Chegada de Inglaterra, lá estava a Dama Leonor, como gostava de ser
apelidada, à porta do barco que a trouxera para os mares de Lisboa. Ai Tejo,
Tejo, que traiçoeiro andas tu, trazer pessoas de índole tão dispersa pela
insanidade…
As madeiras da barcaça gemiam de dor ao embater contra o cimento do porto,
ali para os lados do Terreiro do Paço, as crianças passeavam-se pelas ruas a
exibir as suas boinas e as senhoritas abanicavam-se, pois o sol estava
quentíssimo e as fazia suar, coitadas das moçoilas. A puberdade traz destas
coisas, andavam, pobrezitas, todas enfeitadas à procura de seu dono que lhes
quisesse pegar, mas desgraçadas andavam todas numa fona, ora pois não havia
homem que lhes deitasse a mão. Joana, Graciete e Ana Maria, as três
alcoviteiras mais famosas ali do sítio, tão mal faladas que eram, só queriam
ganhar a vida, ora nenhum senhor as pedia em casamento e elas, coitaditas,
tinham fomes apertadas.
Assoberbou-se-lhes a Dama Leonor, cheia de saias, saiotes e saiões verdes
cintilantes e brancas cor de névoa, um corpete bem ajeitado a delinear a bela
forma dos peitos que tinha. E que peitos!
- Queiram, por favor, dizer-me onde fica a casa do Senhor Villalva.
- É por ali. – Respondeu-lhe afinadamente Joana, apontando o seu másculo
dedo para o outro lado da praça.
- Muitíssimo agradecida, cara senho…rapariga. – De soslaio, olhou-a Dama
Leonor e logo se arrependeu do termo que iria empregar.
- Olha lá, aquela toda emperiquitada veio d´onde?
- Sei lá, mulher, é mais uma para nos ocupar a via. – Respondeu Joana a
Graciete.
Ana Maria era tímida, pelo que só se deitava por cama de homens
endinheirados e pacatos, já as suas companheiras, cada uma mais dada ao
atrevimento que outra, olhavam sobejamente cada verga que se lhes assomava, ora
com tanta oferta havia lá a rapaziada de se oferecer a constrangimentos, horas
se sorte, avante, avante!
Dama Leonor acercava-se sub-repticiamente à cada de Sr. Villalva. Bateu à porta
quatro vezes a anunciar a sua chegada.
- Dona Leonor, queira entrar, por favor, dê-me o casaco, entre, entre.
- Anastácia, credo, aprenda que Dona e Dama são palavritas diferentes.
- Aceite as minhas desculpas.
- Deixa-te de desculpas e traz-me o meu chá de pétalas de rosa com goiaba e
menta.
- Com certeza.
- Estás mais gorda querida, tens de fechar mais essa boquinha, senão meu
irmão não ganha para te arranjar fardas.
Anastácia não ouviu, estava já na cozinha.
- Irmã, querida irmã, como tens passado?
- Oh meu querido, atarefadíssima com a pequenada lá de casa, Inglaterra é
muito movimentada e o Charles, teu sobrinho, ingressou na faculdade, ninguém
dava nada pela criatura, mas ergueu-se e homem se fez.
- Sério? Ora, grandes notícias, por favor, sentai. Dizei-me, cara irmã, teu
marido…
- David.
- Certo, David, como está ele?
- Igual aos outros todos, querido irmão, na cova. Também já lá devia uns
aninhos…à cova!
- Santo Deus, nosso Pai, que sucedeu?
- Idade. E tu, namoradas? Já vi que desse mato não sai coelho.
- Leonor Villalva, um homem não precisa de mulher para ser grande.
-Bem sei, bem sei. Agora ordenai a tua empregada que me traga um chá,
devias cortar-lhe na ração, a criatura está embezerrada com tanta gordura.
- Achas? Acharei oportuno que lhe passes alguns ensinamentos do bem parecer
e saber estar…
- Poderás confiar em mim, nesta minha curta, contudo nobre estadia, farei
da tua Anastácia a imagem da minha empregada, a Isa, mas coitada com este nome
tão pobre e ocioso, trato-a por Diva.
- Assim o espero minha irmã. Agora irei retirar-me, pois tenho uma jogatana
marcada com o meu amigo Bernardo Macieira, grande homem.
- Ah, sim, penso que me recordo desse senhor, trá-lo para jantar, meu
irmão.
- Assim farei, até logo.
Anastácia veio em passos largos para entregar o chá de pétalas de rosa com
goiaba e menta.
- Anastácia, querida. Irei presenteá-la com os meus ensinamentos de como
ser uma dama, uma boa senhora.
