Emily saiu do carro, num pranto,
procurando por alguém na imensidão do nada que a pudesse ajudar, naquele fim de
tarde invernosa, gelada, escura. Não havia ninguém que pudesse aliviar aquela
sensação de estar perdida, sozinha. O coração de Emily batia por redundâncias
incoerentes, batia entre o querer sair dali o mais rapidamente possível e o
querer não sair dali sem Ashton.
O amor é injusto e quem constrói um
quadro de planos futuros, deixa-lo tão impreciso, deixando o repositório das culpas
para o coração. O frio aperta e a sensação de que ele não lá estava para a
segurar, mas o coração apenas quer aquilo que quer. Incoerências. Não há contos
de fadas com carros espetados no gelo e natais arrasados pelo amor ferido pelo
selvagem negrume de um dia, de uma noite, de um coração, mas este apenas quer
aquilo que quer. Por vezes a nossa
melhor arma é a que nos mata no mesmo instante em que a usamos para matar o
inimigo, foi isso que Emily fez ao provocar o acidente. Era assim que se
sentia.
- O telemóvel!! – Gritou Emily.
Emily conseguiu apanhar o seu
telemóvel que estava debaixo do banco onde ia, contudo não havia rede. As suas mãos tremiam, o seu corpo estava
imóvel, o seu olhar aberto, atento ao que podia fazer para melhorar a situação.
Devastada e aterrorizada, Emily entrou no carro e tentou procurar o telemóvel
de Ashton. Estava receosa de tocar-lhe. Ele parecia morto, tão sereno que
estava. Ficou a admirar o quão lindo ele era, reparou no quanto especial aquele
cadáver a fazia sentir. Deixou-se de coisas e tocou-lhe as calças, passou-lhe a
mão pelo sexo, correu os seus dedos por toda a área restrita e por fim alcançou
o bolso do lado esquerdo. Lá estava o telemóvel. O rapaz não tinha nada que
fosse atualizado.
- Não me digas que o telemóvel
também era do avõ! – Ironizou Emily - Merda! Merda! Merda! Ashton,
assustaste-me!
Ashton agarrou firme o braço de
Emily, de olhos abertos e filtrados na sua pele branca e agora seca,
desgastada.
- Tocaste-me tão suavemente, não tive coragem
de te distrair...tu sabes...
- Não sejas ordinário, seu porco,
nojento...
- Calma lá, já que sou psicopata,
posso também ser violador? – Ashton ria-se dolorosamente.
Emily mais uma vez ficou sem saber o
que responder, desta vez não corou, antes tivesse corado. A sua testa
avermelhou-se da cólera.
- E que tal usares essa tua boa
disposição para nos tirares daqui! Idiota.
- Senhora, Madame, Miss, já tentou,
pelo menos, ligar o telemóvel?
Emily entregou-lhe o telemóvel com
raiva de si mesma. Detestava quando os outros lhe passavam atestados de
estupidez.
- Aqui está. Um telemóvel “do avô”
que funciona, tem rede e que nos vai tirar daqui.
- Vá, cala-te e faz o que tens a
fazer!
- Está?! Sim...bem eu tive um
acidente...não estou apenas a sangrar da cabeça...não, sinto-me bem, com
algumas dores, mas bem...sim, estou acompanhado. Não...não...não, ela está bem,
bem em demasia...claro...por favor, sejam rápidos.
- Então?
- Consegui falar.
- Cala-te, jura...não...não se nota!
- Tu enervas-me, dá para seres menos
dramática?
- Como é que queres que eu seja
menos dramárica se estamos aqui no meio do nada, de noite, ao frio?!
- Não grites comigo, merda! Foste tu
que causaste isto tudo! – Ashton gritou, deu uma forte pancada no tablier do
carro e saiu porta fora.
Emily ficou dentro do veículo esbarrado
a chorar, tomou a veracidade do argumento de Ashton como uma facada e sentia-se
pronta a morrer de agonia. Resolveu, pela primeira vez na vida, guardar o
orgulho para si mesma e sair do carro e correr até Ashton e pedir-lhe
desculpas.
- Ashton , espera. Fui muito estúpida contigo, desculpa!
- Já reparaste que não fazes mais
nada que é culpabilizar-me, insultar-me, desculpares-te? Chega, eu fiz esta
viagem por ti, não por mim.
- Tu também vais passar o Natal com
a tua família, não deixes essa para mim também...
- Eu vim por ti.
- Como por mim? Não vives em Quebec?
A tua família não está lá à tua espera?
- Mas qual família? Os meus pais
abandonaram-me, não conheço a minha família, apenas as pessoas que ficaram
comigo.
- Então o que é tudo isto? Uma
tentativa de me matar? Porquê?
- Porque sempre te quis.
- Eu disse que tu eras um psicopata!
- Eu sou apenas um rapaz normal que
estava a tentar conhecer melhor uma rapariga que julgava vir a amar, mas
enganei-me. Tratava-se tudo de uma surpresa, mas até isso tu foste capaz de
arruinar! Descobri o amor em ti, nunca soube o que era amar e tu mostraste-me
isso tão bem! De facto o coração só quer aquilo que quer, é injusto, injusto!
Ashton correu até sem poder mais.
Deu por si no meio de árvores que o envolviam numa espécie de redoma negra e
aterradora. Sentou-se e levou as mãos à cabeça. Chorou. Emily ficou junto ao carro, sentada. Chorava.
Ambos choravam a pensar um no outro. Ashton tinha raiva de Emily, como ela destruira
tudo o que ele havia construido, destruira a hipótese de ele ser feliz uma única vez na vida. Emily tinha o coração
rasgado por dentro, seco por fora, obstruído pelas lágrimas incessantes de
ardor, ácidas como o seu temperamento intempestivo e cruel.
Uma luz dilacerante penetrou o corpo
de Ashton. Correu até um pouco mais adiante para tentar perceber que luz era
aquela e, pelo que a sua visão conseguiu alcançar e absorver, tratar-se-ia de
uma ambulância. Finalmente havia chegado! Como se as suas pernas tivessem sido
domadas por um automatismo, o rapaz correu o mais que põde para chegar até Emily
antes do veículo de socorro, contudo, para mal do pobre coitado, Emily já havia
entrado na ambulância.
-Não sei onde ele está, ele saiu a
correr há um bom bocado e não o vi mais.
- Bom, teremos de a levar já daqui
para fora até ao hospital para que seja observada por um médico. Poderá estar a
entrar numa hipotermia daquelas fortes, acalme-se.
- O que vai acontecer com o Ashton?
Não o podemos deixar aí sozinho, está escuro, está frio! Por favor...voltem
para trás...
- Não se preocupe, enviaremos, logo
que possível, uma ambulância que o venha resgatar. A senhora é que não pode
ficar aqui enquanto o seu namorado não aparece.
- Não é meu namorado.
Ashton ainda correu atrás da
ambulância, mas não a conseguiu alcançar. O frio gelava-lhe o corpo e por mais
que o movimentasse não lhe conseguia dar o aquecimento que necessitava para
continuar a lutar pela vida, por Emily.
- Emily...volta...Em..Emi... – Os
olhos de Ashton estavam mais abertos que nunca, mas logo se fecharam. Ashton
permanecia no chão.



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