou novo aqui …também vais para a aula de fonética? Sim, vou. E as aulas como são? Desesperantes.
Hayden torceu o seu semblante , notando alguma arrogância, ou até mesmo um desvario nas palavras de Jayden. Preferiu não indagar em excesso e calou-se. A professora chegou e todos entraram. Jayden reparou que o seu lugar mais atrás na sala já estava preenchido. Nunca gostou de ter alguém por trás , isso constrangia-o e ver o seu lugar por estimação ocupado, encolerizou-o. Reduziu a raiva a cinzas e sentou-se num canto. Hayden entrou e ficou a olhar tentando encontrar uma cadeira vaga. Identificou Jayden sentado no canto direito e sentou-se a seu lado. Passou-se a aula e todos saíram. Este dia foi assim, nenhuma novidade em especial para Jayden.
 A sua vida era como uma caderneta de cromos colecionáveis, cujos autocolantes  ainda não tinham sido procurados. Jayden era assim, despreocupado com a vida, seguia sem rumo, caminhava sem destino…tudo lhe passava ao lado, não se apercebia nem se envolvia com nada nem ninguém. Conversas em casa eram poucas. Os seus pais estavam grande parte do dia a trabalhar  e ele, sozinho em casa, mais só se queria ver. Jantava e deixava tudo o que eram pratos, copos , canecas, talheres e guardanapos espalhados pela mesa. Ia até à sala para ver uma das suas séries, preferia a dos mortos vivos. Talvez porque já estavam mortos e um morto estará sempre só. Bocejava ao fim de cada episódio e ia deitar-se. A rotina matinal repetia-se.
Dois dias depois, Jayden chegou à porta da sala de Fonética , entrou , sentou-se e aguardou a chegada da professora Sonya, todavia antes da professora chegou Hayden. Sentou-se novamente a seu lado. No outro dia não te disse, chamo-me Hayden. Olá, sou o Jayden. Temos nomes parecidos, só muda uma letra, Reparou Hayden. Jayden calou-se. Sonya, a foneticista chegou e não se demorou a iniciar a aula. Era uma aula expositiva , as luzes estavam apagadas e apenas queria que os alunos vissem o vídeo que lhes tinha trazido. Isto é sempre assim? Sim , quase todas as aulas são deste género . Foram trocadas mais impressões sobre a aula de Fonética. Hayden sentiu uma maior entrega por parte de Jayden, no entanto ,Jayden pareceu-lhe ainda um pouco reservado; misterioso.
Jayden seguia o caminho para casa, envolto na sua música country , e ia a pensar em como tinha sido estranho ter falado tanto com uma pessoa. Estranho, mas agradável. Sentia que nunca tivera ouvido a sua voz no seu pleno timbre, até àquele dia.  Chegou a casa e deu por si a olhar em vão para as paredes como se estivesse a descobrir as suas texturas , mas estava mesmo só a pensar naquele dia.
Durante três semanas, dois dias por semana, Jayden e Hayden se encontravam à porta da sala de Fonética. Jayden , nessas semanas, já se emperiquitava mais, usando umas linhas suaves e uns cortes mais juvenis, deixando o clássico de lado. Sabia-lhe mesmo bem ter alguém com quem conversar no meio de todo aquela massa anónima. Partilhava agora momentos da sua vida, episódios engraçados, episódios tristes, pormenores da sua vida…Hayden fazia o mesmo. Descobriram que eram os dois muito próximos, no que toca a ambições, pensamentos, ideais e percursos de vida. Sentiam-se verdadeiramente amigos.
Na quarta semana , à porta da sala de Fonética, Jayden deixou-se ficar à porta, como sempre fazia, à espera de Hayden. Era o dia de estabelecer com a professora Sonya os grupos de trabalho e os temas e , por isso, Jayden estava um pouco perdido nos seus pensamentos.
Sonya chegou e Jayden sentou-se na mesa em que ele, juntamente com Hayden, se costumava  sentar. A aula começou normalmente e Jayden sentia agora um chamado nervoso miudinho. Olhava para a porta a fim de estar presente , na sua visão, o momento da chegada do seu amigo Hayden. Mas ele não chegou. Olhou em torno da sala de aula, para os seus colegas, e ele sentiu uma aura estranha na sala. Sentia que todos olhavam para si com um ar de troça, até a própria professora, quando cruzava o olhar dela com o dele, emitia uma onda trocista. Resolveu não ligar, mas ficou incomodado.  No final da aula, dirigiu-se à secretária da foneticista e disse O meu grupo é formado por mim e pelo Hayden, queremos trabalhar sobre a produção oral. Desculpa?! O quê? Está alguma coisa errada, professora? Não há nenhum Hayden nesta turma, Jayden. Há sim , ele senta-se mesmo ao meu lado em todas as aulas, não se lembra? Lembro. Então, qual é o problema? Lembro-me que tens passado as aulas a falar com alguém ao teu lado…É o Hayden professora. Não , Jayden, ninguém nunca se senta ao teu lado, sempre estiveste sentado naquele canto sozinho.
Jayden saiu a correr da aula. Desta vez foi a correr até casa, sem música, só ele, a corrida e o seu pensamento. Ele tinha a certeza que existia o Hayden. Hayden….Hayden, gritou. A precipitação começou e encharcou Jayden da cabeça aos pés. Chegou a casa e deixou-se cair à entrada. Ficou meio deitado à porta e ficou ali a observar os carros a chapinhar nas poças a alta velocidade, as folhas a entrarem no círculo de vento e a serem arrastadas para lado nenhum e ao mesmo tempo para todo o lado. Assim , neste vai-não vai, estava Jayden e os seus pensamentos.

