sábado, 4 de outubro de 2014

NATAL - CAPÍTULO I - O INÍCIO NEM SEMPRE É MÁGICO

Estava frio. Gelava-lhe os ossos e quebrava-os em corrente, como bonecas de porcelana esbatidas pelo tempo, sempre com os olhos aterrorizadamente focados em algo. Estava Emily no carro com o rapaz, que a levara até a casa da família, onde ela iria passar o Natal, morto. Ela olhava-o com uma palidez dócil. O corpo de Ashton estava sentado no banco do condutor, a sua boca estava aberta, os olhos entreabertos e com a face ligeiramente curvada para ela. A última visão do pobre rapaz havia sido a rapariga que sempre platonicamente tinha amado. Uma colega de faculdade com quem nunca falara, mas que sempre tinha seguido e admirado. Emily era uma rapariga difícil, sem grandes emoções transparecidas para o exterior, contudo o seu coração de gelo ardia no frio da tempestade em que estava, ardia de ódio por ela mesma.
Ashton, numa das vezes que seguiu Emily, escutou uma conversa entre ela e uma amiga, Hannah. Ambas se mostravam ansiosas por regressar a casa na época natalícia, rever os familiares, poder disfrutar do calor das chamas da lareira e poder ver os sorrisos desenhados nas caras dos que mais amavam.
-Como vais para casa?
-Não tenho dinheiro para a passagem de avião... Terei de ver se arranjo boleia de alguém.
- Os meus pais vêm-me buscar, boa sorte com isso.
- Quero tanto poder voltar a dormir no chão, embrulhada em mantas da minha avó, junto à lareira. – Foram as palavras finais de Emily antes da última aula.
Ashton, rapidamente, colou um papel no quadro de notificações do átrio D-1 da faculdade que dizia Quem quiser boleia de Natal para Quebec contacte-me – 0018765123456. Ashton.
-Hey, daqui fala a Emily...estou a falar com o...
- Ashton, sim.
- Hum...bem eu precisava mesmo de alguém que me levasse até Quebec... vou passar o Natal...
- Eu levo-te. Encontramo-nos depois de amanhã, dia 23 às 14h na porta da faculdade.
- Obrigada.
Ashton viu o seu plano concluído com êxito e procurou informar-se sobre quais os gostos culinários de Emily. Hannah foi uma grande ajuda, pelo que este comprou tudo a tempo.
- Olá, sou eu... a Emily.
- Ashton, prazer. Podes trazer esse saco de compras e colocá-lo no carro?
- Claro que sim.
- Dá-me a tua mala, eu ajudo-te...deve estar pesada.
Entraram no carro e iniciaram a viagem.
- Mais ou menos quanto tempo levaremos até que terminemos a viagem?
- Umas seis horas, por aí.
Entediada, a indomável Emily ligou a Hannah.

- Estou? Sim, bem estou a apanhar uma seca na auto-estrada...achas que sei?! As auto-estradas são todas iguais...Bem, sim, claro, mas ele não quis vir comigo, achou que estávamos a ir rápido demais e como não quis conhecer a minha família, tive de pedir a um qualquer boleia para casa.



