Chamem-me Daniel.
Desde há muito tempo que
debato comigo mesmo a minha própria teoria sobre o desprezo , a solidão e a
popularidade.
Sou um estudante do
ensino médio, bastante criativo e lutador. Quero fazer a diferença e fazer com
que todos sejam unidos pela paz. A paz interior seria um bom começo , não
acham? Eu penso assim.
Comecei por escrever umas
linhas de tudo aquilo que gostaria de mudar no mundo, idealizei grandes
hipóteses e sonhei grandes metas, mas tudo isso se concluiu num devaneio. Não
queria de todo que essa minha desmedida vontade me fizesse abandonar a minha
mãe.
Sou de uma pequena
cidade, perdida algures no meio de pântanos e campos abastados. Sempre quis
sair daqui e vingar no mundo da literatura. Sempre sonhei em ganhar um Nobel da
Paz. Sempre quis entender todos , mesmo que nem todos me entendessem a mim ,
gostaria de ser recetivo a novos tipos de vida, de ideias que não transformassem
esta vida selvagem no holocausto.
Ao querer tudo isto, todo
este sucesso comum a todos , a minha saída desta pequenina cidade e grassar por
todo o mundo , acabei perdendo tudo. Não por erro meu, de todo. Ou seria? Bom…agora
também não posso fazer muito , sem ser o que faço agora que é escrever para o
mundo dos mortos, aqui no jardim das tabuletas.
Foi horrível as chamadas
que a minha mãe me fez, mesmo sabendo que eu havia morrido, só para ouvir a
minha voz, através do atendedor de chamadas. Num dia cinzento, mas não chuvoso,
abafado, onde a onda de calor e o negrume se faziam sentir cada vez mais à flor
da pele, estava eu sentado naquele que era o meu género de escritório apenas
mobilado com três secretárias de madeira reles e duas cadeiras de pele já
gasta. Peguei nas folhas de uma jorrada só e saí, já farto de todos terem
escrito aquelas coisas , apenas para gozarem com o estúpido fracassado lá da escola. Dirigi-me com relutância até ao carro e
acabou. Senti , de repente, uma extrema onde de leveza , senti-me a voar. Olhei
para baixo . O chão estava enterrado em todas aquelas folhas salpicadas pelas gotinhas
de chuva que já caíam, o carro estava ali, parado à espera que o cadáver
queimado que estava a seu lado o conduzisse, até àquela garagem poeirenta com
cheiro a óleo. Lembro-me perfeitamente…Usava
uma camisinha muito simples branca aos largos quadrados cor de salmão, umas
calças de ganga normais e uns ténis pretos. Ali estava eu, estendido no chão
com o olhar cerrado ao mundo que dele me
havia expulsado.
Uns dias antes, tinha
escrito uma pequenina história, um conto à minha avó, uma grande senhora por
quem eu estimava um grande amor. Adoecida , ouviu-me atentamente. Estava deita
numa simples caminha de hospital, com lençóis brancos de linho, serena a
escutar o meu começo de leitura. Era uma
vez um menino, um menino que voava… Esse começo é bom , mas precisa de ser
melhorado meu amor- Foram palavras da
minha avó. Numa das suas tardes de delírio, confessou-me que eu era muito
parecido com o seu neto. Porquê, perguntei eu. Porque ele tem um olhar triste
como tu, respondeu ela. Na tarde seguinte, encontrei-a a bordar uma camisolinha
para o seu neto, ou seja para mim. Contou-me que nunca percebeu porque é que o
menino voava, mas que aguardava pacientemente que o seu neto a visitasse
novamente a contar-lhe o porquê do menino voar.
Ele voou, eu voei. Por
cima do meu próprio corpo, por cima da minha própria vida. O porquê minha avó…intuição
talvez de que isto viria a acontecer, de que partiria sem te trazer comigo.
Um facto : Todos passaram
a recordar-me com triste alegria e compaixão e passei então a ser popular, não
pelo fracassado que se refugia na escrita, mas por aquele que morreu no parque
de estacionamento da escola atingido por um raio. Bom, não deixa de ser
patético, mas ao menos todos se lembravam daquele que era Daniel.