Jayden! Jayden! … Jayden ouviu gritarem o seu nome. Aquela voz…aquela voz soava-lhe familiar. Hayden?! Sim , sou eu. A chuva não o permitia ter a certeza, mas a voz era inconfundível. Jayden levantou-se , correu através daquela corrente de chuva e vento e quando a ultrapassou não viu ninguém. Só restava uma estrada vazia. 

domingo, 8 de setembro de 2013

A História do Mar e de Outras Coisas

As rochas eram agitadas pela fúria do vento que ondulava o mar repetidamente. A água , limpa que estava, brilhava com os raios solarengos da manhã de verão encalorado e húmido. Mais tarde, a brisa já soprava de leve ,traçando pequenas linhas de movimento nas folhas das árvores e o mar já estaria calmo por essa hora. Mais além, lá no cimo da falésia, no alpendre estava Teresa a bebericar o seu chá habitual das tardes na companhia da sua melhor amiga , da sua confidente e companheira desde  o tempo em que se lembravam de existirem, Alexandra.
Aquelas escadas intermináveis de madeira ,que percorriam a falésia abaixo até alcançar a praia, haviam sido o cenário das suas melhores brincadeiras , foram o elo de ligação entre o seu porto de abrigo e aquele que seria o local de todas as aventuras e desventuras, de todos os sorrisos e lágrimas que até então se mantinham partilhados. Oh que linda infância! Ambas lindas, de rosto puro , neles cravavam os olhos azuis e os cabelos loiros, aqueles lábios densos e clarinhos. Ainda hoje assim é, passados trinta e oito anos. 
Alexandra é agora viúva. O seu marido morreu de acidente de carro, lamentamos a sua perda, Foram estas as palavras dos agentes da autoridade à porta de sua casa. Gonçalo, o seu filho, chorou por largos anos a morte de seu pai que havia morrido numa viagem há tanto prometida para lhe comprar um carrinho telecomandado . A culpa pregava-se no seu coração ,já Alexandra é como atirar barro à parede, o sentimento de perda foi nulo, nenhum, escasso, ponto. Teresa, por outro lado, mantinha o seu casamento de sonho com Artur, cujo fruto era David. Encontrei um trabalho , A sério, que bom, Sim, quero que venhas comigo. Teresa mostrou-se reticente em acompanhar o seu marido para o emprego que este há tanto ambicionava. Seria necessário mudar de casa , mudar de vida, de rotina. Os seus dias eram presenciados pela sua inqualificável amiga Alexandra. Juntas, na companhia de seus filhos, bebiam vinho verde e chá todas as tardes no alpendre da casa de Teresa, observavam o mar e escutavam música com muita atenção. As batidas do coração mantinham-se quentes nessas horas, o sangue corria com prazer. Não posso, É por causa dela, não queres deixar a Alexandra e por isso preferes abandonar-me a mim. Assim, Artur, partiu.
Teresa, Alexandra, Gonçalo e David ficaram no paraíso, nas suas casas, no seu convívio agora , que só não se estendia até à hora de dormir. Elas melhores amigas, eles melhores amigos, o conjunto perfeito de amizade , lealdade e honestidade. Numa certa noite, o luar estava mais claro que o normal, o mar não emitia qualquer ruído , as escadas não rangiam  , as árvores não mexiam, no entanto os lençóis de Teresa ondulavam com garra. Deixara cair-se pela tormenta do pecado e ter-se-á entregue ás mãos do filho da sua amiga, amigo do seu filho que conhecia desde bebé , Gonçalo. Amavam-se desmesuradamente sem qualquer pudor e inibição. Escondiam-no do mundo exterior há muito até que os seus corações , um perante o outro, se revelaram no eterno beijo da magnificência. A noite foi longa para Teresa e Gonçalo, os corpos estavam agora suados e cansados, o ritmo cardíaco ainda se mantinha acelerado, mas ambos não derrotaram o sono e caíram inertes nos braços um do outro. Do outro lado, David , encontrou a porta do inferno e quando a abriu só viu nada mais que claridade. Era já dia