segunda-feira, 2 de junho de 2014

O Lago dos Abutres




Era uma primavera chuvosa. Estávamos em maio, as gotas incessantes da chuva tocavam as folhas das árvores e, por elas, deslizavam, caindo gloriosamente na terra. O sol brilhava por entre as densas nuvens e a brisa estava gelada e amena. O pátio estava encharcado, as plantas revolvidas no seu recear da tempestade, o baloiço cambaleava sem ninguém que o usasse, o lago estava revoltado, os peixes em busca do seu canto mais fundo, a casa vazia.
Alexander estava na escola. Tinha-se esquecido do chapéu de chuva, mas o bom era que a chuva tinha dado uma chance de ele chegar a casa limpinho. Saiu a correr até casa, sem se ter despedido dos amigos. Andava distante. Toda a sua vida tem sido um mar distante. Habituou-se a ser e a estar distante. Ninguém lhe dera margem de manobra e sempre que se aproximava de alguém, esse alguém tratava de o iludir, criar-lhe falsas esperanças e depois atacar pelas costas.
Chegou a casa aturdido pelo vento fresco que lhe gelou a cara. Entrou, deitou a mala por cima do sofá e subiu as escadas até ao quarto. Lá, tirou a roupa e aconchegou-se na cama. Olhava pela janela e tentava encontrar o máximo de ramos das árvores possíveis. Levantou-se para poder observar melhor. Aquela paisagem confortava-o e ao mesmo tempo entristecia-o e amedrontava-o. Não havia nada para além de um bosque e um lago. Via-se um pouco da cidade lá ao fundo, muito ao fundo. As outras casas surgiam no canto do olho, também elas ao fundo.
A casa era verde, um verde seco, com apenas um banco já sem cor, julgando eu que aquela não seja a sua cor natural, deteriorado pelos bons anos que devia ter. As escadas para o alpendre estavam amolecidas com a chuva, prestes a ceder. O telhado já se queixava da falta de telhas e a chaminé implorava por uma limpeza.
Moveu-se um pouco atrás, alcançou o roupão, que estava preso no puxador da porta do roupeiro e cobriu-se com ele. Voltou à janela e ao seu mundo. Esteve assim, em pé a observar a paisagem, durante três horas e quarenta e dois minutos. Fora interrompido por um barulho de um motor. Foi até à cozinha e viu o carro dos pais estacionado pela janela. Foi até à entrada da porta e viu vultos  através dos vidros foscos e tapados pela leve cortina branca, antiga e amarelecida pelo tempo.
- Olá
A mãe afagou-o com a mão e não disse mais nada, revolvendo-se na cozinha, preparando-se para cozinhar. O homem que estava com ela há mais de dez anos e os seus dois irmãos, mais novos, entraram de seguida. Nenhum deles o cumprimentou, tornaram-no invisível.
De facto, Alexander sempre havia sido invisível e quando o não era desembrulhava presentes envenenados e quem sofria com eles era sempre a sua mãe.  Uma vez mais esquecido, entranhou-se no quarto e só de lá saiu quando ouviu o chamamento para descer e jantar. Sempre que jantavam em família, Alexander permanecia calado. Não porque não queria falar, nada disso. Aliás, ele tinha muito que dizer, contar e partilhar. Não havia oportunidade para ele falar. A mãe, o pai, os irmãos, todos eles falavam entre si, só as vidas deles eram importantes. Alexander era um complemento inútil. Os lugares na mesa eram dispostos simetricamente. Alexander, por sua vez, sentava-se numa ponta da mesa sem ninguém à frente ou ao seu lado.  Quando o jantar terminava, era Alexander que arrumava a loiça suja e logo depois retirava-se para o quarto. Deitava-se na cama, mergulhava nas leituras complexas de Voltaire e, quando se cansava de ler, punha os phones e lançava-se na música. Adormecia todas as noites a ouvir música, já não era capaz de adormecer sem ouvir, pelo menos, um par de músicas.
Acordou na primeira manhã de junho e tudo foi igual aos outros dias. Desceu as escadas, passando pelo quarto dos pais e dos irmãos. Todos dormiam silenciosamente. Tomava o pequeno-almoço, subia novamente, tinha os seus cuidados de higiene diária, vestia-se aleatoriamente e saía. Até à escola, ia sempre pelo caminho mais logo. Precisava daquele tempo só dele, no qual só ele estivesse presente. Ouvia-se bastante a ele próprio, conhecia a sua voz interior melhor que ninguém, melhor até que a sua voz produzida nas cordas vocais. Nem sabia ainda se ambas coincidiam. Raramente se ouvia. Raramente o ouviam. Raramente o queriam ouvir.