- Para quê?
- Não é para quê, sua ingrata, é muito obrigado, minha senhora. Uff, vai lá
para dentro que já lá vou ter contigo.
Anastácia assim como entrou também saiu da sala, a passos largos. Era uma
pobre mulher, nunca teve uma mãe que a educasse, havia sido uma rameira que a
abandonara aos cuidados do pai, um homem rude e sempre muito sisudo. Nunca teve
marido, nunca foi mãe. Nunca soube o que
é ter uma mãe e nunca saberei o que é ser mãe, pobre de mim, que infelicidade.
Decidiu ausentar-se por umas horas para ir comprar algumas mercearias que lá
por casa já faziam falta.
- Então jeropiga doce, onde vais? Não me digas que decidiste homenagear a
tua mãe, rainha do nosso ofício, e entregar-te ao mundo do prazer? – Desdenhou
Joana.
Anastácia, retraída e muito envergonhada, ignorou-a, força do hábito. Só o
Senhor sabe as desventuras pelas quais Anastácia passou por causa da sua
progenitora, nunca arranjara marido por essa razão. Apenas um marmanjo se lhe
chegou, todavia as intenções eram apenas desflorá-la e ganhar o respeito dos
outros machos que por ela tremiam o beicinho. Lá ia ela, muito assenhorada, nas
suas roupitas humildes e agarrada à sua malita branca, amarelecida pelo tempo e
pelo uso. Lá força tinha ela, tinha quase 53 anos e não se importava de subir
até às ruas do Rossio para ir até à Mercearia do Rossio.
Dama Leonor, já pronta para lecionar as suas aulas de etiqueta e bons
costumes, acercou-se à cozinha e deu por ela vazia. Esvairada, foi num lance
até à sala e caiu sobre o sofá verde escuro e pegou um livro de Queirós, O Primo Basílio, por sinal. Enquanto
lia, achava um enorme clichê todo aquele enredo em volta de um adultério. Ouviu
a porta bater e deitou o seu olhar para o canto da sala, numa tentativa de
espreitar quem lá vinha.
- Irmã, querida, ainda aí?
- Irmão, a tua empregada desditosa sumiu-se sem dar cavaco, imagina só.
- Ah! Não te masses, Leonor. É hábito a Anastácia sair à tarde para dar um
passeio e comprar-me algumas das minhas exigências, de entre elas as minhas
compotas que tão bem me sabem logo pela manhã. Convidei Bernardo Macieira para
se juntar a nós hoje à noite para um jantar. É hora de começares por ensinar
algumas coisas à Anastácia com os preparativos.
- Bom, vamos lá a ver o que vai sair dali, ela é destrambelhada. Vê tu que
tentou iludir-me e em vez do meu chá de pétalas de rosa com goiaba e menta,
trouxe-me chá de tília com montes e montes de açúcar…
- Dá-lhe um desconto, cara irmã, a visão dela já não é o que era.
- Não podes ser tão cordial com aquela coisa, não podes Gonçalo Villalva!
- A empregada é minha, contei-vos cara irmã, não podes exigir muito dela,
está comigo há anos, há anos Leonor Catarina Mártires Villalva!
Leonor, irada, levantou-se de supetão e subiu até aos seus aposentos, já devidamente
preparados, e parou diante do espelho e lá se mirou. Não percebia como aquela
cara tão perfeita, pálida de maçãs rosadas e lábios carnudos, olhos verdes
tinha um nome tão horrendo.
- Anastácia!!!
A caseira subiu velozmente os degraus e entreabriu a porta do quarto de
Dama Leonor.
- Sim, minha senhora…
- Entra.
- Sim, do que precisa?
- Preciso que me abras as minhas malas e que coloques os meus vestidos de
fronte para que eu me decida por um deles. Quero ir magnífica para este jantar!
Anastácia abriu as malas da senhora. Nunca havia sentido o cheiro de pele
genuína, adorou cada toque. Rapidamente tirava os vestidos e tinha que se
colocar quase em bicos de pés para que não rojassem no chão. Passadas quase
duas horas, já Dama Leonor se decidira. Anastácia deixou-a arranjar-se e assim
que chegou à cozinha reparara que já se fazia tarde.
- Anastácia, o jantar está encaminhado?
- Está sim, senhor Gonçalo. Tenho no lume a preparar um belo d´um Arroz de
Marisco.
-Ora, assim é que é falar, comer até fartar hoje, hein!
-Assim espero, senhor. A sua irmã tem alguma restrição alimentar?