e o sol fazia notar-se na cara da sua mãe, que estranhamente estava adormecida ainda na cama. Mal o seu campo de visão se alargou e observou Gonçalo , correu. Eram gritos, eram facas que da boca dele saíam  pedindo auxílio a Alexandra. Um ombro para chorar, uma pele para tocar, uns lábios onde trincar, uma face para beijar. Não podemos fazer isto . não está correto, Só estaríamos a fazer o que o teu filho e a minha mãe fizeram do outro lado noite fora. A notícia caiu em forma de bomba . Teresa e Gonçalo mantinham a sua relação nas sombras da noite e nessas tardes não houveram chás, vinhos ou danças. As visitas à praia eram raras e nunca em conjunto, apenas lá era o ponto de encontro. Alexandra e David resistiram apenas três dias, ao fim dessas noites envolveram-se no pecado moral. David penetrou-a por amá-la, por amar o seu amigo, por amar a sua mãe e por odiá-los a todos eles. A força manteve-se inesgotável até ao ponto de colisão de todas as emoções e sensações e o costume não se desfazendo, adormeceram.  Mais tarde, as relações eram agora claras, as duas amigas tinham um caso amoroso com os filhos uma da outra e os amigos partilhavam as suas mães um com o outro. O medo profundo do envelhecimento aterrorizou estas duas , elas não caminham de certo para novas e as suas figuras vão por certo ruir. Foram anos de amor, de sexo, de amor e de sexo entre Teresa e Gonçalo e de Alexandra e David e as tardes foram sempre as mesmas , praia, vinho, música, chá, amor, beijos ,sexo.
Vou para França um mês, vou  estrear uma peça de teatro e volto assim que puder. Alexandra não podia suportar a dor de perder o seu amado. A sua insegurança dizia-lhe que não lutasse mais , porque certamente alguma galdéria mais nova o cobiçaria e o enrolaria nos seus lençóis . No mês seguinte , David e Lorena chegaram. Alexandra não quis saber a história e fugiu para casa. Posto este romance inédito Teresa e Gonçalo decidiram terminar com esta fase pecadora e tentadora. Gonçalo culpou o seu amigo por arruinar a sua vida e a de sua mãe, tudo parecia sem sentido e quebrado. A notícia de que David e Lorena iriam ter uma filha estava já espalhada e as relações dos antigos amantes eram já amenas, dentro do género . Aquela árvore dos amantes e eternos amigos havia secado , não haveria volta a dar. Gonçalo, forçosamente esbarrou com a primeira rapariga que encontrou e engravidou-a de igual modo. Os dois amigos tiveram as duas filhas em datas muito próximas e as suas mulheres davam-se bem entre si e com as suas mães e antigas amantes, facto, este último, que ambas desconheciam. Encantadas com as suas netas, Teresa e Alexandra não corrompiam o manto de invisibilidade daquelas relações anteriores e preferiram passar uma borracha no assunto, do mesmo modo que a água e o azeite se juntam.
Era agora noite e todos estavam exaustos da praia , no entanto o jantar corria a grande velocidade. Estou cansada, vou dormir. Alexandra, assim saiu. David saiu. Gonçalo apanhou-os numa escandalosa vaga de sexo selvagem. Alexandra ruborizada com o facto de ter sido apanhada pelo seu filho com o seu amigo, gritou. Os gritos de Gonçalo, impulsivos e medonhos, ouviram-se por toda a propriedade e todos foram ao encontro de tamanho alarido.  Gonçalo estava revoltado, havia acabado a sua relação com a sua amada e afinal estes dois bandidos andavam pelos cantos a fornicar. Não pode ser David, tu e a Alexandra, não…, Lorena pegou na filha e saiu a correr até ao carro, já preparada para os deixar, quando a outra rapariga se lhe chega perto e pergunta o que fazer, O Gonçalo e a Teresa são também amantes não percebeste, se tiveres algum juízo vens comigo também. Teresa foi despedir-se da sua neta , incumbida de dar o recado ao filho e ao amante que nunca mais veriam as filhas.

