sábado, 25 de maio de 2013

Chamem-me Daniel


Chamem-me Daniel.
Desde há muito tempo que debato comigo mesmo a minha própria teoria sobre o desprezo , a solidão e a popularidade.  
Sou um estudante do ensino médio, bastante criativo e lutador. Quero fazer a diferença e fazer com que todos sejam unidos pela paz. A paz interior seria um bom começo , não acham? Eu penso assim.
Comecei por escrever umas linhas de tudo aquilo que gostaria de mudar no mundo, idealizei grandes hipóteses e sonhei grandes metas, mas tudo isso se concluiu num devaneio. Não queria de todo que essa minha desmedida vontade me fizesse abandonar a minha mãe.
Sou de uma pequena cidade, perdida algures no meio de pântanos e campos abastados. Sempre quis sair daqui e vingar no mundo da literatura. Sempre sonhei em ganhar um Nobel da Paz. Sempre quis entender todos , mesmo que nem todos me entendessem a mim , gostaria de ser recetivo a novos tipos de vida, de ideias que não transformassem esta vida selvagem no holocausto.
Ao querer tudo isto, todo este sucesso comum a todos , a minha saída desta pequenina cidade e grassar por todo o mundo , acabei perdendo tudo. Não por erro meu, de todo. Ou seria? Bom…agora também não posso fazer muito , sem ser o que faço agora que é escrever para o mundo dos mortos, aqui no jardim das tabuletas.
Foi horrível as chamadas que a minha mãe me fez, mesmo sabendo que eu havia morrido, só para ouvir a minha voz, através do atendedor de chamadas. Num dia cinzento, mas não chuvoso, abafado, onde a onda de calor e o negrume se faziam sentir cada vez mais à flor da pele, estava eu sentado naquele que era o meu género de escritório apenas mobilado com três secretárias de madeira reles e duas cadeiras de pele já gasta. Peguei nas folhas de uma jorrada só e saí, já farto de todos terem escrito aquelas coisas , apenas para gozarem com  o estúpido fracassado lá da escola.  Dirigi-me com relutância até ao carro e acabou. Senti , de repente, uma extrema onde de leveza , senti-me a voar. Olhei para baixo . O chão estava enterrado em todas aquelas folhas salpicadas pelas gotinhas de chuva que já caíam, o carro estava ali, parado à espera que o cadáver queimado que estava a seu lado o conduzisse, até àquela garagem poeirenta com cheiro a óleo.  Lembro-me perfeitamente…Usava uma camisinha muito simples branca aos largos quadrados cor de salmão, umas calças de ganga normais e uns ténis pretos. Ali estava eu, estendido no chão com o olhar cerrado ao mundo que  dele me havia expulsado.
Uns dias antes, tinha escrito uma pequenina história, um conto à minha avó, uma grande senhora por quem eu estimava um grande amor. Adoecida , ouviu-me atentamente. Estava deita numa simples caminha de hospital, com lençóis brancos de linho, serena a escutar o meu começo de leitura. Era uma vez um menino, um menino que voava… Esse começo é bom , mas precisa de ser melhorado meu amor-  Foram palavras da minha avó. Numa das suas tardes de delírio, confessou-me que eu era muito parecido com o seu neto. Porquê, perguntei eu. Porque ele tem um olhar triste como tu, respondeu ela. Na tarde seguinte, encontrei-a a bordar uma camisolinha para o seu neto, ou seja para mim. Contou-me que nunca percebeu porque é que o menino voava, mas que aguardava pacientemente que o seu neto a visitasse novamente a contar-lhe o porquê do menino voar.
Ele voou, eu voei. Por cima do meu próprio corpo, por cima da minha própria vida. O porquê minha avó…intuição talvez de que isto viria a acontecer, de que partiria sem te trazer comigo.
Um facto : Todos passaram a recordar-me com triste alegria e compaixão e passei então a ser popular, não pelo fracassado que se refugia na escrita, mas por aquele que morreu no parque de estacionamento da escola atingido por um raio. Bom, não deixa de ser patético, mas ao menos todos se lembravam daquele que era Daniel. 

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