Era uma tarde invernosa. O frio sentia-se na ponta
avermelhada do nariz de Jayden. Ia apressado para a escola, como todos os dias
úteis.
A sua rotina matinal era bastante atribulada.
Acordava sempre a cambalear, a sua higiene pessoal consumia-lhe mais de metade
do tempo que dispunha, vestia-se sentado, arrastava-se até à porta e lá saía ,
pondo-se a caminho do seu dever enquanto estudante.
Ia sempre emaranhado com a roupa e a mochila, não
era rapaz de se compôr. Chegou à escola envolvido na sua música , profundamente
desligado de tudo o que lhe soava exterior. O sol enfraquecia-se com o poder do
negrume das nuvens. Caminhando, lá ia Jayden em direção à sua sala, onde iria
ter aquela aula de Fonética , coisa que ele não sabia ao certo para que lhe
serviria. Desgastado pela sua preguiça, ou mesmo falta de vontade, deixou-se
ficar junto à porta ,esperando que chegasse a professora. Notou que havia novos
colegas, pelo menos estavam ali de frente à entrada da sala com olhos de
interrogação. Olhavam para o teto como quem não quer a coisa, mas lá se iam
chegando àqueles que, notavelmente, já conheciam a roda viva que era aquela
aula.
Hayden chegou-se cada vez mais perto e Jayden já
desconfiando que aquela cara nova lhe iria perguntar algo, quis escapar-se para
dentro da sala. Sem êxito. Hayden tocou-lhe no ombro antes que este conseguisse
sequer mexer uma perna . Olá, sou novo aqui …também vais para a aula de
fonética? Sim, vou. E as aulas como são? Desesperantes.
Hayden torceu o seu semblante , notando alguma
arrogância, ou até mesmo um desvario nas palavras de Jayden. Preferiu não
indagar em excesso e calou-se. A professora chegou e todos entraram. Jayden
reparou que o seu lugar mais atrás na sala já estava preenchido. Nunca gostou
de ter alguém por trás , isso constrangia-o e ver o seu lugar por estimação
ocupado, encolerizou-o. Reduziu a raiva a cinzas e sentou-se num canto. Hayden
entrou e ficou a olhar tentando encontrar uma cadeira vaga. Identificou Jayden
sentado no canto direito e sentou-se a seu lado. Passou-se a aula e todos
saíram. Este dia foi assim, nenhuma novidade em especial para Jayden.
A sua vida
era como uma caderneta de cromos colecionáveis, cujos autocolantes ainda não tinham sido procurados. Jayden era
assim, despreocupado com a vida, seguia sem rumo, caminhava sem destino…tudo
lhe passava ao lado, não se apercebia nem se envolvia com nada nem ninguém.
Conversas em casa eram poucas. Os seus pais estavam grande parte do dia a
trabalhar e ele, sozinho em casa, mais
só se queria ver. Jantava e deixava tudo o que eram pratos, copos , canecas,
talheres e guardanapos espalhados pela mesa. Ia até à sala para ver uma das
suas séries, preferia a dos mortos vivos. Talvez porque já estavam mortos e um
morto estará sempre só. Bocejava ao fim de cada episódio e ia deitar-se. A
rotina matinal repetia-se.
Dois dias depois, Jayden chegou à porta da sala de
Fonética , entrou , sentou-se e aguardou a chegada da professora Sonya, todavia
antes da professora chegou Hayden. Sentou-se novamente a seu lado. No outro dia
não te disse, chamo-me Hayden. Olá, sou o Jayden. Temos nomes parecidos, só
muda uma letra, Reparou Hayden. Jayden calou-se. Sonya, a foneticista chegou e
não se demorou a iniciar a aula. Era uma aula expositiva , as luzes estavam
apagadas e apenas queria que os alunos vissem o vídeo que lhes tinha trazido.