Na manhã seguinte, Gonçalo acordou e correu pelas escadinhas de madeira abaixo, Bom dia , e assim se deitou ao lado da sua amada, mãe do seu amigo, que por sua vez, estava com a sua mãe , ambos de lábios pregados.


terça-feira, 2 de julho de 2013

5:15


Oito da manhã e todos acordavam sonolentamente, entornando-se para cima das portas e caindo sobre as cadeiras de pele.  Bebericavam o leite dos cereais ,como se o conteúdo daquelas taças fosse veneno que, ao entrar em contacto com os seus lábios, lhes queimava a pele os fazia explodir .
Porém, Cacambo não. Permanecia ali sentado na berma da cama de verga envelhecida pelo tempo e pelas fortes pancadas que levava nas horas de brincadeira dos seus ditos irmãos. A sua têmpera obstruída  retraía-o  ; o seu olhar malévolo e taciturno mirava todo aquele cenário de estática agitação da sua família que o havia roubado do seu natural ninho. Sentia uma forte repulsa por todos aqueles seres que  tanto o bajulavam de sorrisos, como o repeliam por ser diferente. Cacambo agia não agindo de forma alguma , limitava-se a olhar para todos eles de cabeça baixa e corpo firme , surripiando os dentes amarelecidos uns contra os outros. Voltava-se e ia calado e amortecido de volta à sua cama de verga.
Todas as tarefas estavam já feitas e as bagagens prontas para as férias que aquela família tanto ansiava. Roupões de banho, camisolas de lã para o caso de estar frio, fartos casacos de pelo, calças detalhadamente engomadas, sapatos de pele e finalmente uns trapinhos constantemente costurados de Cacambo e umas sandálias de tecido rasgado, num saquinho à parte. Começaram a viagem naquele carro luxuoso, no qual estava reservado um lugar para Cacambo, onde os seus irmãozinhos colavam as pastilhas elásticas e se esqueciam de pacotes de todos os doces que ingeriam.  Abriu a janela e sentiu-se momentaneamente livre com toda aquela leve brisa a agredir-lhe o rosto e com todas aquelas árvores a ficarem para trás. Olhou em frente , admirando a beleza daquele caminho de alcatrão iluminado pelo Sol quente. Ficou uns extensos minutos a olhar em frente até ao horizonte daquela estrada a imaginar o que haveria para lá do invisível , se haveria liberdade, se haveria crianças como ele capazes de sorrir e chutar uma bola sem serem repreendidos , livres de sorrir sem serem esbofeteados, capazes de gostar de alguém.  O seu semblante assanhou-se e voltou para dentro do carro, onde nem dera conta de toda aquela festa entre os seus pais adotivos e os seus irmãos que ele tanto abominava.  Voavam papéis, erguiam-se gritos e sorrisos a congratular todas as novas agilidades idiotas dos meninos , mas Cacambo não. Estava ali ele sentado a observar o lado de fora, o lado onde seria livre e capaz de tudo.
Chegados da longa viagem, instalaram-se naquele casarão alugado por uma semana , governado por criados detalhadamente trajados ,com uma grande experiência de receção de hóspedes , por sinal. Cacambo dispensou toda aquela artimanha de boas maneiras e correu até a um quarto dos cinco que lá haviam. Assim, os seus pais instalaram-se num quarto, os seus dois pequenos irmãos cada um em seu quarto, sobrando um para os criados, ou melhor um buraco, onde haviam uns colchões devidamente colocados no chão e uma mesinha simples com um candeeiro tão antigo quanto as rochas que rodeavam aquela mansão.
Á tarde, antes do jantar, foram todos banhar-se á piscina á exceção de Cacambo que preferiu aventurar-se pela casa e descobrir tudo a que tinha direito. Arrastava-se pelas paredes e dobrava-se pelas portas e esquinas , de maneira a que não fosse visto por nenhum criado.  Tamanha ousadia permitiu-o descobrir um pequenino armário encostado a uma tela velha e já gasta , onde nele estava um pesado molho de chaves, todas elas de tamanhos e feitios cada um de sua nação, mas havia uma particularidade: Todas as chaves estavam assinaladas com símbolos, ao parecer de Cacambo, egípcios. Avançou pelo corredor da esquerda e subiu até ao andar de cima e foi aí que reparou que todas as portas tinham uma chapa de latão por baixo de cada maçaneta com símbolos iguais aos das chaves. Estranho, as portas lá de baixo não tinham nada disto. Pensou para si.  Abriu uma porta ,cujo símbolo da mesma era uma cobra invertida. Era como uma espécie de barracão integrado naquela casa luxuosa, mas só que aquele compartimento era revestido de madeira pobre com falhas e à espera de ser envernizada. Ao fundo havia uma grande janela. Aproximou-se. Não conseguiu conter a sua expressão de surpresa e admiração por todo aquele conjunto de árvores e flores. Todo aquele tom de verde e amarelo, com um descampado lá mais atrás era tudo perfeito . Ali poderei correr, saltar , gritar como nunca gritei, pensou. Na verdade, este nobre aventureiro nunca havia descoberto como seria gritar ou como seria a sua voz fora dos habituais murmúrios.  