Sophia, a sua melhor amiga, mostrava-se atenta a todos os seus passos. Caminha atrás dele, já sabendo o motivo daquela marcha lenta e pouco cautelosa. Aconselhava-o muito, dizia-lhe que tudo iria melhorar e que não ele não podia exigir o melhor de todos. Alexander não se convenceu nunca e nunca deixou de exigir o melhor de todos, porque sempre havia considerado ter dado o seu melhor, em todos os casos, com todas as pessoas.
A caminho de casa, Alexander viu uma velhota, muito parecida à sua bisavó, sentada no meio do chão, pedindo auxílio monetário. A pobreza era algo que o incomodava bastante, revoltava-o. Olhou para a carteira, não tinha muito. Resolveu dar tudo, o pouco que tinha.
-Obrigado meu querido filho. São jovens como tu que me fazem acreditar que um dia ainda serei feliz, com os poucos anos de vida que me restam…obrigada.
Alexander, verteu uma lágrima e saiu dali o mais depressa que pôde. Chegou a casa, subiu as escadas, fechou-se no quarto e atirou-se à cama.
-Já nem se fala quando se chega a casa, isto anda bonito…anda, anda!
O jovem rapaz já nem queria saber das lamentações ameaçadoras do pai, por afinidade. Só pensava naquela velhota e de como se sentia orgulhoso dele próprio e estranho ao mesmo tempo de ter interagido com alguém por vontade própria…não lhe tinha dirigido palavra, é certo. Queria ajudá-la mais, sempre que pudesse.
Na manhã seguinte, acordou mais cedo para falar com a mãe:
-Mãe, dás-me algumas moedas?
-Para quê?
-Vou almoçar hoje na escola.
- E a mesada que te dei?!
-Gastei-a.
-Em quê?
- Nu…Nuns trabalhos da escola, mãe.
Irritada, como era de esperar, visto que era de manhã, a mãe deu-lhe umas moedas para as mãos. Alexander tocou-lhe a face com os lábios e saiu. Foi à escola normalmente, como em todos os dias, e, quando ia a caminho de casa, tomou novamente o caminho mais longo e lá estava a senhora de novo.
-Meu querido filho, por que me ajudas tu? Não falas? Não tenhas medo de mim…não te farei mal. Por que me ajudas tu? Não posso aceit…
-Aceite!
- Mas tu ontem já….
- Não quero o dinheiro de volta!
As palavras de Alexander cortavam o ambiente, eram agudas.
- Obrigado, meu querido. Os teus pais devem estar orgulhosos de terem um menino tão dócil…
-Tenho de ir.
-Já?
-Sim, estou com fome, tenho que ir.
Alexander não tinha almoçado. O pouco dinheiro que a mãe lhe deu, deu-o ele à senhora, na íntegra. Chegou a casa e proveu-se de um grande lanche. Bolo de cenoura, sumo de laranja natural e, para finalizar, biscoitos de manteiga com chocolate para barrar.
Na manhã seguinte, chovia imenso. A sua mãe andava no jardim, inquieta, a apanhar a roupa que pingava de tão encharcada estar. O jardim estava do avesso. A tempestade daquela noite havia destruído muita coisa, até o baloiço. Era seu, tinha-lhe sido oferecido no seu oitavo aniversário. Alexander ficou muito contente. Adorava ler e ouvir música, refastelado no seu baloiço, enquanto mirava a beleza natural do lago e imaginava o que poderia estar para além do reflexo do céu e das árvores. Já há muito que não o usava e agora sentia-se triste.
-Podemos comprar outro?
-Para quê? Nunca mais o usaste, não há dinheiro.
As palavras da mãe soram-lhe injuriosas, mas ela tinha razão.
-Mãe…
- Sim, diz.
-Preciso de dinheiro.
-Ainda não recebi, não te posso dar mais nada. Vens a casa hoje, está bem?
-Claro.
A mãe dera-lhe um beijo na testa e afagou-o como sempre fazia, sempre que não lhe saciava algum desejo, como mostras de ter pena, quando muitas das vezes nem havia pensado mais sobre o caso.
Alexander sentia-se, uma vez na vida, com um objetivo na vida. Queria ajudar a senhora e ser o criador dos seus dias felizes nos últimos dias que lhe restavam, mas sentia-se dependente, impotente, decadente.
-Desculpe senhora. Hoje não consigo ajudá-la.
-Ajudas-me se fores dar um passeio comigo. Não tenho ninguém com quem falar.
-Claro, eu ajudo-a a levantar-se.
Começaram ambos a caminhar pela estrada vazia, ainda semicoberta pela neve.
