As rochas eram agitadas pela fúria do vento que ondulava o
mar repetidamente. A água , limpa que estava, brilhava com os raios solarengos
da manhã de verão encalorado e húmido. Mais tarde, a brisa já soprava de leve
,traçando pequenas linhas de movimento nas folhas das árvores e o mar já
estaria calmo por essa hora. Mais além, lá no cimo da falésia, no alpendre
estava Teresa a bebericar o seu chá habitual das tardes na companhia da sua
melhor amiga , da sua confidente e companheira desde o tempo em que se lembravam de existirem,
Alexandra.
Aquelas escadas intermináveis de madeira ,que percorriam a
falésia abaixo até alcançar a praia, haviam sido o cenário das suas melhores
brincadeiras , foram o elo de ligação entre o seu porto de abrigo e aquele que
seria o local de todas as aventuras e desventuras, de todos os sorrisos e
lágrimas que até então se mantinham partilhados. Oh que linda infância! Ambas
lindas, de rosto puro , neles cravavam os olhos azuis e os cabelos loiros, aqueles
lábios densos e clarinhos. Ainda hoje assim é, passados trinta e oito
anos.
Alexandra é agora viúva. O seu marido morreu de acidente de
carro, lamentamos a sua perda, Foram estas as palavras dos agentes da
autoridade à porta de sua casa. Gonçalo, o seu filho, chorou por largos anos a
morte de seu pai que havia morrido numa viagem há tanto prometida para lhe
comprar um carrinho telecomandado . A culpa pregava-se no seu coração ,já
Alexandra é como atirar barro à parede, o sentimento de perda foi nulo, nenhum,
escasso, ponto. Teresa, por outro lado, mantinha o seu casamento de sonho com
Artur, cujo fruto era David. Encontrei um trabalho , A sério, que bom, Sim,
quero que venhas comigo. Teresa mostrou-se reticente em acompanhar o seu marido
para o emprego que este há tanto ambicionava. Seria necessário mudar de casa ,
mudar de vida, de rotina. Os seus dias eram presenciados pela sua
inqualificável amiga Alexandra. Juntas, na companhia de seus filhos, bebiam
vinho verde e chá todas as tardes no alpendre da casa de Teresa, observavam o
mar e escutavam música com muita atenção. As batidas do coração mantinham-se
quentes nessas horas, o sangue corria com prazer. Não posso, É por causa dela,
não queres deixar a Alexandra e por isso preferes abandonar-me a mim. Assim,
Artur, partiu.
Teresa, Alexandra, Gonçalo e David ficaram no paraíso, nas
suas casas, no seu convívio agora , que só não se estendia até à hora de
dormir. Elas melhores amigas, eles melhores amigos, o conjunto perfeito de
amizade , lealdade e honestidade. Numa certa noite, o luar estava mais claro
que o normal, o mar não emitia qualquer ruído , as escadas não rangiam , as árvores não mexiam, no entanto os
lençóis de Teresa ondulavam com garra. Deixara cair-se pela tormenta do pecado
e ter-se-á entregue ás mãos do filho da sua amiga, amigo do seu filho que
conhecia desde bebé , Gonçalo. Amavam-se desmesuradamente sem qualquer pudor e
inibição. Escondiam-no do mundo exterior há muito até que os seus corações , um
perante o outro, se revelaram no eterno beijo da magnificência. A noite foi
longa para Teresa e Gonçalo, os corpos estavam agora suados e cansados, o ritmo
cardíaco ainda se mantinha acelerado, mas ambos não derrotaram o sono e caíram
inertes nos braços um do outro. Do outro lado, David , encontrou a porta do
inferno e quando a abriu só viu nada mais que claridade. Era já dia e o sol
fazia notar-se na cara da sua mãe, que estranhamente estava adormecida ainda na
cama. Mal o seu campo de visão se alargou e observou Gonçalo , correu. Eram
gritos, eram facas que da boca dele saíam
pedindo auxílio a Alexandra. Um ombro para chorar, uma pele para tocar,
uns lábios onde trincar, uma face para beijar. Não podemos fazer isto . não
está correto, Só estaríamos a fazer o que o teu filho e a minha mãe fizeram do
outro lado noite fora. A notícia caiu em forma de bomba . Teresa e Gonçalo
mantinham a sua relação nas sombras da noite e nessas tardes não houveram chás,
vinhos ou danças. As visitas à praia eram raras e nunca em conjunto, apenas lá
era o ponto de encontro. Alexandra e David resistiram apenas três dias, ao fim
dessas noites envolveram-se no pecado moral. David penetrou-a por amá-la, por
amar o seu amigo, por amar a sua mãe e por odiá-los a todos eles. A força
manteve-se inesgotável até ao ponto de colisão de todas as emoções e sensações
e o costume não se desfazendo, adormeceram.