Cerrou mais o olhar e conseguiu alcançar o lago que estava lá mais adiante, com um pequeno barquito de madeira, talvez destinado a passeios pelo meio de todo aquele arvoredo exaustivo.  Verificou o que havia naquela escrivaninha poeirenta no outro lado e achou um pedaço de giz, um bloco com anotações já quase extintas pelas folhas comidas e uma lanterna que, estranhamente, estava intacta. Na gaveta de baixo apenas encontrou uma navalha. Decidiu conservá-la no seu bolso do colete que envergava todos os dias, assim como a lanterna e o bloco.
Ao descer as escadas , apareceu-lhe á frente um criado muito zangado com tamanho atrevimento , mas Cacambo desculpou-se de não ter conseguido localizar com precisão o quarto de banho. O criado encaminhou-o até lá e Cacambo fechou-se no lado de dentro e saiu pela janela até à parte de trás daquela mansão detalhadamente construída com madeira branca e janelas ornamentadas por breves esculturas .  Parou, olhou para cima e conseguiu identificar a janela do quarto-barracão e seguiu pelo meio das árvores e das flores. Ainda não tinha um plano traçado , mas queria fugir. Correu e finalmente conseguiu ter o seu primeiro contacto com a natureza. Os seus pais biológicos tinham morrido num ataque de bombistas dois meses após o seu nascimento, pelo que este pequeno órfão foi recolhido por uma família benfeitora e mais tarde adotada pela família com quem até então vivia, a única que conhecera, na verdade.  Eva a sua mãe adotiva era a única que , por vezes, lhe concedia uma vida de igualdade face aos seus filhos biológicos. Ele tinha ganho um enorme carinho por ela desde pequenito. Quando procurava abrigo, era no colo dela que ele o encontrava. 
Parou, como se tivesse sido travado por alguém e concluiu que não podia sair dali sem ela.  Regressou  , escolhendo o momento adequado em que ela sairia do quarto até ao quarto de banho para tomar o seu duche . Abordou-a e explicou-lhe a sua intenção de fugir com ela , deixando todos os outros para trás. Eva negou-o ao seu filho adotivo , escorraçando-o para um canto e fechando a porta do quarto de banho à chave.
Fulminando de ódio, Cacambo, esperou até ser noite. Sentou-se na mesa principal, mas apenas porque os criados podiam desconfiar de alguma marca de maus tratamentos , mas durante toda a refeição foi ignorado por todos, até mesmo por aquele criado que o havia apanhado nas escadas , não lhe servindo a sopa de abóbora a que todos tiveram direito.
Chegado o momento do digestivo, o seu pai adotivo recolheu-se até a um canto adornado por fartos sofás de tecido aveludado vermelho . Cacambo esgueirou-se pela porta de trás e sem pensar nem uma única vez , desenhou-lhe um traço escarlate no seu pescoço. O sangue jorrava agora para dentro do seu Whisky Irlandês , acabando por vazar todo no tapete desenhado em linhas simples .
Eva deitou cada um dos seus filhos nas suas camas e acolheu-se na sua. Cacambo aproveitou todo o reboliço dos criados na cozinha para atentar os seus irmãos. Puxou das cordas que prendiam os resguardos das cadeiras da mesa e saiu para o corredor em direção aos quartos das demais crianças.
Entrou e fez o serviço igual nos dois: Amarrou-os à cama , asfixiando-os com as almofadas até os pobres coitadinhos pararem de dar coices . Imediatamente a seguir, correu pelo descampado e seguiu no barquinho , ainda a aprender como manejá-lo com aqueles remos pesados. Usou a lanterna para iluminar o bloco e conseguiu decifrar um pedaço de um pequeno e breve mapa , onde localizava uma pradaria que tinha como nota adicional “governada pelos Serra”.
Cacambo ao chegar a essa pradaria, foi prontamente recolhido pelos escravos negros e atenciosamente tratado pelos Serra.
Descobriu o caminho para a felicidade, junto daqueles que verdadeiramente o amavam. Era agora um bravo rapaz, aventureiro e sabia agora o que era ser especial e amado por alguém e conhecia agora a força do seu grito. Ajudava os criados nas suas tarefas que considerava mais divertidas e foi-lhe concedido o direito de estudar, porque os Serra consideravam que Cacambo era demasiado inteligente para se dedicar à vida de escravo. Quanto a Eva, a tortura foi maior que a do seu marido esfaqueado e dos seus filhos asfixiados. Deparou-se às cinco e um quarto da manhã, ao amanhecer, com o seu marido caído no sofá , engolido pela poça do seu próprio sangue e viu os seus amados rebentos roxos e com rostos mortos e sisudos , estendidos na cama. 