-Conta-me mais sobre ti, rapaz.
-Não tenho nada de interessante para contar.
-Oh, vá lá. Todos nós temos uma história.
-Eu não.
-Parece-me que estás triste, revoltado. Acertei?
-Talvez.
-Conta-me.
-Sinto-me sozinho no meio de todo o mundo. Não tenho muitos amigos. Acho que só tenho uma amiga, mas não lhe dou muito crédito. O meu pai morreu há vários anos. Nunca fomos muito próximos. A minha mãe anda sempre muito ocupada com o trabalho, chega a casa sempre cansada e tem de estar mais tempo com os meus dois irmãos mais pequenos. O meu pai igual…
-Mas o teu pai não tinha morrido, jovem rapaz?
-Sim….estou a batalhá.la…este pai é o homem com quem a minha mãe está há já muitos anos.
-Gostas dele?
-Gosto.
-Por que não me falas dele?
-Eu já falei. Está sempre com muito que fazer. Fale-me de si.
-O meu nome é Joanne. Casei três vezes. O meu primeiro marido morreu na guerra. O meu segundo marido morreu de cancro. O meu terceiro marido fugiu com as minhas duas filhas. Deixou-me na penumbra e tornou-me na mulher que sou hoje. Por vezes penso que, muito possivelmente, não serei sequer uma mulher, não terei eu lugar no mundo. Sou uma anónima, muitos me desprezam. Os que não me despreza, olham-me com escárnio.
-Não tem mesmo ninguém que a ajude?
-Tinha uma irmã, a Judith. Morreu o ano passado…era muito debilitada, coitadinha. Os filhos dela nunca me chegaram a conhecer. Não sei os nomes de cada um, nunca me interessei, honestamente.
-Porquê?
- Habituei-me a estar sozinha. Após a morte do meu segundo marido, habituei-me à solidão e coloquei como hipótese ficar sozinha para sempre. Conheci o meu terceiro marido, tive duas filhas e fiquei sozinha na mesma. Eu estava destinada a ficar sozinha e tentei sempre impedi-lo…talvez a culpa da morte dos meus dois maridos e a fuga do terceiro, tenha sido um empurrão contra eles para fora da minha vida, por isso mesmo, porque eu estou e sempre estive destinada à solidão.
-A solidão é muito má?
-Não. Depende da forma como a vives. Agora eu gosto de estar sozinha. Sinto falta de muita coisa, mas é o melhor.
-Mas não tem ninguém que a ajude…
-E assim vejo quem o faz por gosto e não por obrigação, meu querido. Muda enquanto tens tempo, meu filho. És jovem, bonito, deves ser inteligente e, acima de tudo, és de boa índole. Tens um coração enorme cheio de amor para dar e parece-me que insistes em consumi-lo pelas negras chamas que conduzes. A vida é assim, meu querido…injusta….muito injusta. Mas boa!
Joanne estava já cansada de caminhar, pelo que despachou Alexander e sentou-se no chão. Ao caminhar até casa, Alexander pensava em tudo o que Joanne lhe dissera e de como as suas inseguranças lhe pareciam infantis ao lado de uma vida tão negra, tão sem cor como a de Joanne. Chegou a casa e abraçou a mãe. Só o conseguia fazer com a mãe. Apesar de tudo, era a pessoa que mais amava na vida e não amava mais ninguém sem ser ela. A mãe correspondeu e abraçou-o também.
Aquela noite foi serena, enquanto lia Cândido ou o Optimismo, de Voltaire e se envolvia nas filosofias de Martinho e nas cruzadas de Cândido, Alexander dava por si a pensar na sua vida, na de Joanne em comparação com a filosofia otimista de Pangloss. Este companheiro de Cândido, considerava que, tal como Leibniz, todos nós nos encontramos no melhor dos mundos possíveis e que para que possamos colher os melhores frutos, há que cultivar o nosso jardim.
Petas, tudo petas e mentiras. Estamos na selva disfarçada de civilização, pensava para si Alexander. Odiava o mundo, o negativo sobrepunha-se sempre ao positivo, nada lhe parecia correto, nada lhe proporcionava alegria.
-Vou sair.
-Onde vais?
-Vou dar uma volta.
-Andas cada vez mais parvo, palavra de honra!
O palavreado repugnante do pai tornara-se insignificante. Saiu sem antes saber se aprovavam ou não.
Alexander tinha dezoito anos e já era capaz de tomar decisões por ele. Era hábito ser julgado por todos, alvo de críticas, mesmo quando o que havia feito não tinha tido consequências algumas. Sempre que tentava agradar, nunca era gratificado por tal. Voltou a casa, já de madrugada, revoltado consigo mesmo e com o seu pensamento. Deitou-se.