Mais tarde, as relações eram agora claras, as duas amigas tinham um caso
amoroso com os filhos uma da outra e os amigos partilhavam as suas mães um com
o outro. O medo profundo do envelhecimento aterrorizou estas duas , elas não
caminham de certo para novas e as suas figuras vão por certo ruir. Foram anos
de amor, de sexo, de amor e de sexo entre Teresa e Gonçalo e de Alexandra e
David e as tardes foram sempre as mesmas , praia, vinho, música, chá, amor,
beijos ,sexo.
Vou para França um mês, vou
estrear uma peça de teatro e volto assim que puder. Alexandra não podia
suportar a dor de perder o seu amado. A sua insegurança dizia-lhe que não
lutasse mais , porque certamente alguma galdéria mais nova o cobiçaria e o
enrolaria nos seus lençóis . No mês seguinte , David e Lorena chegaram.
Alexandra não quis saber a história e fugiu para casa. Posto este romance
inédito Teresa e Gonçalo decidiram terminar com esta fase pecadora e tentadora.
Gonçalo culpou o seu amigo por arruinar a sua vida e a de sua mãe, tudo parecia
sem sentido e quebrado. A notícia de que David e Lorena iriam ter uma filha
estava já espalhada e as relações dos antigos amantes eram já amenas, dentro do
género . Aquela árvore dos amantes e eternos amigos havia secado , não haveria
volta a dar. Gonçalo, forçosamente esbarrou com a primeira rapariga que
encontrou e engravidou-a de igual modo. Os dois amigos tiveram as duas filhas
em datas muito próximas e as suas mulheres davam-se bem entre si e com as suas
mães e antigas amantes, facto, este último, que ambas desconheciam. Encantadas
com as suas netas, Teresa e Alexandra não corrompiam o manto de invisibilidade
daquelas relações anteriores e preferiram passar uma borracha no assunto, do
mesmo modo que a água e o azeite se juntam.
Era agora noite e todos estavam exaustos da praia , no
entanto o jantar corria a grande velocidade. Estou cansada, vou dormir.
Alexandra, assim saiu. David saiu. Gonçalo apanhou-os numa escandalosa vaga de
sexo selvagem. Alexandra ruborizada com o facto de ter sido apanhada pelo seu
filho com o seu amigo, gritou. Os gritos de Gonçalo, impulsivos e medonhos,
ouviram-se por toda a propriedade e todos foram ao encontro de tamanho alarido. Gonçalo estava revoltado, havia acabado a sua
relação com a sua amada e afinal estes dois bandidos andavam pelos cantos a
fornicar. Não pode ser David, tu e a Alexandra, não…, Lorena pegou na filha e
saiu a correr até ao carro, já preparada para os deixar, quando a outra
rapariga se lhe chega perto e pergunta o que fazer, O Gonçalo e a Teresa são
também amantes não percebeste, se tiveres algum juízo vens comigo também.
Teresa foi despedir-se da sua neta , incumbida de dar o recado ao filho e ao
amante que nunca mais veriam as filhas.
Na manhã seguinte, Gonçalo acordou e correu pelas escadinhas
de madeira abaixo, Bom dia , e assim se deitou ao lado da sua amada, mãe do seu
amigo, que por sua vez, estava com a sua mãe , ambos de lábios pregados.