quarta-feira, 26 de junho de 2013

Duas peças de um coração partido




Não conseguia dormir à noite. Estava acordado , meio confuso com tudo o que se passara. Ouvia o seu respirar a criar eco entre aquelas paredes ocas , brancas totalmente desprovidas de beleza e estética.
Ansiava  pela sua heroína que haveria de chegar e apresentar-se à sua janela e dizer-lhe que o amava, como um rouxinol que anima as tórridas noites de verão com o seu cantar de embalar , deliciando todos os seus ouvintes com tamanhos doces gorjeios .
Mas aqui está a história que ele não contou a ninguém:  Fora roubado, torturado, morto. Um crime perfeito de modo a extorquir o seu coração e todo o seu sentimento fora delineado, mas mesmo assim nada o derrubou. Apenas cinzas foram deixadas no chão e um sobrevivente delas renasceu, tornando-se um guerreiro com uma armadura feita de metal, onde não cabia mais nada para além dele e do seu orgulho e ódio. Um rapaz que teria que crescer mais rápido que todos os outros era agora um grande guerreiro forte e imponente, sem conseguir sentir mágoa ou medo.  Começou por brincar às marionetas na vida real, tratando todos como seu domínio pessoal, não mostrando a sua ferida que raspava o seu coração  . Colocou todas as suas defesas no seu mais pleno auge, ansiando por enfrentar todos , desbravando montes e corações, apunhalando árvores e costas, apedrejando águas e cabeças, matando insetos e pessoas. 
Nessa noite, sentiu-se atentado pela sua própria dureza , magoando-se a si mesmo. Sim, sentia agora mágoa como que pela primeira vez.  Porque lhe cantaria ela músicas de amor , mas sem o amor? Nunca teria sido necessário a tal prova de amar alguém entre eles, mas o laço quebrou-se, contudo a cantiga era sempre a mesma, não de uma forma natural, mas esforçada ,quase roubada de um outro refrão copiosamente cantado.  Porque insistia ele, então, em chamar-lhes músicas de amor, se não existia o Amor? Eram agora amantes corrompidos.
“Era uma vez um rapaz que perdeu o seu caminho à procura de alguém com quem brincar; Há uma rapariga ,cujas lágrimas lhe caem pela cara” , são estas as duas peças de um coração partido.

sábado, 25 de maio de 2013

Chamem-me Daniel


Chamem-me Daniel.
Desde há muito tempo que debato comigo mesmo a minha própria teoria sobre o desprezo , a solidão e a popularidade.  
Sou um estudante do ensino médio, bastante criativo e lutador. Quero fazer a diferença e fazer com que todos sejam unidos pela paz. A paz interior seria um bom começo , não acham? Eu penso assim.
Comecei por escrever umas linhas de tudo aquilo que gostaria de mudar no mundo, idealizei grandes hipóteses e sonhei grandes metas, mas tudo isso se concluiu num devaneio. Não queria de todo que essa minha desmedida vontade me fizesse abandonar a minha mãe.
Sou de uma pequena cidade, perdida algures no meio de pântanos e campos abastados. Sempre quis sair daqui e vingar no mundo da literatura. Sempre sonhei em ganhar um Nobel da Paz. Sempre quis entender todos , mesmo que nem todos me entendessem a mim , gostaria de ser recetivo a novos tipos de vida, de ideias que não transformassem esta vida selvagem no holocausto.
Ao querer tudo isto, todo este sucesso comum a todos , a minha saída desta pequenina cidade e grassar por todo o mundo , acabei perdendo tudo. Não por erro meu, de todo. Ou seria? Bom…agora também não posso fazer muito , sem ser o que faço agora que é escrever para o mundo dos mortos, aqui no jardim das tabuletas.
Foi horrível as chamadas que a minha mãe me fez, mesmo sabendo que eu havia morrido, só para ouvir a minha voz, através do atendedor de chamadas. Num dia cinzento, mas não chuvoso, abafado, onde a onda de calor e o negrume se faziam sentir cada vez mais à flor da pele, estava eu sentado naquele que era o meu género de escritório apenas mobilado com três secretárias de madeira reles e duas cadeiras de pele já gasta. Peguei nas folhas de uma jorrada só e saí, já farto de todos terem escrito aquelas coisas , apenas para gozarem com  o estúpido fracassado lá da escola.  Dirigi-me com relutância até ao carro e acabou. Senti , de repente, uma extrema onde de leveza , senti-me a voar. Olhei para baixo . O chão estava enterrado em todas aquelas folhas salpicadas pelas gotinhas de chuva que já caíam, o carro estava ali, parado à espera que o cadáver queimado que estava a seu lado o conduzisse, até àquela garagem poeirenta com cheiro a óleo.  Lembro-me perfeitamente…Usava uma camisinha muito simples branca aos largos quadrados cor de salmão, umas calças de ganga normais e uns ténis pretos. Ali estava eu, estendido no chão com o olhar cerrado ao mundo que  dele me havia expulsado.
Uns dias antes, tinha escrito uma pequenina história, um conto à minha avó, uma grande senhora por quem eu estimava um grande amor. Adoecida , ouviu-me atentamente. Estava deita numa simples caminha de hospital, com lençóis brancos de linho, serena a escutar o meu começo de leitura. Era uma vez um menino, um menino que voava… Esse começo é bom , mas precisa de ser melhorado meu amor-  Foram palavras da minha avó. Numa das suas tardes de delírio, confessou-me que eu era muito parecido com o seu neto. Porquê, perguntei eu. Porque ele tem um olhar triste como tu, respondeu ela. Na tarde seguinte, encontrei-a a bordar uma camisolinha para o seu neto, ou seja para mim. Contou-me que nunca percebeu porque é que o menino voava, mas que aguardava pacientemente que o seu neto a visitasse novamente a contar-lhe o porquê do menino voar.
Ele voou, eu voei. Por cima do meu próprio corpo, por cima da minha própria vida. O porquê minha avó…intuição talvez de que isto viria a acontecer, de que partiria sem te trazer comigo.
Um facto : Todos passaram a recordar-me com triste alegria e compaixão e passei então a ser popular, não pelo fracassado que se refugia na escrita, mas por aquele que morreu no parque de estacionamento da escola atingido por um raio. Bom, não deixa de ser patético, mas ao menos todos se lembravam daquele que era Daniel. 