Na manhã seguinte não acordou a tempo das aulas….bonito! Valeu-lhe um enorme sermão do pai.
-Não mereces os esforços que eu e a tua mãe fazemos por ti. Não mereces a mãe que tens. Não mereces a vida que tens.
Não mereces a vida que tens, esta frase ecoou-lhe no cérebro todo o dia.
Saiu de casa, à hora do toque de saída da escola, e lá foi ele à rua onde Joanne estaria. Não a encontrou lá. Deu uma volta por toda a cidade, revolveu jardins, o terminal ferroviário, frutarias, padarias, praças e nada. Saiu da cidade e procurou nas estradas mais isoladas, andou por entre as densas árvores do bosque e o resultado foi o mesmo.
Alexander chorava. Procurava pela sua companhia, a única pessoa que tinha mostrado interesse por saber algo sobre ele, que tinha mostrado interesse e preocupação pelos seus sentimentos. Hoje queria repetir o passeio, ouvir mais histórias. Caminhou à volta do lago Obsidiana que ficava isolado, no meio do bosque, onde agora lhe raiava o sol. Enquanto caminhava, sentia que algo o observava. Não sabia o quê.
Joanne, sentia-se esventrada, sentia a sua privacidade invadida. Gostava do miúdo, mas queria afastá-lo. Era o destino. Ela tinha que estar sozinha. Ela queria estar sozinha. O amor que lhe assolava o coração, tomava-lhe de assalto as artérias e fazia o sangue engrossar. A sua pele encarquilhava-se cada vez que pensava em voltar a falar com alguém sobre si mesma. Não queria ninguém a rodeá-la.
Numa manhã soalheira, andava a mãe de Alexander desesperada à procura da cria desaparecida. Alexander não havia voltado a casa e já tinham passado treze dias. As buscas policiais terminaram e deram Alexander como desaparecido, possivelmente fuga propositada. Disseram-lhe que se conformasse. Lá em casa, ninguém parecia sentir muito a falta de Alexander. Os irmãos brincavam no tapete da sala e o pai via o noticiário da noite, todos como se nada tivesse sucedido. A mãe, por seu turno, encafuava-se no quarto do filho à procura de alguma pista que a pudesse conduzir até ele.
No dia seguinte, a cidade estava bastante agitada. As pessoas soltavam cochichos e a mãe de Alexander sentia-se insegura.
- O que se passou vizinha, sabe?
- Uma pedinte foi encontrada, esta madrugada, morta junto ao bosque.
-Meu deus, que tragédia. O que aconteceu à pobre coitada?
-Ninguém quer saber, quero é que tudo passe rápido…com este alvoroço todo as pessoas não me compram fruta nenhuma!
Decidiu ir até ao bosque onde o corpo havia sido encontrado e lá estava ele. Ninguém o havia removido ainda. Quem não tinha nome, quem não era reconhecido socialmente, demorava umas longas horas para que o seu final fosse finalmente encerrado com o célebre enterro. Deslizou-lhe os dedos pela face, emendou-lhe o lenço que trazia já mais fora do bolso que dentro e afastou-lhe a mão do peito. Da mão direita do cadáver de Joanne, soltou-se um papel com um lago mal desenhado.  No papel estava escrito Não mereces a vida que tens. Correu e saiu dali o mais rápido que pôde. Chorava sem parar e caminhava, em simultâneo, pelo bosque. Pensou que se tivesse tratado de um assassínio, mas, de repente, lembrou-se de algo. Correu até casa e voltou a remexer nas folhas soltas deixadas pelo filho na secretária. Numa delas, estava um lago e por baixo dizia Obsidiana, o lago das perdas.
Alexander foi encontrado pela sua mãe. O corpo flutuava pela água calma do lago por pouco mais de duas semanas. Estava frio, duro, arroxeado, sem expressão. A mãe da cria morta, envolveu o seu corpo em volta do corpo do filho, esperançosa de o salvar.
Do fundo do bosque, Alexander, em espírito, observava a mãe. Havia sido empurrado para dentro do lago. Nos momentos em que vinha à superfície para tentar respirar, via os olhos maquiavélicos e descontrolados de Joanne. Ao observar a mãe teve a confirmação de uma convicção já há muito sua: Seria a sua mãe que o tentaria salvar quando não houvesse solução possível. Notava-lhe a tristeza profunda no olhar, no olhar da mãe. As lágrimas corriam pela cara vermelha de fúria e medo. Pobre mãe!

Não mereces a vida que tens. Alexander virou costas e deixou a mãe agarrada ao seu corpo.