-Espero que não a vejamos inchar como as tias! – E posto isto, Gonçalo
Villalva saiu da cozinha a rir, indicando a Anastácia que devia falar com Dama
Leonor para algumas recomendações.
Anastácia, um pouco apreensiva, subiu novamente as escadas e voltou a
entreabrir a porta do quarto da senhora.
-Entrai.
- C´um catano, você está belíssima.
- Cuidado…com a linguagem, Anastácia, contudo obrigado por esse teu elogio
de bolso. Quero que coloques o melhor serviço que o meu irmão por cá tenha, o
copo alinhado ao lado esquerdo do prato, os talheres completos, de modo a serem
utilizados de fora para dentro, a serrilha das facas orientadas no sentido do
prato e não da mesa, para evitar que o senhor Bernardo Macieira saia daqui com
menos dedos do que aquele que eu suponho que ele tenha, as bebidas devem ocupar
a posição central da mesa, não dispensa de um bom centro de mesa e um candeeiro
robusto ao centro, eu própria ficarei ao lado do convidado e o meu irmão à
cabeceira da mesa, tu só apareces quando fores interpelada e serves as pessoas
sempre pelo lado direto, não sem antes pedires licença. Falei muito rápido? Vai
buscar um bloquito de notas.
- Não, minha senhora. Não me deixou nenhuma novidade.- E saiu.
Dama Leonor tomou o que Anastácia lhe dissera ainda agora como uma
provocação leviana. Cretina, mal lavada. Chamava
Dama Leonor mentalmente, rica só no palavreado. Finalmente, retornou à sala de
estar.
- Irmão, Bernardo Maceira já chegou?
- Não, cara irmã, estará, provavelmente, a pôr-se a caminho…
- Estou ansiosa!
- Por quê tanta ânsia, Leonor?
-Ora, não é todos os dias que podemos jantar na presença de um…homem
tão…Anastácia, venha aqui.
Anastácia, emburrada que estava, largou as panelas e logo se aprontou a
correr até à sala.
- Sim, minha senhora.
- Colocou o melhor serviço na mesa, tal como ordenei?
- Ainda não tive tempo, senhora. Há comida para fazer.
- Comida? Que palavras dizeis,
linguagem anémica. Tento nessa língua e vai já, rapidamente, tratar disso.
- Se não me incomodasse tanto, a senhora Dama Leonor, já teria até as
farofas a fazer… - Anastácia, exasperada, retirou-se.
- Gonçalo, ouviste o mesmo que eu?! Esta tua empregada de bolso que
arranjaste na sopa dos pobres ali do Cais Do Sodré vai levar uma lição.
- Deixai a Anastácia, coitada. Ela é velha, já havia dito, milhões de
vezes, milhões. Mulheres… - Retirou-se também, deixando Dama Leonor a discutir
com as paredes.
Ouviu-se bater na porta, Dama Leonor excitou-se sobremaneira, de tal modo
que foi até abrir a porta, ela própria.
- Ora, se não é o tão bem parecido Bernardo Macieira!
- Quanta gentileza, Dama Leonor.
- Queira, por favor, entrar.
- Obrigado. – Bernardo entrara na casa dos Villalva como se da sua se
tratasse, deitando o sobretudo no braço do sofá e sentando-se de forma muito
pouco própria de um adulto.
- Ora, toma alguma coisa Bernardo? A Anastácia está um pouco atrasada com o
jantar…
- Claro, se me fizer companhia num gin…
- Bom, não sou senhora de recusar pedidos de homens tão gentis e
agradáveis, irei preparar.
- E Gonçalo? Por onde anda esse camarada?
- Ah! Está a vestir-se no quarto, nesta casa nada funciona a tempo e horas…
- Mas a Dama Leonor tão bem arranjada que está…
- Ah, gentiliza e simpatia da sua parte, Bernardo…
- A mais verdadeira das verdades, cara Leonor.- Dama Leonor sentira uma
flecha a entrar-lhe pelo coração quando Bernardo se deu às intimidades de a
tratar unicamente pelo nome próprio, chegando-se fervorosamente a ela.
- Tome. Aqui está o seu gin. Este é o meu.
- Agradecido, Leonor. Queira sentar-se comigo e fazei-me companhia nesta
espera. Vem um cheiro agradável da cozinha, o que prepara Anastácia para o
jantar?
- Uma boa surpresa a meu mando, fique descansado.
- Ora, diria eu que a maior surpresa já se me assomou, mas uma surpresa
nunca vem só, já dizia a minha avó Guilhermina…
- Ora, meu caro, hoje será uma noite de surpresas.
- Mal posso esperar pela sobremesa.
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