terça-feira, 30 de abril de 2013

6º Andar

Era sempre que ele dizia que a amava que ela se arrepiava. Sempre que ele se julgava diferente , mais feliz , cheio de vivas chamas que lhe inundam o sentimento de  histeria e excitação . Sempre assim foi , para ele, não para ela . Aquela felicidade incomodava-a . Não por não o amar, na verdade amava-o, mas não queria. Foi um erro. Um erro ordinário como fuga ao real resplandecente , refugiando-se no que tudo o coração sente.
Servo das horas vagas, dos momentos pendentes , usado pelas sombras, domado pelos sons melódicos que saíam das suas cordas vocais doces e arrastadas.
Temia por ele, pelo seu bem-estar , pela sua possível melancolia atroz. Ah , ela parecia verosímil! Ela parecia um raio de sol num dia chuvoso , enegrecido pelo espesso manto de vapor escuro e ameaçador.
Era noite de trovoada e estavam ambos deitados nas suas camas a pensar um no outro. Imaginaram como seria a primeira vez que se veriam. Como seria o primeiro beijo? O primeiro abraço, como seria? Apertado? Como seria sentirem o toque pecador de uma mente ávida de desejo ardente , do seu odor sexual que sabia como sol nascente?
Mas o que será melhor? A farsa ou a vítima? ambos sofrem.... Nunca se saberá, presumo.
Ele, esperançoso por algo que decerto não aconteceria. Ela, esperançosa por algo que não iria acontecer.
O nexo enchia o vazio . Não havia nada mais que palavras detalhadamente desenhadas, frases copiosamente pintadas e tudo encheu a tela, que acabou por ficar em branco.
E quando a canção de ambos passou na rádio , o seu sentido parecia apagar-se, os ponteiros do relógio paravam , vendo o nexo enchendo o vazio, escutando a música que estava a falar, no refrão . E tudo estava numa simples canção.
E nos ponteiros do relógio , quando o seu sentido se parecia apagar, um olhar se fechou no sexto andar.

