sábado, 6 de dezembro de 2014

NATAL - CAPÍTULO II – O CORAÇÃO QUER AQUILO QUE QUER

Emily saiu do carro, num pranto, procurando por alguém na imensidão do nada que a pudesse ajudar, naquele fim de tarde invernosa, gelada, escura. Não havia ninguém que pudesse aliviar aquela sensação de estar perdida, sozinha. O coração de Emily batia por redundâncias incoerentes, batia entre o querer sair dali o mais rapidamente possível e o querer não sair dali sem Ashton.
O amor é injusto e quem constrói um quadro de planos futuros, deixa-lo tão impreciso, deixando o repositório das culpas para o coração. O frio aperta e a sensação de que ele não lá estava para a segurar, mas o coração apenas quer aquilo que quer. Incoerências. Não há contos de fadas com carros espetados no gelo e natais arrasados pelo amor ferido pelo selvagem negrume de um dia, de uma noite, de um coração, mas este apenas quer aquilo que quer.  Por vezes a nossa melhor arma é a que nos mata no mesmo instante em que a usamos para matar o inimigo, foi isso que Emily fez ao provocar o acidente. Era assim que se sentia.
 - O telemóvel!! – Gritou Emily.
Emily conseguiu apanhar o seu telemóvel que estava debaixo do banco onde ia, contudo não havia rede.  As suas mãos tremiam, o seu corpo estava imóvel, o seu olhar aberto, atento ao que podia fazer para melhorar a situação. Devastada e aterrorizada, Emily entrou no carro e tentou procurar o telemóvel de Ashton. Estava receosa de tocar-lhe. Ele parecia morto, tão sereno que estava. Ficou a admirar o quão lindo ele era, reparou no quanto especial aquele cadáver a fazia sentir. Deixou-se de coisas e tocou-lhe as calças, passou-lhe a mão pelo sexo, correu os seus dedos por toda a área restrita e por fim alcançou o bolso do lado esquerdo. Lá estava o telemóvel. O rapaz não tinha nada que fosse atualizado.
- Não me digas que o telemóvel também era do avõ! – Ironizou Emily - Merda! Merda! Merda! Ashton, assustaste-me!
Ashton agarrou firme o braço de Emily, de olhos abertos e filtrados na sua pele branca e agora seca, desgastada.
 - Tocaste-me tão suavemente, não tive coragem de te distrair...tu sabes...
- Não sejas ordinário, seu porco, nojento...
- Calma lá, já que sou psicopata, posso também ser violador? – Ashton ria-se dolorosamente.
Emily mais uma vez ficou sem saber o que responder, desta vez não corou, antes tivesse corado. A sua testa avermelhou-se da cólera.
- E que tal usares essa tua boa disposição para nos tirares daqui! Idiota.
- Senhora, Madame, Miss, já tentou, pelo menos, ligar o telemóvel?


Emily entregou-lhe o telemóvel com raiva de si mesma. Detestava quando os outros lhe passavam atestados de estupidez.
- Aqui está. Um telemóvel “do avô” que funciona, tem rede e que nos vai tirar daqui.
- Vá, cala-te e faz o que tens a fazer!
- Está?! Sim...bem eu tive um acidente...não estou apenas a sangrar da cabeça...não, sinto-me bem, com algumas dores, mas bem...sim, estou acompanhado. Não...não...não, ela está bem, bem em demasia...claro...por favor, sejam rápidos.
- Então?
- Consegui falar.
- Cala-te, jura...não...não se nota!
- Tu enervas-me, dá para seres menos dramática?
- Como é que queres que eu seja menos dramárica se estamos aqui no meio do nada, de noite, ao frio?!
- Não grites comigo, merda! Foste tu que causaste isto tudo! – Ashton gritou, deu uma forte pancada no tablier do carro e saiu porta fora.
Emily ficou dentro do veículo esbarrado a chorar, tomou a veracidade do argumento de Ashton como uma facada e sentia-se pronta a morrer de agonia. Resolveu, pela primeira vez na vida, guardar o orgulho para si mesma e sair do carro e correr até Ashton e pedir-lhe desculpas.
- Ashton , espera.  Fui muito estúpida contigo, desculpa!




- Já reparaste que não fazes mais nada que é culpabilizar-me, insultar-me, desculpares-te? Chega, eu fiz esta viagem por ti, não por mim.
- Tu também vais passar o Natal com a tua família, não deixes essa para mim também...
- Eu vim por ti.
- Como por mim? Não vives em Quebec? A tua família não está lá à tua espera?
- Mas qual família? Os meus pais abandonaram-me, não conheço a minha família, apenas as pessoas que ficaram comigo.
- Então o que é tudo isto? Uma tentativa de me matar? Porquê?
- Porque sempre te quis.
- Eu disse que tu eras um psicopata!
- Eu sou apenas um rapaz normal que estava a tentar conhecer melhor uma rapariga que julgava vir a amar, mas enganei-me. Tratava-se tudo de uma surpresa, mas até isso tu foste capaz de arruinar! Descobri o amor em ti, nunca soube o que era amar e tu mostraste-me isso tão bem! De facto o coração só quer aquilo que quer, é injusto, injusto!


Ashton correu até sem poder mais. Deu por si no meio de árvores que o envolviam numa espécie de redoma negra e aterradora. Sentou-se e levou as mãos à cabeça. Chorou.  Emily ficou junto ao carro, sentada. Chorava. Ambos choravam a pensar um no outro. Ashton tinha raiva de Emily, como ela destruira tudo o que ele havia construido, destruira a hipótese de ele ser feliz uma  única vez na vida. Emily tinha o coração rasgado por dentro, seco por fora, obstruído pelas lágrimas incessantes de ardor, ácidas como o seu temperamento intempestivo e cruel.
Uma luz dilacerante penetrou o corpo de Ashton. Correu até um pouco mais adiante para tentar perceber que luz era aquela e, pelo que a sua visão conseguiu alcançar e absorver, tratar-se-ia de uma ambulância. Finalmente havia chegado! Como se as suas pernas tivessem sido domadas por um automatismo, o rapaz correu o mais que põde para chegar até Emily antes do veículo de socorro, contudo, para mal do pobre coitado, Emily já havia entrado na ambulância.
-Não sei onde ele está, ele saiu a correr há um bom bocado e não o vi mais.
- Bom, teremos de a levar já daqui para fora até ao hospital para que seja observada por um médico. Poderá estar a entrar numa hipotermia daquelas fortes, acalme-se.
- O que vai acontecer com o Ashton? Não o podemos deixar aí sozinho, está escuro, está frio! Por favor...voltem para trás...
- Não se preocupe, enviaremos, logo que possível, uma ambulância que o venha resgatar. A senhora é que não pode ficar aqui enquanto o seu namorado não aparece.
- Não é meu namorado.
Ashton ainda correu atrás da ambulância, mas não a conseguiu alcançar. O frio gelava-lhe o corpo e por mais que o movimentasse não lhe conseguia dar o aquecimento que necessitava para continuar a lutar pela vida, por Emily.
- Emily...volta...Em..Emi... – Os olhos de Ashton estavam mais abertos que nunca, mas logo se fecharam. Ashton permanecia no chão.


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