Isto é sempre assim? Sim , quase todas as aulas são deste género . Foram
trocadas mais impressões sobre a aula de Fonética. Hayden sentiu uma maior
entrega por parte de Jayden, no entanto ,Jayden pareceu-lhe ainda um pouco
reservado; misterioso.
Jayden seguia o caminho para casa, envolto na sua
música country , e ia a pensar em
como tinha sido estranho ter falado tanto com uma pessoa. Estranho, mas
agradável. Sentia que nunca tivera ouvido a sua voz no seu pleno timbre, até
àquele dia. Chegou a casa e deu por si a
olhar em vão para as paredes como se estivesse a descobrir as suas texturas ,
mas estava mesmo só a pensar naquele dia.
Durante três semanas, dois dias por semana, Jayden e
Hayden se encontravam à porta da sala de Fonética. Jayden , nessas semanas, já
se emperiquitava mais, usando umas linhas suaves e uns cortes mais juvenis,
deixando o clássico de lado. Sabia-lhe mesmo bem ter alguém com quem conversar
no meio de todo aquela massa anónima. Partilhava agora momentos da sua vida,
episódios engraçados, episódios tristes, pormenores da sua vida…Hayden fazia o
mesmo. Descobriram que eram os dois muito próximos, no que toca a ambições,
pensamentos, ideais e percursos de vida. Sentiam-se verdadeiramente amigos.
Na quarta semana , à porta da sala de Fonética,
Jayden deixou-se ficar à porta, como sempre fazia, à espera de Hayden. Era o
dia de estabelecer com a professora Sonya os grupos de trabalho e os temas e ,
por isso, Jayden estava um pouco perdido nos seus pensamentos.
Sonya chegou e Jayden sentou-se na mesa em que ele,
juntamente com Hayden, se costumava sentar. A aula começou normalmente e Jayden sentia
agora um chamado nervoso miudinho. Olhava para a porta a fim de estar presente
, na sua visão, o momento da chegada do seu amigo Hayden. Mas ele não chegou.
Olhou em torno da sala de aula, para os seus colegas, e ele sentiu uma aura estranha
na sala. Sentia que todos olhavam para si com um ar de troça, até a própria
professora, quando cruzava o olhar dela com o dele, emitia uma onda trocista.
Resolveu não ligar, mas ficou incomodado.
No final da aula, dirigiu-se à secretária da foneticista e disse O meu
grupo é formado por mim e pelo Hayden, queremos trabalhar sobre a produção
oral. Desculpa?! O quê? Está alguma coisa errada, professora? Não há nenhum
Hayden nesta turma, Jayden. Há sim , ele senta-se mesmo ao meu lado em todas as
aulas, não se lembra? Lembro. Então, qual é o problema? Lembro-me que tens
passado as aulas a falar com alguém ao teu lado…É o Hayden professora. Não ,
Jayden, ninguém nunca se senta ao teu lado, sempre estiveste sentado naquele
canto sozinho.
Jayden saiu a correr da aula. Desta vez foi a correr
até casa, sem música, só ele, a corrida e o seu pensamento. Ele tinha a certeza
que existia o Hayden. Hayden….Hayden, gritou. A precipitação começou e
encharcou Jayden da cabeça aos pés. Chegou a casa e deixou-se cair à entrada.
Ficou meio deitado à porta e ficou ali a observar os carros a chapinhar nas
poças a alta velocidade, as folhas a entrarem no círculo de vento e a serem
arrastadas para lado nenhum e ao mesmo tempo para todo o lado. Assim , neste
vai-não vai, estava Jayden e os seus pensamentos.
Jayden! Jayden! … Jayden ouviu gritarem o seu nome.
Aquela voz…aquela voz soava-lhe familiar. Hayden?! Sim , sou eu. A chuva não o
permitia ter a certeza, mas a voz era inconfundível. Jayden levantou-se ,
correu através daquela corrente de chuva e vento e quando a ultrapassou não viu
ninguém. Só restava uma estrada vazia.