Atrapalhada, Emily afastou o telemóvel do ouvido, tapou o microfone do mesmo com a mão esquerda e verbalizou um desculpa, não é nada pessoal para Ashton.
- Hum...Hannha, volto a ligar-te mais tarde. Beijinhos e bom Natal.
- Não levei a mal, não fiques preocupada.
- É que eu supostamente vinha com um rapaz que...esquece, vamos continuar a viagem.
Permaneceram calados durante pouco mais de duas horas e eram já quatro e um quarto. Farta do constrangimento do inexistente, Emily perguntou onde ele vivia.
- Quebec.
- Que coincidência. Incomoda-te que fume dentro do carro?
- Abre a janela, então.
- Onde posso fazê-lo?
- Aí mesmo ao pé do puxador...
- Isto está um bocado estragado, hum... não consigo.
- O carro era do meu avô...
Ashton ficou envergonhado, queria seduzi-la, mas o seu parceiro de estrada tinha-o deixado ficar mal.
- Bem, não é nenhum Audi R8, mas desde que chegue a casa é o que importa, estar sentada muito tempo faz-me doer as costas.
- Se quiseres, podemos parar na próxima área de serviço.
- Agradecia.
Tal como acordado, pararam na estação de serviço mais próxima. Ashton quis levar Emily às cavalitas, como uma senhora de verdade deveria de ser levada.
-Não é necessário, a sério, não...deixa estar.
-Acho que usei mal a palavra quando disse escolha , é mesmo uma ordem. Salta para as minhas costas.
Às gargalhadas, lá saltou Emily. Abraçou o pescoço de Ashton como se a sua vida dependesse disso mesmo. Ele colocou-a no chão e olharam-se por breves segundos, sorrindo.
- Hum....preciso de ir à casa de banho, dá-me licença.
Ashton, embaraçado, saiu da frente e sorriu de uma forma torta. Emily emitiu o seu ar de gozo imperial e encaminhou-se até onde queria ir.
Emily, já na casa de banho de serviço público, depois de ter dado ordem de escape às suas necessidades fisiológicas, encaminhou-se até ao espelho. Enquanto retocava o risco sublime que tinha nos olhos, apercebia-se da sua beleza, dos seus glaciares olhos azuis, do seu cabelo liso, negro como um promontório de um vulcão em plena atividade vulcânica, a sua pele branca e os seus lábios carnudos ansiosos pelo beijo do seu verdadeiro amor. Sentia-se envergonhada agora que reparara em si, não obstante, ruborizou-se mais ainda quando lhe veio ao de cima aquele sentimento de orgulho e satisfatez. Lançou um olhar felino ao espelho e saiu porta fora. Deu de caras com uns homens assustadores, que a olhavam incessantemente para todos os cantos mais recônditos do seu corpo. Horrorizada, afastou-se dali o mais rapidamente que pôde. Viu Ashton lá mais adiante, no balcão, e dirigiu-se a ele como se as entrelinhas do diabo a quisessem agarrar pelas pernas e sumi-las no ambíguo.
- Vamos embora, já!
- Estás com muita pressa, passou-se alguma coi...
- Já!


De olhos arregalados, Ashton entrou em concordância com a fera que agora mostrara as suas garras de fora. Entraram no carro, as portas custaram a abrir, por vezes prendiam, mas lá cederam. Fazia frio lá fora, cá dentro estava mais acolhedor. Ashton conseguiu ligar o carro à terceira tentativa e lá prosseguiram a rota natalícia.
- Estás bem?
- Sim...
-  Pareces-me desanimada... alguém que não queiras rever quando chegares a casa?
- Não... está tudo bem.
- Podes contar-me, se quiseres.
- Eu não te conheço! Não tenho que te contar a minha vida!


A face de Emily fumegava agora pelos poros, raivosa, explodiu. Na verdade, era certo que ela não o conhecia, mas pobre rapaz, as suas intenções eram as melhores. Ao que parece...
Permaneceram calados algum tempo, Emily decidiu rasgar o silêncio:
- Não devia ter falado contigo com toda aquela brutalidade, desculpa.
- Achas? Não tem problema nenhum.
- Estás a tentar ser simpático?
- Estás a assumir que preciso de me fazer passar por alguém que eu não sou?
- Podes ser um psicopata e eu nem sei...
- Tu é que me ligaste, lembras-te?
A esta não soube Emily responder, corou.


A estrada inspirava neve, o céu expirava neve, Emily e Ashton estavam no meio da neve. Seguiam viagem calados, olhando em frente, nem por isso atentos. O mundo escapava-lhes e, tanto um como o outro, não se davam conta. O rádio entrecortava-se com faíscas auditivas, apenas vozes soavam no meio daquela poluição sonora. Ashton alterou para uma outra estação de rádio. Era um tema de Natal que estava a tocar. Ashton seguiu com a mão até ao botão do rádio para mudar novamente de estação, mas Emily segurou-lhe no braço para impedi-lo. Sorriu-lhe, mas Ashton mantave-se imóvel. Dois corpos sozinhos dentro de um carro, por mais falido que estivesse, era ainda um carro, mas ambos vazios, sozinhos. 
- Não vais falar?
- Tu pensas que eu sou um psicopata qualquer, mas enfiaste-te no mesmo carro que eu...como queres que eu esteja?
- Não precisas de ficar assim!
- Talvez não precise, mas estou, por isso fica calada e deixa-me em paz.
- Quero sair do carro!
- Estás louca!
- Deixa-me sair do carro!
Emily gritou, esperneou e, ao mesmo tempo, quase sem se dar conta, batia nos braços de Ashton. Este, por seu turno, na tentativa de defender-se, virou agressivamente o volante. Um carro estava na frente deles e a única alternativa que passou pela cabeça do rapaz foi desviar-se, fosse para onde fosse. O carro acabou fora da estrada, no meio de árvores e rochas. A neve continuava ali a cobri-los.