terça-feira, 30 de abril de 2013

6º Andar

Era sempre que ele dizia que a amava que ela se arrepiava. Sempre que ele se julgava diferente , mais feliz , cheio de vivas chamas que lhe inundam o sentimento de  histeria e excitação . Sempre assim foi , para ele, não para ela . Aquela felicidade incomodava-a . Não por não o amar, na verdade amava-o, mas não queria. Foi um erro. Um erro ordinário como fuga ao real resplandecente , refugiando-se no que tudo o coração sente.
Servo das horas vagas, dos momentos pendentes , usado pelas sombras, domado pelos sons melódicos que saíam das suas cordas vocais doces e arrastadas.
Temia por ele, pelo seu bem-estar , pela sua possível melancolia atroz. Ah , ela parecia verosímil! Ela parecia um raio de sol num dia chuvoso , enegrecido pelo espesso manto de vapor escuro e ameaçador.
Era noite de trovoada e estavam ambos deitados nas suas camas a pensar um no outro. Imaginaram como seria a primeira vez que se veriam. Como seria o primeiro beijo? O primeiro abraço, como seria? Apertado? Como seria sentirem o toque pecador de uma mente ávida de desejo ardente , do seu odor sexual que sabia como sol nascente?
Mas o que será melhor? A farsa ou a vítima? ambos sofrem.... Nunca se saberá, presumo.
Ele, esperançoso por algo que decerto não aconteceria. Ela, esperançosa por algo que não iria acontecer.
O nexo enchia o vazio . Não havia nada mais que palavras detalhadamente desenhadas, frases copiosamente pintadas e tudo encheu a tela, que acabou por ficar em branco.
E quando a canção de ambos passou na rádio , o seu sentido parecia apagar-se, os ponteiros do relógio paravam , vendo o nexo enchendo o vazio, escutando a música que estava a falar, no refrão . E tudo estava numa simples canção.
E nos ponteiros do relógio , quando o seu sentido se parecia apagar, um olhar se fechou no sexto andar.

Sem comentários:

Enviar um comentário