sexta-feira, 5 de abril de 2013

Era uma vez Ele


Era uma vez Ele. Um rapaz à moda da Antiga Grécia. Mente sã , corpo são. Um jovem, ainda pequeno. Cabia-lhe o Mundo no olhar . O sorriso marcava-lhe o rosto.
O que anatomicamente saiu perfeito , o que o campo da ciência dominou, desmoronou um dia.  A Mancha levou-o. Não. Não o levou, mais ainda hoje o pinta de negro. Uma dura cicatriz ainda aberta na sua mente , tomou conta dele desde muito novo. Não posso dizer nem o nome nem a causa. Esses estão guardados no meu coração. Mas sentai-vos. Contar-vos-ei de onde veio a minha Inspiração . Antes, uma breve introdução à minha Inspiração . Surge com I grande , porque se trata de uma grande personagem…épica. Só não se chama Inspiração, porque Deus assim o não quis. Mas transmite-a aos mais hábeis de sua mente. A Amabilidade, a Generosidade, a Honestidade , Humildade , Lealdade, Simplicidade… são Ele. Mas tanta é a extravagância que em mim transmite!
Conheci a minha Inspiração In Medias Res . Já o acontecimento ia a meio e vai assim por diante dissipando a Mancha. Via-se asfixiado , Ele , a minha Inspiração. Sempre foi inteligente , culto , estratégico. A estratégia de facto cruza-lhe o olhar , como que se fundisse as entrelinhas do universo , conseguindo esquemas perfeitos. O futuro prometia-lhe algo de grande  e ele centrava-se no presente. Longas foram as viagens que fez, os caminhos que percorreu , deles sempre retirando algum ensinamento para a vida. Aprendeu desde muito cedo como crescer. Experienciou logo bastante os dissabores de uma vida amargamente auspiciosa , efeito resultante da Mancha.
O seu Espírito , por intermediários, sempre esteve ligado ao Oculto , ao Sobrenatural.
Entre todas as montanhas que escalou , encontrou um dia o seu fiel companheiro de todas as horas , cujo nome também não irei revelar. Cândido , não de nome, mas de aspeto . O seu melífluo ar e a sua atonal cor conferem-lhe a Candura de um fiel companheiro, como já eram famosos os das Picarescas lá no tempo do Barroco.
A luta constante pela vida , pelo novo sorriso da nova época que, por tanto Ele anseia, por fim começou a dar os primeiros gorjeios , no entanto, não tem uma filosofia otimista como Leibniz. Já este no seu século XVIII cantava o mundo Cândido, que o não era. Dizia que um Deus havia criado um mundo , de modo a ser o melhor dos mundos possível, não perfeito por conseguinte.  Já assim Pangloss, de Voltaire , o afirmava também. Já a personificação da minha Inspiração assim o não é. Pensa. Pensa muito criando Manchas . Mas eu acredito e, reitero que acredito, que o positivo lhe trará surpresas , porque no mio do céu coberto das nuvens mais negras,  há sempre um raio de Sol que logo coloca término à tempestade. 

sexta-feira, 22 de março de 2013

Carta de um suicídio


Ele, só ele restava. Aquele espaço vazio , cheio de silêncio e a transbordar de nevoeiro. Seria, no entanto só ele. Seria só ele se seu pensamento não habitasse sua alma, assombrando-lhe o coração e fazendo as suas veias rebentar de tensão.
Poderia estar quieto. Mas não esteve. Deslizou sobre aquele mar empastado de sangue, objetos cortantes e maus presságios. Mentes vingadoras de um passado idílico, onde o belo estaria corrompido pelo fantástico Maquiavélico. Passado esse, que se marca no presente. Passado que o marca , que o faz relembrar cada toque amargamente sedutor, cada palavra desdenhosamente melíflua, cada gesto caridosamente feito de forma errática. 
A sua ingenuidade que hoje controla o Mundo. O seu Mundo, quase como se o próprio não se apercebesse de que o fazia. O poder era concentrado nas suas mãos de forma ainda desconhecida, representado pelo esquecimento de um Ser, outrora não ser, mas desejo de não o ser.  Calafrios. Suores. Arrepios. Medo, Terror. Repugnância. Nojo. Fascínio . Isso, fascínio. Aterrorizante fascínio foi tudo o que lhe restou.
Hoje , desde há algum tempo atrás, é aquele Ser que não quer ser. Que quer cortar a linha do destino, a infâmia  que cruza a vida com o destino. Cruzamento curioso esse…
Que Rei quer destronar-se a si próprio? Há, sim há Reis desses. Cada um é Rei do seu trono. Cada Rei se humilha perante o seu público , se rebaixa perante as suas dúvidas. Mas há aqueles que se destronam de imediato. É  a teoria do efeito-causa . Morte por Dissabor. Eufemismo este, dissabor…
Salvação de uma vida estúpida que cheira amargamente esse abismo ordinário que é nada mais, nada menos que Vida.  O que se sonhou, nunca antes tivera sido sonhado. O vivido o não fosse. 

quarta-feira, 13 de março de 2013

Última lágrima

Os meus sonhos sombra
e o meu coração partido
renascem da penumbra,
onde outrora estivera eu perdido.


Águas de paz,
mares de maresia.
Aqui , meu corpo jaz
ludibriando alegria.


Mãos dadas,
promessas seladas,
em vão prometidas
na alma se tornaram sofridas.


Corações fechados,
olhos quebrados
ao desencontro de mares amados
cujo aroma e sabor jazem mortos.